06/03/10 - 03:58:54
Os cem anos de Tancredo Neves

 

 

Reportagem especial: Os cem anos de Tancredo Neves

::. Escrito por Stella Bortoni às 03:58:54


01/03/10 - 08:52:30
Um bom docente vale mais que instalações de luxo

Terremoto em 1835 ajudou Darwin a criar teoria da evolução Novo

A paisagem exuberante e o calor dificultam a reflexão (Lêdo Ivo) Novo

Sua majestade, o professor
Pesquisa de sociólogo da UnB aponta que, para a maioria dos alunos, um bom docente vale mais do que instalações luxuosas

Marta Avancini

 

Num tempo em que a concorrência entre as instituições de ensino superior se acirra, a questão da sobrevivência das organizações coloca-se como preocupação central para muitos gestores. O que faz a diferença nesse contexto? A infra-estrutura, a gestão ou o relacionamento entre alunos, professores e funcionários?

Uma pesquisa realizada pelo sociólogo Gilson Borda, que resultou na sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Brasília, contém algumas ideias que podem ajudar as instituições a se posicionarem nesse contexto. A partir de questionários e entrevistas aplicadas a 351 alunos de duas instituições de ensino superior particulares do Distrito Federal, Borda concluiu que um bom professor vale mais do que instalações luxuosas. O resultado é válido para 80% dos estudantes que participaram do estudo e está relacionado, segundo o autor do trabalho, a uma mudança das relações que estão em curso no mundo contemporâneo.

Além de alunos, que responderam a um questionário com questões semi-abertas, foram entrevistados 14 gestores e profissionais das duas instituições. Uma delas existe há mais de 40 anos e localiza-se no Plano Piloto (área central de Brasília); a outra é pequena, nova e fica numa cidade-satélite (periferia). O autor conta que optou por investigar instituições com perfis diferentes para obter mais abrangência de resultados.

"Na segunda metade do século passado prevaleciam o capital econômico e o capital intelectual como valores das organizações. No cenário atual, o capital social está ganhando cada vez mais espaço como fundamento da relação de confiança que uma organização estabelece com as pessoas", diz Borda, explicando que capital social diz respeito às relações das instituições com clientes, prestadores de serviço, funcionários ou a comunidade em geral. Na opinião dele, a importância do capital social só tende a aumentar.

E, nesse processo, os professores desempenham um papel fundamental, afinal, são eles que convivem com os estudantes no dia a dia, constituindo-se na face mais visível da instituição. "O professor consolida ou não a confiança que o aluno mantém com a instituição de ensino", sintetiza o pesquisador. Ele considera que a sobrevivência das instituições está relacionada ao estabelecimento de relações de confiança, sobre as quais se constrói a credibilidade.

Para Borda, esse resultado implica o rompimento de algumas ideias preconcebidas, como a de que a imagem se constrói apenas por meio de uma comunicação eficiente. "A espiral de confiança é construída à medida que são reforçados os valores fundamentais", explica o pesquisador. Ele constatou um grau de satisfação maior dos alunos da instituição mais nova e menor, onde os resultados indicam a existência de maior engajamento dos professores. Por isso, ele reitera que o capital econômico e tudo que se associa a ele (investimento em infraestrutura, por exemplo) está vinculado ao capital social (o bom ou mau relacionamento com alunos, por exemplo). Novamente, os docentes são fundamentais nesse processo: o estudo aponta que a qualificação dos professores é o principal fator de atração de uma instituição .

Para Fábio José Garcia dos Reis, diretor de operações do Centro Unisal, em Lorena, no interior de São Paulo, o reconhecimento da importância do professor numa instituição educacional é algo que se constata ao longo da história e continua valendo até hoje. "Os professores tornam-se referência pelas suas publicações, pelo relacionamento com o mercado, pela sua capacidade de elaborar novos projetos e serviços e pelas diversas conversas com os alunos na orientação para o estudo, pesquisa ou trabalho", afirma.

Para Roberto Lobo Leal e Silva Filho, diretor da consultoria Lobo & Associados, o professor é o "DNA da instituição". "Não adianta ter um salão de mármore se os professores forem omissos", sintetiza. Entretanto, ele considera que o professor tem peso maior ou menor dependendo do perfil da instituição. "Nas instituições de massa, o valor da mensalidade pode ser um forte fator de atração", analisa. Mas mesmo nessas instituições, ressalva o consultor, não se pode esperar a oferta de um ensino de qualidade somente com professores horistas.

