Geralmente concordo com tudo o que o colega Sírio Possenti escreve. Reconheço nele um linguista competente e um educador sensível à heterogeneidade nos modos de falar dos brasileiros. Mas desta crônica recente (abaixo) discordo. Nela ele minimiza a necessidade de se ter domínio da ortografia.
O ortografia é um conjunto de regras convencionais e muitas vezes arbitrárias e consiste apenas em um componente superficial dos saberes que temos de dominar para nos tornarmos funcionalmente alfabetizados.
Também não acho que os professores devem privilegiar a correção da grafia dos alunos em detrimento dos outros elementos da textualidade. Eles não devem privilegiar a questão ortográfica, mas não podem negligenciá-la.
Erros de ortografia são muito deletérios para quem os comete. A sociedade costuma tachar de incompetente e ignorante quem troca uma letra, esquece um acento, aglutina duas palavras,... Por exemplo, escreve ‘trás’, em vez de ‘traz’, ou “hora” em vez de “ora”.
Hoje em dia muitos ( mas nem todos ainda) têm acesso ao corretor de texto virtual, o que ajuda bem. Mas às vezes temos de manuscritar. Aí não temos o corretor.
Possenti fala também do revisor. Mas quem tem revisor? Só os escritores profissionais e os políticos. Nós, os simples mortais, temos de ser revisores de nossos próprios textos.
Enfim, ensinar a escrever não é só ensinar ortografia, mas é também ensinar ortografia, no próprio processo de ensinar a produzir textos.
Um abraço, Possenti. Até qualquer hora.
Ainda a grafia
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Depois de ter redigido a coluna que significou cair em uma armadilha, tinha pensado em falar um pouco mais sobre grafia (um dos temas da sátira de Xavi Puig). Exceto por este começo, segue o que escrevi então. Acho que ainda serve...
Quando meu filho estava na terceira ou quarta série do que seria hoje o ensino fundamental, eu ia à escola mensalmente para ouvir o que diziam dele e de seu desempenho. Numa das visitas, uma professora, ou coordenadora, já não lembro, com ares de preocupação, falou de seus erros de português. Eu disse: - Eu sei, os erros de ortografia (que nunca me preocuparam, informo aos leitores). Ela disse: - Não só, tem os outros. Eu disse: - Nunca vi, queria ver. Ela pegou o caderno, passou pelas páginas pintadas de vermelho, procurou, procurou. E concordou: - É verdade, só de ortografia. Eu disse: - Acho que eles desaparecem com o tempo. É só continuar escrevendo (e acrescentei, acho: - Talvez devessem escrever mais).
- Por falar nisso, eu continuei, você não quer que eu faça uma palestra sobre a natureza dos erros de ortografia? - Como assim? ela perguntou, meio espantada. - Dá para explicar, eu disse. - Os erros? ela perguntou - Sim, respondi. - Quem sabe, ela acrescentou.
Marcamos para um início de noite, na escola. À tarde, passei por uma banca. Casualmente, estava à venda (era mais uma dessas ótimas coleções) o volume Os Lusíadas. Comprei. Nunca tinha lido o Alvará Régio da Edição de 1572, nem o Parecer do Censor do Santo Ofício, que liberaram o livro. O parecer do Censor dizia, entre outras coisas, depois de anotar "que usa de hua (com til no "u"!) ficção dos Deoses dos Gentios": "Todavia, como isto he Poesia & fingimento, & o Autor, como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico..." etc.. Talvez, com tais argumentos, liberassem hoje As Caçadas de Pedrinho, sem mais anotações e explicações. Ao ler os tais documentos, levei um susto: lá estavam, quase os mesmos, os erros de ortografia que meu filho (e todos os da mesma idade) cometia. Fiz uma lista: "emprimir" (mas, logo antes, "imprimir"), "contem" por "contém", "aja" por "haja", "declarão" por "declaram", "fizerão" por "fizeram", "pareceo" por "pareceu", "toda via" por "todavia", "avendo" (na verdade, "auendo") por "havendo" etc. (Um episódio que sempre lembro envolvia as diversas grafias possíveis de "resolveu": rezouveu, rezolvel, resolvel, resouvel, resouvel etc. e, claro, resolveu, entre as quais ele penava para escolher uma; nós nos divertíamos com isso...).
Na escola, à noite, enquanto as professoras se acomodavam, transcrevi a lista no quadro. - Veio preparado, hein, professor? - disse uma delas, crente de que eu fizera a lista com base nos cadernos de meu filho. Mostrei os documentos portugueses do século XVI. Levaram um susto.
É que quase ninguém se dá conta de que a grafia não é propriamente parte da língua, mas apenas uma tecnologia para escrever. É verdade que as escritas alfabéticas, supõem uma análise bastante fina do sistema fonético-fonológico de uma língua. Nesse sentido, não são totalmente convencionais, já que se baseiam nos traços da língua. Por outro lado, são convencionais, na medida em que ora levam em conta a história da língua (o "h" inicial de "homem" é o melhor exemplo), ora não ("erva" sem "h" e "herbívero" com, é só um exemplo). Pelo critério de "erva / herbívero", poderíamos escrever "homem" sem "h" e "hominídeo", uma palavra mais culta, com.
Já vi defesas de que "ascender" e "acender" deveriam ser rescritas da mesma maneira (como "manga" ou "cão" em todos os seus sentidos), deixando de lado a história de cada uma das palavras. Se já estivéssemos acostumados a isso, não veríamos nenhum problema nesta solução, aposto. É só na hora de mudar que a questão parece mais grave.
Mas, principalmente, quase ninguém se dá conta de que, tanto antigamente, quando não havia uma legislação ortográfica, quanto hoje, para quem está aprendendo a escrever, as tentativas de representar as palavras por escrito da melhor maneira possível (que quase sempre propiciam alguma armadilha) produzem os mesmos efeitos: grafias duplas, "trocas" de letras, palavras autônomas que são "juntadas", palavras únicas que são separadas em duas porções etc.
O que explica esses erros, hoje? Antes de tudo, claro, a falta de domínio da escrita (que é, mas ao mesmo tempo não é tão fácil). Mas também as generalizações ("borraxaria" com "x" é um exemplo) e as tentativas de acertar (o sujeito tem dúvida se escreve "mal" ou "mau", "alto" ou "auto" e arrisca, escolhendo quase sempre a opção errada; a profusão de crases em placas é o melhor exemplo). Ou aplica o que pensa que é uma regra: aprende que o som /i/ se escreve com a letra "i", e, como ele minino, escreve "minino" (ou até "mininu"): "copia" os sons, porque foi o que aprendeu em seu "b + a = ba".
Voltando ao começo: lendo um texto antigo, de autoria de um geral dos jesuítas ou de um representante do governo português, ou a Carta de Caminha, descobrem-se algumas coisas sobre o português de então, mas descobrem-se também fatos importantes sobre a escrita: os escribas oficiais da época - ou seja, os profissionais da escrita - cometiam os mesmos "erros" que cometem os aprendizes de hoje (ou os que ficaram pelo caminho). Isso deveria ensinar alguma coisa sobre a escola e sobre a importância apenas relativa da escrita. Em poucas palavras: escrever com correção ortográfica (ou com ortografia uniforme) é muito mais uma questão para os editores do que para os escreventes, e mesmo para os escritores.
Os que escrevem devem saber escrever. Quando mais souberem ortografia, melhor, claro. Mas quem precisa mesmo saber ortografia é o revisor (que, em geral, não escreve nada).