Seis horas, não tinha muito tempo.Foi até o quarto dos filhos. Aninha, de onze meses, estava dormindo sossegada.Aproximou-se do Lucas. Ele também estava ressonando. Não gostava que o filho dormisse até tarde. Tinha dever de casapra fazer, mas a auladele era sóàsduas da tarde. “Antes de sair eu acordo ele”, pensou. Estava orgulhosa do progresso do Lucas na escola. Ele estava na primeira série, mas já dava conta de ler os livrinhos que ela pegava na biblioteca.Na cozinha preparou a mamadeira de Aninha, passou manteiga no pão e o esquentou na frigideira, como se fosse uma grelha.Assim o pão amanhecido ficavagostoso.Comeu um pedaço com um pouco de leite e preparou mais dois pedaços para Lucas comer.Tinha arrumado uma mocinha, de quinze anos, Valdirene, para ajudá-la a olhar as crianças .Olhou o relógio, Valdirene já estava atrasada, não gostava de sair deixando os dois meninos sós. Valdirene era sua parente, por parte de mãe. Tinha vindo da roça pratrabalhar com eles. Trabalhava de dia e à noite iapra escola. Mas não dormia no emprego. Tinha alugado um quarto com maistrês colegas.AnaAntônia começou a se vestir enquanto esperava a Valdirene. Pegou uma camiseta da gaveta e a calça jeans, já meio surrada, que tinha lavado de véspera. Seis e meia, tinha de chegar ao ponto do ônibus até as seis e quarenta.Passou ainda pelo quarto dos meninos. Graças a Deus, Valdirene já estava tocando a campainha.
_ A mamadeira de Aninha já tá pronta. Dê aela. Veja se Lucas toma um copo cheio de café com leite e o pão.O pão dele já tá quente. Deixei o almoço na geladeira. É só esquentar.
_ Pode deixar, Ana.
_Cuidado com a Aninha. Se ela chorar e ameaçarperder o fôlego,levanta ela e sopre forte no rosto dela.
Desde recém-nascida, Aninha costumava perder o fôlego quando chorava. O médico do posto tinha passado um remedinho controlado, que estava fazendo efeito. Mas AnaAntônia tinha medo de que ela se sufocasse e todos os dias fazia a mesma recomendação à Valdirene.Nos primeiros dias, quando a licença maternidade acabou, saíachorando de casa para pegar o ônibus de manhã. Tinhamedo que alguma coisa acontecesse aos meninos. Agora já estava mais acostumada.
Deu mais uma olhadinha nas crianças.
_ Valdirene, não é pra deixar o Lucas ficar direto vendo televisão. Quando for 10 horas, é pra ele fazer o dever. Já vou indo.
_Vai com Deus..
_ Fica você também com Deus. Qualquer coisa me liga lá na escola.
A manhã estava fresca. Respirou fundo. Gostava daquele friozinho do final de março. O tempo já estava mudando, os dias quentes de verão ficando pra trás. E as chuvas também. No mês de março as chuvas já começavam a rarear, mas o período bravo de seca só daí uns dois meses, no fim do outono. “Tenho de me lembrar de comentar com os meninos na minha sala que o tempo está mudando.”, pensou. Vinham falando bastante das estações do ano.
Para alguns colegas, nem fazia sentido falar em mudança de estações do ano no Brasil. Antes falar de estação das chuvas e da seca. Lembrou-se da canção de Renato Russo, cantada por Cássia Eller “ Mudaram as estações , mas nada mudou...”. Mas ela gostava de prestar atenção em alguns sinais de alteração do tempo e comentava com os alunos. .Seria bom que eles prestassem atenção agora na transição do outono para o inverno, quando começa a escurecer mais cedo. Ia voltar a sugerir que olhassem no relógio para ver a que horas o sol se punha. Já haviam conversado sobre isso._ Observem a hora em que se acendem as luzes da rua no começo da noite _ tinha recomendado.
_ No verão,professora, a gente fica jogando bola até tarde na rua e ainda tem a claridade do dia _ um deles observou.
E a natureza mandava outros sinais para os quais ela atentava e partilhava com eles._ No final de setembro é hora da gente reparar nas árvores que ficam floridas, Ana Antônia tinha ensinado. _Aqui perto da escola tem um pé de ipê amarelo.Os alunos tomavam a sério a sugestão de observar a floração das árvores. _Na chácara do meu avô também temum ipê, mas dá florcor-de rosa e temuma árvore bem alta e bem grande, que eu num sei o nome dela, mas que dá umas florzinhas também cor-de-rosa
_ Se for uma árvore de casca clara, Maikon _ Ana Antônia comentou _ pode ser asucupira branca. Pergunte a seu avô se é sucupira, ele deve saber, depois conte pra gente.
Essas lembranças lhe ocorriam ao sorver o ar frio da manhã de março. Ia caminhando com pressa, passou em frente à igreja evangélica, deu uma olhada na caixa de luz pra ver se a coruja que morava em baixo do telhadinho de duas águas sobre a caixa de alvenariaainda estava à vista. Não viu coruja nenhuma, que certamente jáestava escondida da luz do sol.Atravessou a rua para alcançar o ponto de ônibus.Seis e trinta e cinco, o ônibus devia estar chegando, se é que não ia atrasar de novo.
