Fonte: HISPANISTA - Fundada en abril de 2000
ISSN 1676-9058 ( español) ISSN 1676-904X (portugués)
http://www.hispanista.com.br/portalesp46.htm
Iêda Vilas-Bôas
Encontrar na poética de Cora Coralina a abordagem sobre assuntos
relacionados à sexualidade e ao erotismo instiga-nos a relacionar obra e autora
sob esse enfoque. A leitura da voz poética de Cora Coralina, num recorte
erótico, de forma pioneira, transgrediu a normalidade fundante da civilização
cristã-burguesa do século XIX e início do século XX e venceu, por vezes
implicitamente, por outras explicitamente, a interdição ao sexo.
Os poemas audaciosos de Cora Coralina desafiaram os preceitos e a
conduta moral de seu tempo, servindo como alerta, farol, guia e arma contra o
falso moralismo vigente. Este é o assunto que abordamos neste texto e
pesquisamos na poética, em prosa e verso, de Cora Coralina: Tessituras
eróticas na obra de Cora Coralina: Encontros e Confrontos entre Eros e
Tânatos.
Descortinar o entroncamento entre erotismo, Eros e Tânatos na poética
de Cora Coralina nos aponta um interesse pelas questões naturais, pelo
cósmico, pelo planetário, pelos aspectos ligados à evolução humana, à
propagação da cultura e à tomada de nossa consciência de mundo.
O erotismo quer seja como protagonista, quer seja como condutor,
permeia as histórias dos livros e das pessoas. O grande desafio se estabelece
em manter vivo esse erotismo sem deixar que a vulgaridade assuma a diretriz
das histórias. A literatura prima pelo erotismo como o jogo da sensualidade.
Como diz Barthes em O Prazer do Texto, “o erotismo é o que seduz, é a
imaginação, a encenação do ir e devir, do descoberto e oculto”.
O erotismo é tema, por vezes, mal tratado dentro de uma sociedade
hedonista. A pesquisa literária pode contribuir para o estudo do sexo e do
erotismo numa abordagem multidisciplinar, com enfoque científico. O erotismo
abordado de forma séria, investigativa, torna-se ferramenta para se descortinar
os simulacros sociais e mesmo para alertar sobre temas que permanecem
ocultos sob um sigiloso e invulnerável pacto de silêncio. Algumas conjecturas
colocam-se como premissas desse texto:
1- O erotismo na obra de Cora Coralina é representação consciente e
amorosa com o intuito de revelar os instintos e desejos da mulher, a fim de que
a mulher realize sua saga histórico-social; O erotismo pode ser encarado como
elemento natural e necessário à vida, de maneira a equilibrar sentimentos,
emoções e atitudes; O sexo não seja objetualizado, antes, criativamente, sirva
como elemento persuasivo dos sentidos do leitor para acreditar no sexo natural.
2- A escrita erótica de Cora Coralina contribui, intensamente, para a
sublimação do feminino por que: Os textos deixam transparecer que a voz
feminina precisa apossar-se do espaço literário para servir de combate aos
inúmeros preconceitos existentes contra a mulher; Os escritos representam a
voz das mulheres em (possível) igualdade de condições; A autora apresenta os
mitos de Eros e Tânatos como elementos naturais da vida, extrapolando os
limites patriarcais da sociedade. Tratando do amor essencial, autêntico, amorprimevo,
amor-natural, amor-paixão que se encontra arraigado nas
profundezas do ser erótico e, indissoluvelmente, interligando esses amores à
vida e à morte.
A carga erótica de seus poemas, representa, literariamente, anseios e
tensões silenciados ao longo dos tempos. Pela sua poesia percorre certa
audácia desafiante das posturas, condutas e preceitos morais de sua época.
Embora a própria autora se considerasse uma mulher como outra
qualquer, está comprovado no meio literário e acadêmico que a artista é fonte
de inspiração para inúmeros textos e escritos a seu respeito. No que se refere
ao tema erotismo, quase nada se tem estudado em suas obras. Este texto
pretende aprofundar a faceta do erotismo e, dentro dele, o confronto e o
encontro entre Eros e Tânatos na obra de Cora Coralina, de modo a deixar
subsídios para um melhor entendimento de sua poética.
