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A Brasília que não lê
Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?
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Projeto Leitura O Projeto Leitura, tem como objetivo vencer um dos maiores desafios encontrados pelos professores e amantes da literatura: Criar o hábito da leitura.

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LEITURA E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA

Autor(es): Stella Maris Bortoni-Ricardo

Categoria(s): Estratégias de Ensino , Formação do professor de língua portuguesa , Lançamentos

 


ISBN: 9788579340420
Preço: R$35,00
R$29,75
Você Economiza: 15.00%

256pp.
16X23cm
brochura

Descrição:

O que fazer para levar os estudantes a entenderem os textos que leem e escrevem na escola e fora dela? Estudantes provenientes de grupos minoritários ou em desvantagem econômico--social enfrentam grandes dificuldades para acompanhar os currículos escolares, em todas as disciplinas. Essas dificuldades têm sido discutidas como resultantes das diferenças linguísticas entre as variedades que compõem o repertório desses alunos e a variedade empregada na transmissão sistemática de conhecimentos na escola. No livro que estamos publicando, nosso foco não é a heterogeneidade linguística apenas, mas principalmente a heterogeneidade na cultura e na visão de mundo dos alunos que a escola recruta nos grupos sociais com pouca experiência de letramento, a maioria da população. Nosso livro vai contribuir para a ensinagem (ensino e aprendizagem) da leitura e se insere numa lacuna pedagógica: o desenvolvimento de um acervo de estratégias mediacionais que implementem o conhecimento enciclopédico, necessário à compreensão durante a leitura de textos didáticos ou paradidáticos, com alunos estudantes de redes sociais de cultura predominantemente oral. Os resultados das pesquisas aqui relatados poderão contribuir para que os professores possam enriquecer o ensino com a construção de uma pedagogia da leitura, muitas vezes inexistente em nossas salas de aula.

clique aqui para acessar o sumário e parte da obra para degustação

 

Brasília. 52 anos

Em terra de sapo...

 

 

Balões colorem o céu de Brasília (DF) durante festival para comemorar os 52 anos da cidade. Foto: Gustavo Gantois/Terra

 

 


Escrevi este texto no jubileu de ouro de Brasília, há dois anos. Está publicado no livro Bortoni-Ricardo, S.M. "Do campo para a cidade", Parábola Editorial, 2011

Reproduzo-o aqui como uma homenagem aos candangos que construíram esta cidade que amamos e que tem sido tão vilependiada.

Escolhi Brazlândia, confiando em sua merecida reputação de  comunidade ordeira, com baixo índice de criminalidade e pouca rotatividade populacional. E acertei. A ideia era conhecer famílias oriundas de Minas Gerais, mais propriamente de área rural, e estudar o seu processo de adaptação à vida urbana, no Distrito Federal.

Os anos oitenta tinham iniciado há pouco e eu buscava compreender o processo de migração campo-cidade para escrever uma tese de doutorado.  Quem me ajudou a escrevê-la foram os mineiros de Brazlândia, provenientes da região do Alto Paranaíba.

Serei sempre grata a esses meus conterrâneos pela acolhida. Três vezes por semana, eu entrava em minha brasília vermelha, velha e com o assoalho bem enferrujado, e pegava, com um grupo de três alunos da Universidade de Brasília , a Estrutural, opção nova na época para se  chegar a Brazlândia. Quando eu retornava, no início da noite, e  entrava no Eixo Monumental  , vislumbrando a Esplanada dos Ministérios iluminada, a sensação que tinha era que  havíamos viajado no tempo, não apenas no espaço de pouco mais de meia centena de quilômetros, entre as duas cidade.

Era um trabalho etnográfico e cada família que eu ia conhecendo me indicava outras tantas, o que me permitiu relacionar-me com um grande número de moradores, coincidentemente quase todos de Minas Gerais. Aonde eu chegava e me ofereciam comida, eu aceitava e partilhava com eles do café, da merenda ou do almoço. Às vezes para a merenda, não havia mistura, só café. Eles se desculpavam e diziam: café de mineiro é corageiro, anda sozinho.

