Hollywood exercita uma virtude muito saudável, que é a capacidade de rir de si mesma, na comédia Ave, César ( Hail Caesar ) de Joel e Ethan Coen. Nos anos 1950, um executivo de grande estúdio em Los Angeles ( Josh Brolin) tem a árdua tarefa de cuidar do bem-estar das celebridades, quase sempre envolvidas em escândalos sexuais, garantindo assim o bom andamento da indústria de filmes na empresa. Concilia seu trabalho com uma obsessão pelo sacramento da confissão, já que é católico.
O filme é sátira em que ninguém é poupado, nem os teóricos que desenvolvem eruditas análises sociológicas e sócio-históricas, tampouco os responsáveis pelas arengas marxistas. Sobra até para Carmen Miranda. Pratica-se também um tipo de meta-sátira, pois um rabino, um pastor e um padre são chamados a opinar se o filme dentro do filme estaria desrespeitando a fé e as crenças do público americano.
O principal foco da crítica humorística é o cinema, propriamente, e toda sorte de gêneros cinematográficos: Os efeitos especiais e os super heróis, presentes com um submarino que emerge e submerge ao lado de uma canoa cheia de remadores. Os musicais, ilustrados por uma dança de marinheiros prestes a embarcar em seus navios, o ballet aquático que ornamenta os filmes das atrizes sereias como Esther Williams, os faroestes e seus heróis, incapazes de dizer uma linha sequer de diálogo, mas que são bons no laço e no trato com os cavalos e por aí vai até chegar aos filmes bíblicos _ de onde se deriva o título do filme _ como “Os Dez mandamentos”, “Ben Hur”, “O manto sagrado”, “O cálice sagrado ... Na cena principal, o galã (George Clooney), vivendo um centurião romano, tem de fazer um profissão de fé diante de Jesus crucificado. Ele acerta quase tudo, só esquece a última palavra que é justamente fé. É bom observar , contudo, que o filme não brinca com a religião de ninguém . O alvo é sempre o próprio cinema.
É um humor refinado, com muitas intertextualidades e referências históricas. Recomendo.