Reis se contrapõe, enfatizando que a credibilidade não está relacionada, necessariamente, ao tempo de dedicação do professor, embora reconheça que é importante ter muitos docentes vinculados a fim de se levar adiante projetos de pesquisa, ensino e extensão. "É ideal, mas o alto custo torna isso inviável para muitas instituições privadas."

Titulação é atrativo

Ao realizar a pesquisa para a sua tese de doutorado pela Universidade de Brasília, o sociólogo Gilson Borda pediu, em questionário distribuído aos alunos, que eles enumerassem, de forma classificatória (1º, 2º, 3º lugar), o que mais os atraiu no momento de escolha de uma instituição de ensino superior.

Para 86,6% dos participantes, a qualificação e a titulação dos professores foram marcadas como um dos cinco atrativos mais importantes para a escolha da instituição, distribuídos da seguinte forma: 32,5% dos alunos consideram a qualificação dos professores como o item mais importante; 20,7% como o segundo item; 13,6% como terceiro; 9,3% indicaram como quarto item e 10,5% marcaram como quinto fator. Apenas 1,9% dos participantes enumeraram a qualificação e a titulação dos professores como item menos importante entre os expostos.

Em sua tese, Borda observa que a marca da instituição também é um fator de referência para a credibilidade. "Em um momento inicial, caso o aluno não conheça o professor, ou não tenha informação suficiente sobre ele, é [a instituição educacional] quem pode validar o docente e sua formação", escreve. Em outros casos, especialmente se a instituição está em fase de desenvolvimento de sua imagem institucional, é o professor, pelo seu bom currículo, que gera valor e atratividade para a marca.

Fonte: Revista Ensino Superior


::. Escrito por Stella Bortoni às 08:52:30


28/02/10 - 16:27:01
Morre o bibliófilo José Mindlin
FHC diz que mudou lei em prol de Mindlin
28 de fevereiro de 2010 15h29
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José Mindlin em sua biblioteca particular, em foto de 19 de setembro de 2008 Foto: Gustavo Scatena/Imagem Paulista Fotografia/Divulgação

José Mindlin em sua biblioteca particular, em foto de 19 de setembro de 2008
Foto: Gustavo Scatena/Imagem Paulista Fotografia/Divulgação

Hermano Freitas
Direto de São Paulo

O ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), afirmou na tarde deste domingo que, enquanto era presidente do Brasil, mudou uma lei, no ano de 1996, para que o empresário e bibliófilo José Mindlin pudesse doar os 38 mil livros de sua biblioteca pessoal para a Universidade de São Paulo (USP). "O Brasil é tão estapafúrdio que quando eu era presidente fui obrigado a mudar a lei que obrigava a pagar 25% do valor da doação, ele não tinha esse dinheiro", afirmou.

José Mindlin morreu em São Paulo na manhã deste domingo por falência múltipla de órgãos no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado há cerca de um mês. Mindlin tinha 95 anos. O corpo está sendo velado no hospital e deve enterrado às 15h no Cemitério Israelita da Vila Mariana.

O ex-presidente também falou sobre a atuação de Mindlin no episódio da morte do jornalista Vladimir Herzog. "Ele foi muito mais que um bibliofilo, foi um resistente contra o regime autoritário, sou testemunha disso. Ele era uma pessoa preocupada com o País e com fortes sentimentos democráticos", disse Fernando Henrique.

Ao lado de Fernando Hernrique, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), Serra também elogiou a atuação do empresário durante o mesmo episódio. "Em um certo momento, ele foi uma grande figura política. Soube defender a liberdade de imprensa naquele episódio da morte do Vladimir Herzog. Uma grande figura de São Paulo", disse.

Também presente no velório, o Senador Eduardo Suplicy (PT-SP) lamentou a morte do bibliófilo e falou sobre a postura adotada por Mindlin no episódio da morte de Herzog. "Sou muito amigo, conhecia ele de perto. Era uma pessoa formidável, com uma visão ampla, sempre teve uma postura muito aberta com os governantes em um momento muito importante como secretário estadual da Cultura. Teve postura firme no episódio da morte do jornalista Vladimir Herzog, que foi um momento de enorme dor para todos nós", disse.