A cidade se compunha de dois bairros, o Setor Tradicional, núcleo já existente quando Brasília foi construída, e o Setor Novo Loteamento. Todos os amigos que lá fiz viviam no Novo Loteamento. A maioria já tinha casa de alvenaria, mas havia muito esgoto escorrendo a céu aberto. Eram famílias bem constituídas, cujos chefes exerciam variadas profissões urbanas: de vigias, garis, jardineiros, carpinteiros, ou ganhavam a vida honestamente na economia informal, vendendo picolé, ou dim-dim.  Pouco se deslocavam da cidade, no máximo tinham o hábito ou precisão de ir até Taguatinga. Muitos só haviam estado no Plano Piloto por ocasião da primeira visita do Papa, quando vieram em caravana organizada pela paróquia.  Quase todos pertenciam à Sociedade de São Vicente de Paulo e a outras organizações religiosas.

Uma vez convidei dois deles, que formavam uma dupla sertaneja, para vir cantar na UnB. Fui buscá-los em seu serviço, no SLU de Taguatinga. Antes de ir para a Asa Norte, passeamos pela Esplanada, eles maravilhados com os edifícios monumentos, especialmente o Teatro Nacional. Cantaram no “Show do Arroto”, organizado pelos alunos, logo após o almoço no Bandejão. Foi um sucesso. O Oswaldo Montenegro estava na plateia e os elogiou muito. Isso faz tantos anos, não sei se ainda cantam.

Permaneci lá quase um ano, mas após as primeiras semanas de convívio com aquela boa gente, já podia perceber que havia uma diferença bem marcada entre os que migraram  em idade adulta e os jovens _ os filhos, netos ou sobrinhos _  que chegaram ainda crianças ao Distrito Federal. Nesse último grupo quase todos estavam na escola ou já tinham concluído o que na época se chamava de Segundo Grau, sem contudo lograrem um emprego compatível com o seu nível de escolaridade.

Essas diferenças inter-geracionais se manifestavam em muitos aspectos, especialmente nos hábitos culturais e nos modos de falar. Enquanto os mais velhos preservavam características pré-migratórias, os mais jovens se ajustavam muito depressa aos modos de ser e de viver de Brasília.

Foi lá em Brazlândia mesmo que ouvi um dito popular equivalente a muitos tratados de sociologia. Conversava eu com um de meus anfitriões, quando a prosa rumou para a questão de trabalho e empregos. Perguntei a ele se a esposa, ausente naquele momento, trabalhava fora. Ele me olhou muito firme e respondeu em seu mineirês:

_ “A senhora sabe, em terra de sapo, de co’ca qü’eis. Ele me explicou que no começo ela só trabalhava em casa. Mas depois foram vendo que aqui toda mulher trabalhava  fora e ela também arrumou um emprego”.

É assim mesmo que todos nós vamos-nos adaptando  ao jeito de viver em Brasília: em terra de sapo, de cócoras com ele. Mais recentemente, poderíamos até dizer, em terra de sapo barbudo, de cócoras com ele.

Os americanos e ingleses também expressam a mesma crença quando dizem “ Once in Rome, do as the Romans do”.

Cada um se acomoda de cócoras como pode,  espelhando-se no vizinho, no amigo, no colega de trabalho e às vezes até nos filhos.

Somos todos sapos, alguns já nascidos às margens do Paranoá, os mais velhos transladados das barrancas de outros rios para cá,  nas asas da esperança, na inquietação do pioneirismo. Assim vamos criando nossos próprios modos de viver em Brasília, de conviver bem com as diferenças, de apreciar e compor forró e música sertaneja; chorinho, rock  e música erudita.  Mandamos nossas crianças para a escola e hoje temos o  melhor nível de escolaridade no país. Consequentemente temos também o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano- IDH.

Mas não estamos no melhor dos mundos. Nosso Índice de Gini também é alto. É ele que mede a distância entre os estamentos mais ricos e os mais pobres de uma comunidade urbana ou de um país.  Mas eu, que levo muito fé em Brasília, acredito que podemos chegar à situação idealizada pelos fundadores da capital, que a viam como um espaço de igualdade social  e solidariedade.

PS. A pesquisa em Brazlândia deu origem a muitas outras sobre os modos de falar em Brasília. Elas estão reunidas no livro “O Falar Candango”, publicado pela Editora da UnB. São catorze relatos de pesquisa, organizados por mim e por duas colegas. Está sendo publicado como um tributo ao jubileu de ouro de Brasília.

 

Bortoni-Ricardo, Stella Maris.; Vellasco, Ana Maria de M.S. . e Freitas , Vera Aparecida de L. (orgs.) O falar candango. Editora da UnB, 2010.

