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    ENTREVISTA COM O PROFESSOR FRANCISCO GOMES DE MATOS

    O acadêmico Claudio Cezar Henriques, ocupante da cadeira no 8, entrevistou o Professor Doutor Francisco Gomes de Matos, Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco e sócio correspondente da Academia Brasileira de Filologia.

    Ao longo de sua carreira e atuação no ensino de idiomas (e de linguística aplicada) Gomes de Matos desenvolveu estudos e pesquisas em torno do tema da paz comunicativa – ou comunicação para o bem. O manifesto que publicou em 1984 favor dos direitos linguísticos foi o propulsor da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, assinada em Barcelona, em 6 de junho de 1996, durante a Conferência Mundial dos Direitos Linguísticos.

    - Como principal representante no Brasil da chamada Linguística Humanizadora, qual sua proposta para que, na escola, os docentes a apliquem?

    GOMES DE MATOS: Minha proposta assenta nos princípios e procedimentos descritos em dois livros de minha autoria, Pedagogia da Positividade: comunicação construtiva em português (Recife: Ed. da UFPE, 1996) e Comunicar para o Bem: rumo à paz comunicativa (São Paulo: Ed. Ave Maria, 2002). São quatro os princípios norteadores da proposta: (1) pensemos primeiro em nosso próximo linguístico; (2) cultivemos uma comunicação construtiva; (3) promovamos a paz comunicativa entre as pessoas; (4) dignifiquemos nossos diálogos do dia a dia.

    Para os professores de português aplicarem a proposta, seria necessário propiciar-lhes uma iniciação à Pedagogia da Dignidade e da Paz Comunicativas. Essa disciplina (poderia ser oferecida na graduação e, mais aprofundadamente, na pós-graduação. De caráter eminente prático, focalizaria estes quatro desafios pedagógicos: (1) como aprender e ensinar a perceber a linguagem, as línguas, a língua portuguesa positivamente?; (2) como aprender e ensinar a perceber a função dignificante-humanizadora da linguagem, da língua portuguesa?; (3) como ajudar docentes a vivenciarem o papel de humanizadores (educadores imbuídos de valores como dignidade, justiça, paz, direitos humanos, igualdade, liberdade, positividade e que aplicam esses ideais)?; (4) Como aprender a avaliar a produção textual de nossos alunos à luz de direitos e deveres linguísticos?

    - No Posfácio do Dicionário de Linguística e Gramática, de Joaquim Mattoso Câmara Jr., o senhor incluiu um verbete sobre Linguística Humana. Repito aqui a pergunta que consta do verbete, propondo-lhe que atualize a resposta: Como os usuários de uma língua podem ser mais humanizados linguisticamente?

    G.M.: Por um lado,haveria atividades preventivas: como identificar usos desumanizadores de português (nos diversos gêneros de discurso falado e escrito) ,como aprender a traduzir tais usos humanizadoramente.Por outro lado, haveria práticas sistemáticas de seleção lexical (vocabulário) humanizadora (foco em emoções, sentimentos construtivos ) e de planejamento e uso de fraseologias humanizadoras,promotoras da compaixão, cooperação, cordialidade ,dignidade comunicativas. Saber aplicar o princípio do Amor ao próximo linguístico é um prerequisito para humanizar-se ainda mais a interação .Cabe à criatividade de cada docente contribuir para essa desafiadora mas necessária missão educacional, preparando conjuntos fraseológicos adequados às diversas situações interativas, por exemplo,fraseologias para o incentivar , para o fortalecimento da autoimagem e autoestima lingusticas, para a comunicação empática (reeducar-se e dizer Você e eu ....,em vez de Eu e você...), para o discordar e o questionar pacificamente, para o reivindicar direitos linguísticos de pessoas que ainda não têm vozes ouvidas pela Sociedade. Essa humanização linguística também aplicar-se-ia nos modos de construir e partilhar conhecimentos ,de fazer pesquisas , de nos relacionarmos com a Natureza.

    - O senhor considera que há condições para a aplicação da Sociolinguística ao ensino de português?

    G.M.: A resposta só pode ser dada com base no conhecimento – limitado – que tenho sobre o ensino de português nos contextos escolares diversos: já existe uma Sociolinguística Aplicada entre nós, representada por exemplo pelos livros e pela atuação de Stella Maris Bortoni-Ricardo, cujo último livro, Formação do Professor como Agente Letrador (coautoria com Veruska Ribeiro Machado e Salete Flôres Castanheira, publicado pela editora Contexto, 2010), se constitui como contribuição notável à Sociolinguística Aplicada, principalmente quanto ao uso de conceitos de Sociolinguística Interacional. Os protocolos de seis aulas apresentados no livro são uma demonstração bem clara de como um professor sociolinguisticamente orientado pode realizar seu trabalho em classe para o bem comunicativo dos alunos.

    Essas propostas aplicativas da Sociolinguística precisam ser incluídas em programas para formação de professores de português (na graduação). No convívio com professores de português no Curso de Especialização em Linguística Aplicada da FAFIRE, Faculdade Frassinetti do Recife, costumo testar o senso aplicativo dos alunos, pedindo que informem como aplicam, em classe, três conceitos-chave: variação linguística, variedades linguísticas e variantes de uso. Com raras exceções, o grupo desconhecia a distinção em Sociolinguística, entre variedades (históricas, geográficas, sociais, individuais...) e variantes (de grafia, pronúncia, lexicais, sintáticas e pragmáticas). Assim, respondo que há condições para aplicar-se a Sociolinguística, mas ainda de maneira muito restrita, principalmente em cursos de graduação ou especialização. A aplicabilidade da Sociolinguística será tanto maior e melhor quanto seus princípios e procedimentos sejam acessíveis e, nesta era da literacia digital, acessáveis a um maior número de formadores de professores e de educadores que ajudam a honrar a Tradição Brasileira de Ensino de Português.

    - Como vê a atual formação de futuros professores de Língua Portuguesa nas universidades brasileiras?

    G.M.: Na formação de futuros professores de Português,destaco a atenção necessária ao seu preparo como humanizadores-dignificadores da comunicação em nosso idioma .Ressalto também a indispensabilidade de uma iniciação aos estudos de Criatividade (principalmente linguística) e de alguma experiência em Psicologia Cognitiva,pois a linguagem ,ou mais abrangemente,as linguagens são criações cognitivas. Algumas aplicações desse vibrante e vital ramo da Psicologia bem mereceriam ter um lugar ao sol nas salas de aula,na elaboração de materiais didáticos. No futuro (próximo,espero),a formação de docentes de língua portuguesa incluirá conhecimentos sobre Frequência de uso de palavras e expressões resultante de notáveis avanços na lexicografia contemporânea.Assim, a seleção lexical e locucional do que priorizar será bem mais facilitada.

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