
Gustave Doré ilustrou a cena mais importante dessa história com detalhes que descrevem muito bem os personagens: as fofoqueiras invejosas lá atrás, revoltadas; o Rei feliz por encontrar a jovem que devolverá a saúde a seu filho; uns cortesãos alegres, outros com olhar cético ou aborrecido; e o Príncipe, que andava doente de paixão, encostado na cadeira, desconsolado ao ver tantas jovens em vão experimentarem o sapatinho, esperando...
Há inúmeras versões para esse conto. Anteriores e posteriores a Perrault. Mas é nessa que o mais importante elemento da história tem mais força. Sapatos de cristal representam riqueza e beleza e são muito apropriados a uma princesa. É preciso que a jovem seja delicada e leve, senão...
Ao mesmo tempo, é imperioso que seja moça de coragem, e com fé, para valsar calçada com frágeis sapatinhos de cristal.
Uma curiosidade: muitos pesquisadores acreditam que no original Perrault usou a palavra “vair”, pele de esquilo; gráficos descuidados e revisores afoitos teriam trocado a palavra para “verre”, vidro. Se bem que diferentes na escrita, na pronúncia são palavras "quase" idênticas, o que justificaria essa teoria.
Mas a maioria dos estudiosos modernos acredita que Perrault quis que os sapatos fossem de cristal para lhes dar uma qualidade mágica. Estou com esses. E vocês?
Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para o livro “Contes de Perrault”, edições Stahl-Hetzel, 1862
Fonte: Blog do Noblat