O reitor da Universidade de São Paulo (USP), José Grandino Rodas, afirmou que Mindlin lutou muito para a faculdade pudesse receber seu acervo pessoal de livros. "Ele lutou por 15 anos para que a USP recebesse os livros. Devia ter sido o contrário", disse o reitor. Ele afirmou que além dos livros, o bibliófilo tinha um acervo muito completo de mapas do Brasil, além da primeira edição de livros muito importantes, como Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

Biografia Mindlin nasceu em São Paulo em 8 de setembro de 1914. Formado em direito pela Universidade de São Paulo, foi redator do jornal O Estado de S. Paulo de 1930 a 1934 e advogou até 1950, quando fundou e presidiu a Metal Leve.

Foi casado com Guita Mindlin, que morreu em 25 de junho de 2006. O casal teve quatro filhos: a antropóloga Betty, a designer Diana, o engenheiro Sérgio e a socióloga Sônia.

Mindlin foi membro do Conselho Superior da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de 1973 a 1974 e de 1975 a 1976, diretor do Conselho de Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e secretário da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, quando estruturou a carreira de pesquisador. Fez parte do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq), do Instituto de Pesquisa Tecnológica, e da Comissão Nacional de Tecnologia da Presidência da República, entre outras entidades.

O bibliófilo recebeu ainda diversas premiações, entre elas, em 2003 o prêmio Unesco Categoria Cultura; a Medalha do Conhecimento concedida pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; prêmio João Ribeiro da Academia Brasileira de Letras; e, em 1998, o prêmio Juca Pato como Intelectual do Ano.

O casal formou uma das mais importantes bibliotecas privadas do País, que Mindlin começou a formar aos 13 anos e chegou a ter 38 mil títulos. Em maio de 2006, o casal fez a doação de cerca de 15 mil obras da Biblioteca Brasiliana para a USP. No conjunto doado, constam raridades como documentos do século XVI com as primeiras impressões que padres jesuítas tiveram do Brasil, jornais anteriores à Independência e manuscritos que resgatam a gênese literária de grandes obras, como Sagarana, de Guimarães Rosa, e Vidas Secas,de Graciliano Ramos.

É o autor de Uma Vida entre Livros, Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Lançou em 1998 o CD O Prazer da Poesia.

Com informações da Academia Brasileira de Letras.

Fonte: www.terra.com.br


::. Escrito por Stella Bortoni às 16:27:01


21/02/10 - 17:57:03
Alfabetização de pescadores

International Mother Language Day (novo)

Folha de SP  dia 21/02/10

 

Governo importa método cubano de alfabetização

Programa é baseado em 65 aulas em vídeo, recorde para cursos do tipo, que costumam durar de seis a oito meses

Técnicos de Cuba foram enviados aos Estados ondeo Ministério da Pesca implementa o projeto; despesas são pagas pelo Brasil 

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA 

Após anos de resultados tímidos no combate ao analfabetismo, o governo Lula resolveu importar de Cuba uma tentativa de atacar o problema. Há dois meses, o governo federal utiliza um método importado da ilha caribenha para ensinar pescadores a ler e escrever.
O programa -chamado Sim, eu posso, ou Yo, sí puedo, no original- promete alfabetizar uma pessoa após 65 aulas em vídeo, um tempo recorde para cursos do tipo, que costumam durar de seis a oito meses.
Para implantar o método, técnicos cubanos foram enviados aos cinco Estados onde o projeto está sendo implementado pelo Ministério da Pesca e Aquicultura.
O governo de Raúl Castro cedeu os filmes e enviou os consultores. O Brasil paga as despesas deles no país.
Para Maria Luiza Gonçalves Ramos, que coordena o programa, a principal vantagem do Sim, eu posso é que ele se adequa ao tempo dos pescadores: como eles passam longos períodos no mar ou no rio, tendem a abandonar cursos de alfabetização mais extensos.
Já o Sim, eu posso pode ser encaixado no período de defeso, em que a pesca é proibida e que dura em média três meses. Depois, são feitos "círculos de cultura", com objetivo de consolidar o aprendizado.
Trazido ao Brasil em 2005, em um projeto-piloto do Ministério da Educação no Piauí que acabou não tendo seguimento, o Sim, eu posso também é utilizado pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e será aplicado neste ano em Fortaleza e João Pessoa.

