A cobertura jornalística da morte do ex-presidente Itamar Franco relembrou a implementação do real em seu governo, em julho de 1994, tendo Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda. Algumas edições usaram imagens da remarcação frenética de preços nos supermercados para ilustrar a hiperinflação. Não dá para esquecer. É histórico.
Quem tem 17 anos já nasceu numa economia estável e com sua família podendo planejar, de alguma forma, a vida. E isso quer dizer também o seguinte: os universitários de hoje não têm idéia da angústia de um trabalhador com um salário volátil. Ou seja, o dinheiro recebido de manhã perdia seu poder de compra antes da noite chegar. Duas semanas após não valia mais nada.
Mas aí, apesar da imensa área territorial deste país e da diversidade de seu povo, aconteceu o que até então nunca havia sido tentado em outra parte do mundo. Uma operação logística gigantesca para permitir a troca da moeda em um só dia. Em primeiro de julho daquele ano, todos os brasileiros puderam ter em mãos as cédulas de real.
Na época, Ricardo Noblat era diretor de redação do Correio Braziliense e resolveu lançar um suplemento especial com a cobertura desse fato inédito. Enviou quatro duplas de repórteres e fotógrafos a cidades distantes, para acompanhar a chegada da nova moeda. Eu estava entre essas duplas e fui para São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, no estado do Amazonas.
Por ser uma área de garimpo, vizinha da Colômbia e da Venezuela, a população local lidava com a hiperinflação indexando o aluguel de uma pequena casa, por exemplo, à cotação do ouro. Naquele dia, um grama de ouro puro em pó foi cotado em 10 reais. E um refrigerante, vendido por Cr$ 2 mil passou a custar R$ 0,72.
Lembro-me de Domingos, o índio guanano que aguardava sua vez na fila da agência do Banco do Brasil, apertando a carteira de plástico com duas notas de C$ 5 mil. Havia conseguido o dinheiro com a venda de alguns produtos de sua roça na beira do rio e mal disfarçava a ansiedade para ver de perto o tal dinheiro novo. Percebendo que eu o observava, comentou:
"O governo disse pelo rádio que é um dinheiro forte. Quero vê."
Quando o caixa lhe passou três notas de R$ 1,00 e seis moedas correspondentes a 64 centavos (quatro de 1, uma de 10 e outra de 50), Domingos ficou olhando, encantado, o beija-flor impresso na cédula verde.
"É bonita. E as moedinha, presta?"
Difícil de acreditar: as moedinhas passavam a ter real valor.
Ateneia Feijó é jornalista
Fonte: Blog do Noblat