   

Paulo Freire - Patrono da educação brasileira

 

ATOS DO PODER LEGISLATIVO

LEI Nº 12.612, DE 13 DE ABRIL DE 2012

Declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o O educador Paulo Freire é declarado Patrono da Educação Brasileira.

Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 13 de abril de 2012; 191º da Independência e 124º da República.

DILMA ROUSSEFF

Aloizio Mercadante

(Publicado no DOU Nº 73, seção 1, página 1, segunda-feira, 16 de abril de 2012)

 

Associação Brasileira das Universidades Comunitárias

 

   

Decorar não é aprender, ensina o Prêmio Nobel de Física,Richard Feynman

Ensino de Física no Brasil segundo Richard Feynman

Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que
se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia mais
oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses
estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso
mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell,
e assim por diante.
Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta
e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a
pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu
conseguia –, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando
sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaroide.
O polaróide só passa luz cujo vetor elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei
como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, baseando-se em se o polaróide é escuro ou
claro.
Primeiro pegamos duas filas de polaróide e giramos até que elas deixassem passar a maior parte da
luz. A partir disso, podíamos dizer que as duas fitas estavam admitindo a luz polarizada na mesma
direção – o que passou por um pedaço de polaróide também poderia passar pelo outro. Mas, então,
perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaroide.
Eles não faziam a menor idéia.
Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá
fora”.

 