Em uma primeira leitura da obra coralineana, percebemos somente as
faces já normalmente abordadas em trabalhos acadêmicos: a memória, a
transubjetivação da vida cotidiana, recorrentes passagens autobiográficas,
entre outras. Entretanto, ao lançarmos um olhar perscrutador sobre alguns dos
textos de Cora Coralina, percebemos uma vertente simbólica da qual a poeta se
utiliza para tratar de temas que envolvem os seres de seu mundo imaginário,
ou não, sob um latente erotismo.
Sob a ótica do erotismo, permeado pelos mitos de Eros e Tânatos,
Cora, assim, passa a ser uma mulher incomum e enigmática. A poeta nos
apresenta temas cotidianos, memórias e entraves existentes na vida dos
moradores dos “Reinos da Cidade de Goiás”, perpassados pelo erotismo, de
forma ímpar.
A análise do erotismo em seus escritos se dará no campo das múltiplas
relações entre a linguagem, cultura, literatura e sociedade. Encontramos na
escrita coralineana excertos que traduzem seu sentimento em relação ao Amor
e Morte (de fundas raízes míticas: Eros/Tânatos), esses mitos entrincheiram
seus textos dando voz ao amor e à paixão dos sentidos.
A poética de Cora Coralina quando passeia pelo feminino exalta duas
faces existentes na mulher goiana: a mater familiae- procriadora, protetora,
responsável pela continuidade da humanidade, pela harmonia e equilíbrio entre
os seres da família; e a mulher apaixonada: prática em resolver suas paixões
e apelos sexuais, entregue ao amor e ao sexo como a um destino natural,
avassalante, porém trágico, porque encontrará em seu final sua condenação à
morte:
A boneca fecundada vira espiga.
Amortece a grande exaltação.(...)
O pendão fálico vira ressecado, esmorecido,
no sagrado rito da fecundação.
Em seu universo poético predomina a mãe, tal qual a terra-mãe: farta,
sublime, esplendorosa; entretanto, uma sombra atinge essa mulher-terraluminosa
e aflora em sua poesia. Essa sombra se dá pela enorme influência
religiosa recebida pela poeta e descortina-se através da presença do implícito
pessimismo bíblico de que o homem é pó e ao pó voltará. Tânatos assume a
face poética de Cora Coralina na fusão do eu-natureza e na ideia da morte,
como fato consumado a todos e a tudo. Seus textos se formam entre um
emaranhado de referências e influências históricas, religiosas, sociais, filosóficas
e literárias.
Investigar a palavra de Cora Coralina, através de seus textos
portadores de teor erótico, contribuirá para o combate ao preconceito contra a
mulher e dará oportunidades para que as vozes das personagens
marginalizadas femininas em sua obra se façam presentes neste mundo
contemporâneo. Como exemplo dessa voz marginalizada, entre inúmeros
poemas, destacamos um que se refere à Mulher da Vida. Nele podemos
exemplificar a afirmação a respeito da dita junção harmoniosa, além de
revolvermos à secular condição feminina na sociedade:
(...)
A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios
detém as urgências brutais do homem
Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho. (...)
As forças eróticas libertas e poderosas (Eros-força criadora) provocam a
revolução sexual hoje em processo e a intromissão da fatídica ideia da morte
(Tânatos-força destruidora) que transpassam, transpõem e transitam pela
poesia de Cora Coralina, seja seu texto em prosa ou verso, em suas variadas
facetas, ajudando-nos através de sua análise a compor, também, o nosso
mosaico de vivências.
O erotismo, presente na literatura da Antiguidade até nossos dias,
manifesta-se conforme concebido e determinado pelo meio social. O erotismo é
uma transgressão baseada no desejo impedido de encontrar sua satisfação, a
se confirmar pelo pensamento de Bataille:
Esse desejo de se perder, que trabalha intimamente cada ser
humano, difere entretanto do desejo de morrer na medida em que
ele é ambíguo: trata-se, sem dúvida do desejo de morrer, mas é, ao
mesmo tempo, o desejo de viver nos limites do possível e do
impossível. (BATAILLE, 1987, p.223).
Assim, questões como o embate, o confronto e o encontro entre Eros e
Tânatos adentram o espaço poético de Cora Coralina pelo ângulo do erotismo.