Não atrasou.Às seis e quarenta lá estava ele, um ônibus velho, semmuita manutenção que freou com um chiado. Felizmente tinha lugar para sentar. Entrou e tomou assento na janela. Não precisava pagar todos os dias, mostrou o passe, mas nem era preciso porqueo motorista era seu conhecido.
_ Bom dia, Seu Antônio.
O motorista sempre a cumprimentava com uma cara boa, quase sorrindo. Sorriu de volta, tampando a boca com a mão esquerda, que na direita estava carregando a sacola de livros e cadernos. Tinha vergonha de seu sorriso por causa de duas falhas logo nos incisivos superiores. Um tinha quebrado e pretejou. O outro estava meio cariado. Quando será que ia poder consertar aqueles dentes.Tinha que estar na escola às sete e trinta. A viagem durava quase trinta e cincominutos, porque a escola ficava recuada, já no perímetro de um núcleo rural.E até a escola o ônibus fazia duas paradas em pontos mais povoados do núcleo.
Enquanto o ônibus ganhava a estrada, ia olhando o cerrado, uma ou outra casa à beira do asfalto, com criação de porcos ou um curralzinho com umas poucas vacas. Gostava de olhar a fiação elétrica que margeava a estrada. No topo dos postes a cruzeta com dois braços, às vezes três. Intercaladas às roldanas de louça, que prendiam os fios, pousavam andorinhas Quando o ônibus se aproximava, resfolegando, elas se assustavam e saíam em revoada. Seriam andorinhas ou pardais? O pai haveria de saber. Ele também gostava muito de pássaros ; foi ele quem despertou nela o interesse em observarpassarinhos. Teve aquela vez que ela encontrou um filhote de pardal caído no capim. Quantos anos ela teria? Uns seis.Um casal de pardais tinha feito ninho no telhado do paiol e um dos filhotes caiu.Foi ela quem achou. E ficou ali sentadinha ao lado do filhote de penas escuras, rajado de marrom, esperando o pai chegar da roça.
_ Pai, pai. Vem aqui. Tem um passarinho caído na grama.
_ Isto é um filhote de pardal. Esse bichinho numpresta. Só serve pra comer as semente na plantação e matá outros passarinho._ resmungou.
Resmungou, disse que pardal era uma praga, que só fazia piar, nem cantava direito, que invadia os ninhos de outros passarinhos, estorvando a criação, mas não teve coragem de deixar o filhote morrer à míngua ali no chão. Pegou uma escada e pôs obichinho novamente no ninho. Muito anos depois, AnaAntônia já estava no Curso Normal quando leu um poema de Manoel Bandeira, sobre um pardalzinho que morreu e cuja alma foi para o céu dos passarinhos. Lembrou-se muito do pai. Estava sempre se lembrando dele.
De repente, ainda pensando no pai, viu pela janela do ônibus umas codorninhas correndo no campo, numa parte mais limpa. Ver as codornas , sempre numa correria espaventada, como se estivessemfugindo de algum predador,transportou-a de novo para a casa da infância na roça, ondemorava com opai e a mãe.Tinha de caminhar mais de três quilômetros para chegar à escola na sede do município. Aprender a ler, tinha aprendido mesmo com a mãe que era professora leiga, e dava aula na escola na fazenda vizinha. Mas depois de alfabetizada, começou a frequentar a escola no distrito. Aos domingos ia ao catecismona igreja.
O ônibus sacolejava e seu pensamento saltava junto com ele. Olhou pra fora e viu duas meninas sentadas no barranco.
“Como era mesmo aquele poema da menina à beira do caminho que a mãe gostava de recitar.? Começava assim : “Por que choras tu, menina”. Que engraçado usar o pronome tu. Certamente era um poema muito antigo. E o que vinha depois? “Por que choras tu, menina?”
A mãe lhe ensinara.E tinha ficado feliz porque ela logo o decorou. Mas agora lhe fugiam os versos... “Por que choras, tu menina?” , ia repetindo o primeiro verso, uma , duas três vezes. De repente, como diria o poeta, não mais que de repente, lembrou-se da estrofe completa. “Por que choras tu, menina?
Sozinha deste caminho, como ave que caiu, ainda implume do ninho?
A tua mãe já não vive?
Nunca a vi em minha vida, andei sempre assim perdida.
Mãe, certamente, não tive.
És mais feliz do que eu, que tive mãe e morreu.”
Que bom que conseguiu lembrar-se do poema todo. Chegando à escola ia anotá-lo num caderno, para não se esquecer de novo. Mais uns minutos e o ônibus parou quase em frente da escola.
_ Até logo, Seu Antônio.
_ Até logo. Um bom trabalho para a senhora.
Stella Maris Bortoni (Brasília, maio de 2011- Dia das mães )