Vantagens
Para a coordenadora de educação do movimento, Maria Cristina Vargas, uma das principais vantagens do método é que ele possibilita que lugares com pouca estrutura, ou com educadores menos qualificados, tenham acesso às mesmas condições de locais mais favorecidos, uma vez que a aula acontece pelo vídeo.
Por outro lado, críticos apontam que o método não vai muito além da decodificação do alfabeto. Antonio Ferreira Sobrinho, professor da UFPI (Universidade Federal do Piauí) que acompanhou o projeto-piloto no Piauí, avalia que o método tira o aluno do estágio mais primário do analfabetismo, mas, diferentemente de outros programas, não enfatiza leitura e interpretação de textos. Esse, segundo ele, foi um dos motivos para o projeto não continuar no Estado -além do custo de aparelhos de TV e DVD.
Timothy Ireland, especialista em educação da Unesco (ligada à ONU) e à frente do departamento de Educação de Jovens e Adultos do MEC na época, também diz que não adianta os alunos aprenderem rápido com o Sim, eu posso se não continuarem estudando depois -com o tempo, esquecem o que aprenderam.
De acordo com ele, a avaliação da aplicação do método no Piauí indicou que a eficácia da iniciativa estava mais ligada ao fato de os alfabetizadores terem tido treinamento prévio e acompanhamento ao longo do programa do que ao método em si. Cerca de 80% dos que participaram dos cursos foram considerados alfabetizados.
Embora venha ganhando espaço no país nos últimos anos, o Sim, eu posso é ainda minoritário entre os métodos de alfabetização usados no Brasil e tem uma abrangência pequena.

 

ANÁLISE

Sem continuidade, método perde eficácia

No afã de superar baixos índices de alfabetização, Estados adotam métodos aligeirados que comprometem a qualidade e a relevância da aprendizagem 

MOACIR GADOTTI
ESPECIAL PARA A FOLHA 

O "Documento de Incidência da Sociedade Civil", preparado pelo Conselho Internacional de Educação de Adultos e discutido na 4ª Conferência Internacional de Educação de Adultos da Unesco, realizada em Belém, no início de dezembro de 2009, fez um apelo aos Estados "para superar e ir além das iniciativas baseadas em alfabetização a curto prazo e campanhas de pós-alfabetização". 
No afã de superar baixos índices de alfabetização, Estados vêm adotando métodos aligeirados que comprometem a qualidade e a relevância da aprendizagem. As políticas devem ser articuladas no marco da aprendizagem ao longo de toda a vida. Sem políticas estruturantes de longo prazo, intersetoriais e integrais, não conseguiremos eliminar o analfabetismo. Os promotores do chamado método cubano "Yo, sí puedo" (Sim, eu posso) sustentam que podem alfabetizar em 35 dias. Como um processo de alfabetização intensivo, ele se utiliza de cartilhas e é marcadamente instrucionista. Podemos reconhecer a sua eficácia, mas não podemos deixar de apontar, também, suas limitações pedagógicas. A avaliação, por exemplo, não pode se constituir apenas de uma prova final ou da cópia de uma carta. 
Como um instrumento inicial de promoção da alfabetização, ele pode ter efeitos positivos. Contudo, sem uma continuidade, esse método, a médio prazo, perde a eficácia inicial. As campanhas gerais, notadamente com voluntários e na base de muita mídia, desconsideram os diferentes contextos regionais e a diversidade cultural dos aprendizes. A utilização de novas tecnologias não deve quebrar a relação pedagógica. Nada substitui o alfabetizador. 
A alfabetização é multifacetada. Não há uma só alfabetização como não há nenhum método milagroso. Existem várias alfabetizações: digital, cívica, ecológica, política... Há conhecimentos sensíveis, técnicos, simbólicos. O combate ao analfabetismo não se reduz à política de escolha de um método. A educação de adultos, a começar pela alfabetização, é um direito que deve ser garantido a todos e com qualidade. 

