A dívida de Obama - Artigo J. O Globo - 26/03/2011

Barack Obama ficou devendo uma nova viagem ao Brasil. Não mais como presidente, mas como escritor. Suas funções de presidente não o permitiram encontrar-se com leitores. É uma pena, porque é possível dizer que ele escreveu um clássico: “Sonhos vindos do meu pai - Uma história de raça e herança”.

Henry Louis Gates Jr. editou um belo livro com narrativas de escravos nos Estados Unidos. O que vem acontecendo nas últimas décadas nos EUA vai permitir uma nova coleção de narrativas de afro-descendentes: escritas por aqueles que estão vivendo os resultados do fim da segregação racial. Pioneiros ao se transformarem em grandes empresários, artistas, intelectuais e políticos negros. O livro de Obama fará parte desta coleção das narrativas clássicas dos primeiros negros norte-americanos a assumirem posições de destaque na sociedade até pouco tempo racista dos EUA.

Mas “Sonhos vindos do meu pai” não será um clássico apenas pela oportunidade histórica, também por sua qualidade literária, por sua profundidade psicológica, por sua análise política, sobretudo, pelo magistral trabalho de reconstituição de sua vida com a vida de seu pai, que ele mal conheceu. A trajetória do filho de um africano negro com uma branca norte-americana, nascido e crescido no Havaí, dos anos 1960; sua infância, adolescência e primeira juventude; e a trajetória de seu pai, nascido no mundo mágico, para os padrões ocidentais, do Quênia, estudante nos Estados Unidos, importante servidor público de volta ao seu país, marginalizado devido às reviravoltas políticas; tudo isto faz da narrativa um livro de aventura, de reflexão política, de reconstituição de um tempo, de comparação entre classes sociais e continentes.

O livro começa com a notícia da morte do pai, recebida em Nova York, por um telefonema desde o Quênia, na voz de uma tia a quem Obama não conhecia. Ele mal conhecera o próprio pai, que voltou ao Quênia quando o filho tinha apenas dois anos; e voltara ao Havaí, por alguns dias, quando o filho já era adolescente. Apesar da pouca convivência, o texto narra a influência do pai na formação de sua consciência de raça, seu credo político e sua militância social.

Ao longo dos anos, em leituras e conversas, em viagens e militância, ele busca sua origem, constrói sua consciência e ao escrever vai fazendo uma auto-análise das raízes de suas posições políticas e existenciais, sua negritude, sua visão de mundo ao lado dos pobres, dos excluídos, tratados vítimas do colonialismo.

É surpreendente como este jovem norte-americano teve a percepção do outro lado ao viver na distante Indonésia e nos bairros de negros e pobres de Chicago. E como o autor conseguiu perceber e mostrar as ligações e antagonismos entre os dois mundos.

Além da bela e instigante história, o livro constrói grandes personagens, recriados pela arte do autor: seus avós maternos, brancos norte-americanos; seus muitos irmãos e outros familiares africanos, pelo lado queniano; seus colegas de trabalho; gente da rua com quem conviveu; e sua mãe, grande e discreta heroína, que merece uma biografia própria. Sem ela e suas decisões, Obama não existiria, nem teria tido a oportunidade de viver sua aventura pessoal.

Tudo isto transmitido em uma linguagem poética, com imagens que permitem ao leitor viver nas ruas de Chicago; ouvir os diálogos e as dúvidas de seus avos maternos na Honolulu dos anos 60; ser testemunha dos debates entre radicais e moderados militantes negros; conhecer as angústias e desorientações dos que buscam imitar os colonialistas. Nos capítulos mais emocionantes, o leitor viaja pelas ruas de Nairóbi e pelo interior do Quênia, convivendo com um mundo mágico de irmãos e irmãs, tios, tias, esposas da vida polígama do pai, e, sobretudo, o avô, uma história que parece escrita por um Garcia Marquez.

Independente da avaliação que se fizer do seu desempenho até o final do governo, a eleição de Obama ficará como um dos fatos políticos mais marcantes do século XXI. Mas, se esta eleição não tivesse ocorrido, Obama ficaria como um grande escritor. Pelo tema, pela profundidade, pela sinceridade, pela riqueza do texto e do enredo como escreve sobre o seu mundo, da convivência e disparidade entre brancos e negros, América e África, colonizadas e colonialistas, sobre esperança e convergência.

Ainda bem que com a sua idade, ele ainda poderá escrever muito e pagar a dívida que deixou com seus leitores do Brasil.

 

*Cristovam Buarque é Professor e Senador pelo PDT-DF.

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