Ninguém disse nada.
Então eu disse: “Vocês já ouviram falar do Ângulo de Brewster?”
– Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo no qual a luz refletida de um meio com um índice
de refração é completamente polarizada.
– E em que direção a luz é polarizada quando é refletida?
– A luz é polarizada perpendicular ao plano de reflexão, senhor. Mesmo hoje em dia, eu tenho de
pensar; eles sabiam fácil! Eles sabiam até a tangente do ângulo igual ao índice!
Eu disse: “Bem?”
Nada ainda. Eles tinham simplesmente me dito que a luz refletida de um meio com um índice, tal
como a baía lá fora, era polarizada: eles tinham me dito até em qual direção ela estava polarizada.
Eu disse: “Olhem a baía lá fora, pelo polaróide. Agora virem o polaroide”.
– “Ah! Está polarizada”!, eles disseram.
Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não
sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”,
eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da
luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava
totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu
perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha
correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando
“Observe a água”.
Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos…
são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são
considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam
todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza
de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o
único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era
difícil descobrir isso.
Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre
momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se
coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!
Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão
fazer com elas?”
– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.
– E como vai ser a prova?
– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois
corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques
iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa
coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado.
Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha
permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: ele respondeu tudo
certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu
perfeitamente. Depois eles perguntaram: “Quando a luz chega a um ângulo através de uma lâmina de
material com uma determinada espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?
– Ela aparece paralela a si própria, senhor – deslocada.
– E em quanto ela é deslocada?
– Eu não sei, senhor, mas posso calcular. Então, ele calculou. Ele era muito bom. Mas, a essa época,
eu tinha minhas suspeitas.
Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu
queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A
primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?”
– Não.
Aí eu perguntei: “Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa
sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o copo?”
– Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse virado o livro.
Eu disse: “Você não fez confusão com um espelho, fez?”
– Não senhor!
Ele havia acabado de me dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela a si própria e, portanto, a
imagem se moveria para um lado, mas não seria alterada por ângulo algum. Ele havia até mesmo
calculado em quanto ela seria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material
com um índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.
Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei
demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não
aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso
porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobre
realmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.
Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo
que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os
problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível
deles.
Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho
estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que
acontecia: eles não conseguiam fazer!
Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante
explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai
ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando
aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.
Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam
os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um
estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros
adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante
que ele está desperdiçando o tempo dos outros.
Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também
não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a
outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa
estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil,
definitivamente inútil!
Uma palestra para as autoridades brasileiras
Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar uma palestra sobre minhas
experiências com o ensino no Brasil. Na palestra, haveria não só estudantes, mas também
professores e oficiais do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: “É claro.
Esse é um país livre”.
Aí eu entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade.
Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra – negrito para as
coisas mais importantes para se decorar, mais claro para as coisas menos importantes, e assim por
diante.
Imediatamente, alguém disse: “Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está
aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro”.
– Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse. O auditório estava cheio. Comecei
definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: “Qual
um bom motivo para lecionar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos
que… pá, pá, pá”. Eles estavam todos concordando, porque eu sei que é assim que eles pensam.
Aí eu disse: “Isso, é claro, é absurdo, porque qual o motivo pelo qual temos de nos sentir em pé de
igualdade com outro país? Nós temos de fazer as coisas por um bom motivo, uma razão sensata; não
apenas porque os outros países fazem”. Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição
para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa – eu realmente os provoquei um pouco.
Daí eu disse: “O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está
ensinando ciência alguma no Brasil!”
Eu os vejo se agitar, pensando: “O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas
aulas”.
Então eu digo que uma das primeiras coisas a me chocar quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da
escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no
Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não
houvesse muitos físicos no Brasil – por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há
resultado.
Então eu fiz a analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não
há muitas crianças estudando grego. Mas ele vem a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo
estudando grego – mesmo as menores crianças nas escolas elementares. Ele vai ao exame de um
estudante que está se formando em grego e pergunta a ele: “Quais as idéias de Sócrates sobre a
relação entre a Verdade e a Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao
estudante: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz e prossegue:
“Disse isso, aquilo, aquilo outro” – ele conta tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um
grego muito bom.
Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a
Beleza!
O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo
primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem
recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas
realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as
traduziu em palavras que os estudantes possam entender.
Eu disse: “É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui
no Brasil” (Uma pancada, certo?)
Então eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados
resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola,
descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois
segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm Erros – ou seja, se você olhar, você
pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um
pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais –
muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem
uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta
correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo
de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais
teriam obtido tais resultados!”
“Descobri mais uma coisa”, eu continuei. “Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de
uma página, posso mostrar qual é o problema – como não há ciência, mas memorização, em todos os
casos. Então, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora em frente a este público,
colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores.”
Eu fiz isso. Brrrrrrrup – coloquei meu dedo e comecei a ler: “Triboluminescência.
Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”
Eu disse: “E aí, você teve alguma ciência? Não! Apenas disseram o que uma palavra significa em
termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza – quais cristais produzem luz quando
você os fricciona, por que eles produzem luz? Alguém viu algum estudante ir para casa e
experimentar isso? Ele não pode”.
“Mas, se em vez disso, estivesse escrito: ‘Quando você pega um torrão de açúcar e o fricciona com
um par de alicates no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem
isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência’. Aí alguém vai para casa
e tenta. Nesse caso, há uma experiência da natureza.” Usei aquele exemplo para mostrar a eles, mas
não faria qualquer diferença onde eu pusesse meu dedo no livro; era assim em quase toda parte.
Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de
autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas
ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que
se deram muito bem, e um dos físicos que eu sei que teve sua educação toda no Brasil. Assim, deve
ser possível para algumas pessoas achar seu caminho no sistema, ruim como ele é.”
Bem, depois de eu dar minha palestra, o chefe do departamento de educação em ciências levantou e
disse: “O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de se ouvir, mas parece que ele
realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar
atenção a ele. Eu vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o
que aprendi é que temos um câncer!” – e sentou-se.
Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se
levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras,
antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo.
Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes levantou-se e disse:
“Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Eu não
estudei no Brasil; eu estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil”.
O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O Professor
que eu havia mencionado levantouse e disse: “Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando,
felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo
sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro”.
Eu não esperava aquilo. Eu sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento – era terrível!
Uma vez que eu havia ido ao Brasil por um programa patrocinado pelo Governo dos Estados
Unidos, o Departamento de Estado pediu me que escrevesse um relatório sobre minhas experiências
no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que eu havia acabado de fazer. Mais tarde
descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: “Isso prova
como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar
problemas. Ele não entendeu os problemas”. Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no
Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de
cursos e descrições, era assim que era.
Extraído do livro “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman!” (título original: “Surely You’re Joking, Mr.
Feynman!”), publicado originalmente em 1985, nos Estados Unidos. O autor, Richard P. Feynman,
nasceu no ano de 1918 no estado de Nova Iorque, nos EUA. Estudou física no M.I.T. e em
Princeton, e lecionou em Cornell e no Instituto de Tecnologia da California. Deu importantes
contribuições à Física e foi considerado uma das mentes mais criativas de seu tempo. Ganhou o
prêmio Nobel em 1965 e faleceu em 1988. Na década de 50 ele viveu e lecionou por quase um ano
na cidade do Rio de Janeiro.

   

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