MOACIR GADOTTI é professor da Faculdade de Educação da USP e diretor do Instituto Paulo Freire

 

Programa foi criado durante a década de 1990

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O método Sim, eu posso foi criado em Cuba no final da década de 1990, quase quatro décadas depois de o país praticamente eliminar o analfabetismo -hoje 99,8% da população sabe ler e escrever, segundo a Unesco, o braço da ONU para a educação.
A primeira experiência foi realizada no Haiti, com aulas via rádio. Posteriormente, o método foi desenvolvido em vídeos que, de acordo com o governo cubano, chegaram a 28 países. Nos últimos anos, os governos de Bolívia, Equador e Venezuela se declararam livres do analfabetismo após campanhas de alfabetização que utilizaram o Sim, eu posso.
O método parte do princípio de que os analfabetos têm alguma familiaridade com o sistema numérico. Ao longo de todo o curso, então, cada letra será associada a um número: A é 1, E é 2 e assim por diante.
Nas primeiras aulas, os alunos aprendem a representar os números e, em seguida, as vogais. O vídeo mostrará, por exemplo, a palavra "casa", com o número 1 abaixo das duas letras A. Em seguida, na versão brasileira, vêm as consoantes, que segundo os cubanos, são mais usadas em português: L, R e F.

Novela
As aulas tentam se assemelhar a uma novela, em que, além da professora, estrelam cinco alunos e um comentarista, personagem encenado pelo ator Chico Diaz.
No Sim, eu posso, o educador que está na sala de aula atua mais como um facilitador da aprendizagem do aluno, tirando dúvidas e corrigindo exercícios. A professora mesmo é a que aparece no vídeo.
Ao todo, são 65 "episódios". Considerando-se que seja exibido mais de um vídeo por dia, a promessa é alfabetizar em sete semanas -o tempo, porém, varia de acordo com o local onde é adotado. Ao final do curso, o aluno deve escrever uma carta.
Em avaliação do método feita em 2006, a Unesco diz que é uma "estratégia valiosa para lutar contra o analfabetismo", mas tece diversas críticas: problemas "de caráter técnico e político" dificultam uma avaliação externa dos resultados; a autoavaliação feita por Cuba carece de "autocrítica" já que o regime comunista gosta de propagandear seus supostos feitos e o sistema explora pouco os vínculos da língua com a cultura e não aproveita a contribuição de outros métodos.


 


::. Escrito por Stella Bortoni às 17:57:03


18/02/10 - 13:22:04
Usos e curiosidades sobre a língua que falamos e outras

De trás pra frente

Sírio Possenti
de Campinas (SP)


Todas as sociedades inventam brincadeiras com com materiais linguísticos, conta Sírio Posssenti
(Gravura: M.C. Escher/ Reprodução)

Vi na TV uma rápida reportagem sobre o assunto. Dias depois, uma chamada para o Fantástico dizia que um repórter ia cobrir a curiosidade para esse programa que não vejo há anos. Sempre que vejo as chamadas - seja pelos temas, seja pelas caras e bocas - sobre as atrações ou leio alguma nota sobre o que foi mostrado no último domingo, decido não assistir e depois dou graças por não ter assistido (espero que os leitores, os que a perceberem, não impliquem com essa construção passiva...).

A tal curiosidade ocorre em Sabino, pequena cidade do interior de S. Paulo. Lá, um grupo de pessoas fala de um jeito gozado, dizia a chamada. Seguia-se a inserção de diálogos incompreensíveis. Em seguida, o segredo era revelado: falavam de trás pra frente, isto é, invertendo a ordem das sílabas das palavras. Um exemplo simples: "problema" vira "mablepro" (aparentemente, sem nenhum interferência de sotaque "caipira", ou seja, "ble" é ble mesmo).

Um exemplo mais extenso: "Aceite o desafio de Sabino" se torna "Teceia o ofisade de Nobisa". Um detalhe interessante: palavras de uma sílaba, previsivelmente, não sofrem nenhuma mudança. Por exemplo, "vamos falar de trás pra frente agora", em sabinês, é "larfa de tras pra tefren ragoa" - inclusive pra, claro. "Neurônios" vira "osnironeu", ou seja, o ditongo é tratado como hiato, mas essa diferença realmente é sutil. Não pude ouvir (vi só uma transcrição) como se pronuncia "totex", que destaco por causa do "x", sabe como é... "Gache de ser nhozimalnor!!" (chega de ser normalzinho) parece ser uma divisa e um desafio.

