Uma regra linguística variável é aquela que apresenta duas ou mais formas de se dizer a mesma coisa. Não que essas formas ou variantes sejam equivalentes, como postulavam os primeiros variacionistas. Não se equivalem porque cada uma das tais variantes se associa a um valor sociossimbólico distinto. Explico: São variantes da mesma forma verbal: “Nós chegamos”; “nós chegamu”; “nós chegou” e “nós cheguemu”, mas à primeira se atribui prestígio,; as gramáticas a consideram correta, em detrimento das demais, que são estigmatizadas, em diferentes graus.
Estamos presenciando o uso de uma regra variável morfológica cujas variantes acabaram por receber valor sociossimbólico muito peculiar. Trata-se do substantivo “presidente” ou “presidenta”. As gramáticas abonam as duas formas, mas a primeira é mais usual na língua. Vejam-se, por exemplo, “adolescente”, “gerente”; “tenente”; “vidente”, etc. Ao ser eleita, Dilma Rouseff manifestou seu desejo de ser referida como “Presidenta”, talvez influenciada pelo espanhol (“La presidenta”), ou, como argumentou, porque o sufixo “a” marcaria melhor o fato de termos uma mulher na presidência. É um direito que assiste a ela, assim como os papas e reis escolhem o nome pelo qual querem ser chamados. Desde a posse, temos assistido a uma luta ingente e implícita entre as duas variantes. Os órgãos de imprensa do governo usam sempre “Presidenta Dilma”, os seus partidários também o fazem, já a imprensa em geral optou pela variante mais ortodoxa “Presidente Dilma; Vemos que o valor sociossimbólico, nesse caso, não está associado a prestígio, como no “nóis cheguemu”. Está associado a opção política, o que não deixa de ser, sociolinguisticamente falando, muito interessante.
Reproduzo abaixo um texto em que uma Professora, mestra pela USP, responde à crítica de um Professor da UNICAMP, ela a favor de “presidente”, ele a favor de “presidenta”. Bem, há coisas mais importantes para discutirmos em relação ao ensino da Língua Portuguesa, mas achei producente mencionar essa polêmica entre dois notórios estudiosos porque ela releva, em primeiro lugar, a liberdade de expressão, e, em segundo lugar, a importância que uma língua tem em moldar papéis sociais . Sem dúvida a língua é constitutiva das opções ideológicas, e também é por elas constituída. Forma e função estão, pois, dialeticamente ligadas, na estrutura e no uso das formas linguísticas, como dizia Dell Hymes.
Stella Maris Bortoni-Ricardo ( Brasília, DF, UnB, 15 de abril de 2011