O que é isso? O caro leitor pode ter certeza de que não se trata de mais uma tentativa de acabar com nossa língua portuguesa. É apenas um exemplo dos diversos papéis que uma língua exerce numa sociedade. Aqueles que pensam ou defendem que uma língua deve ser sempre correta, e as frases e textos, claros e simples estão perdendo o melhor da festa.

Até porque a decisão sobre clareza (ou não) e correção (ou não) nunca é tomada no nível da língua (da gramática), mas sim no interior dos campos ou das esferas sociais da ação linguística. São os que fazem e publicam ciência que decidem que os textos devem ser assim ou assado, critério que, claramente, não é seguido pelos que fazem ou publicam literatura (revistas de física não publicariam Guimarães Rosa, nem Machado...). Os papers têm o mesmo formato desde Newton. Mas a poesia mudou pra caramba!

Todas as sociedades inventam brincadeiras com materiais linguísticos. Em geral, as invenções são anônimas. São ao mesmo tempo brincadeiras (um jogo) e formas de selecionar o que numa língua é, por exemplo, problemático ou, inversamente, mais ou menos óbvio.

Os quebra-línguas selecionam problemas, que podem ser de pronúncia ou relativos à ambiguidade, por exemplo: "três tigres com trinta tigrinhos", "debaixo da pia tem um pinto; enquanto a pia pinga o pinto pia" ("pia" é nome e verbo).

Mas tais brincadeiras também mostram que certas categorias são óbvias: quebramos a cara com teorias da sílaba, mas quem fala a "língua do pe" (ou sabinês...) sabe que se trata de uma coisa óbvia. Qualquer criança sabe tudo.

Esses jogos mostram também outras facetas dos usos da língua: um jogo pode ser fonte de diversão (em vez de jogar baralho, joga-se língua...) e ser, ao mesmo tempo, uma espécie de um código secreto. Tanto a "língua do pe" quanto o sabinês são ao mesmo tempo fáceis (se não fossem não poderiam ser dominadas por qualquer um que se dedique um pouco a isso) e "estranhas", ou seja, funcionam como um código acessível apenas aos iniciados.

Uma variante da "língua do PE" é o "pig latin" (latim de porco...). Li sobre isso num manual de linguística e passo aos leitores um exemplo: Is-thay entence-say, or-fay example-ay, is-ay itten-wray in-ay ig-pay atin-lay. A regra é: acrescente "ay" no final de todas as palavras, mas coloque antes de "ay" a primeira consoante de cada uma: assim "this" vira "is-thay", "sentence" vira "entence-say", "pig" vira "ig-pay". "In" vira "in-ay", "exemple" vira "exemple-ay", porque começam por vogais. Sofisticado? Pelo que soube, crianças que falam inglês resolvem isso tão facilmente quanto as brasileiras resolvem língua do pe (informo que ouvi língua do PE e a pratiquei na primeira infância; na na coluna passada dei umas informações sobre que tipo de falante eu fui na infância).

Em resumo: línguas servem para tudo! É uma pobreza mental incrível querer transformá-las apenas no espaço das regras uniformes. Perderíamos, no mínimo, todas as chances de fazer humor de base linguística! Seria o fim! Ainda bem que ninguém obedece: poetas, humoristas, publicitários e, principalmente, o povo.

Acrescento duas notas. Uma: observe-se que o internetês - que muitos maldizem - entra nessas categorias (código secreto e jogo). Outra: um dos jogos mais interessantes é o palíndromo.

Trata-se de uma sequência que tanto se lê da esquerda para a direita quando da direita para a esquerda (mas deve haver em outros sistemas de escrita e de leitura): os mais simples são nomes (ANA, ANILINA) ou números (2002, 1001). Um pouco mais complexos são as pequenas frases, como TUCANO NA CUT, um bom problema político-ideológico, além do mais.

 


::. Escrito por Stella Bortoni às 13:22:04