Na poesia erótica de Cora Coralina encontramos a fragilidade humana e
também sua grandeza. Os múltiplos véus que compõem o mascaramento social
são historicamente escancarados pela sua poesia. Conforme estudo de Terry
Eagleton, a linguagem literária ‘deforma’ a linguagem comum que através da
linguagem literária é intensificada, torcida, reduzida, ampliada, invertida. Ao
manipular a palavra, a poeta reconstrói a linguagem e as relações entre as
pessoas e os mundos. Ao nos apresentar o confronto-encontro entre Eros e
Tânatos enfatiza que, onde o drama se faz presente, é possível encontrarmos o
sorriso e o gozo. A tessitura erótica na obra coralineana realça a realidade
cotidiana em seus momentos significativos e paradoxais: vida-morte, amoródio,
construção-destruição.
Simbologicamente podemos definir o erótico como a atração para o
perfeito, o integral. A relação harmoniosa entre masculino/feminino e a
natureza/Deus. Pierre Brunel dedica estudo a Um poder Universal: Eros e a
natureza:
Desse primeiro aspecto de Eros, deus primordial, resulta a amplitude
de seu poder, que se estende não apenas aos deuses e aos homens,
mas aos elementos e à própria natureza. (...)
Finalmente, em sua qualidade de força fecundadora do universo,
Eros está ligado à vegetação, cuja renovação primaveril coincide
com a estação dos amores. (...)
O texto literário de Cora Coralina reporta o leitor para sua encenação,
para a cisão vida-morte. Em seu discurso, literatura e psicanálise se
entrecruzam, exigindo extrema delicadeza para ser analisado, observado,
tocado, pesquisado, invadido em sua interioridade. Cora Coralina utiliza-se do
imaginário pessoal e coletivo para nos persuadir da verdade em seus versos. A
respeito do imaginário pode-se dizer, com pressupostos nos pensamentos de
Bachelard, que a relação entre o homem e o mundo é mediada por processos
de pensamento.
O ser sensível- poeta não lida diretamente com as coisas e sim com os
significados atribuídos às coisas pela sua cultura e pelo simbólico. Os níveis da
lógica e do significado se interpenetram mais do que se distinguem, dando
espaço para a imaginação criadora da poeta que lida com os símbolos que
habitam o seu mundo e percepções. Nessa perspectiva, a linguagem, a ciência,
a arte, a religião e os sentimentos são traduzidos por Cora Coralina em
dimensões imaginárias. A característica de dar significado às situações e coisas
liga-se ao plano simbólico e, assim, justifica-se o interesse pelo estudo dos
símbolos, das imagens, das metáforas e do imaginário na obra coralineana.
Bachelard, afirmou que os símbolos não devem ser julgados do ponto de vista
da forma, mas de sua força expressiva: para além do panorama oferecido à
visão tranquila, a vontade de olhar alia-se a uma imaginação inventiva que
prevê uma perspectiva do oculto, uma perspectiva das trevas interiores da
matéria. (BACHELARD, 1990, p. 8).
Complementando o conceito de imaginário, percebemos segundo Bosi,
que o poeta é o doador de sentidos. Assim, percebe-se na poética erótica de
Cora Coralina uma latente necessidade mitopoética de dizer meias verdades,
metades, nas entrelinhas de seus escritos para que conseguisse levar sua voz
ao mundo hostil e surdo que a circundava.
Por vezes, Cora Coralina narra de forma poética. Benjamin dedicou estudo ao
narrador e nesse estudo encontramos os alicerces da poeta narradora:
A experiência que anda de boca em boca é a fonte onde beberam
todos os narradores. E, entre os que escreveram histórias, os
grandes são aqueles cuja escrita menos se distingue do discurso dos
inúmeros narradores anônimos.
Cora Coralina manipula o dom de transformar em poesia tudo que
ouviu, viu e viveu. Para escrever sobre erotismo, Cora Coralina utiliza-se de
metáforas, de construções lexicais onde palavras se repetem, de sinais de
pontuação expressivos, intercalação de verbos de ação e estado e por trás
dessas escolhas, vai desfiando seu rosário de juízos de valores de sua vivência.
Cora Coralina tem um estilo muito próprio para nos apresentar o erotismo-arte
em seus textos. A respeito de estilo tomemos emprestada a definição de
Guirard (1970: 36): Por trás de uma escolha existe sempre uma intenção e,
dependendo de sua intenção, esse indivíduo que produz o texto pode criar um
ou outro efeito de sentido.
A Crítica Literária e a Crítica Feminista concordam que as condições
socioculturais subjacentes ao contexto de produção são de extrema importância
para o entendimento das questões abordadas em uma pesquisa. O olhar de
quem escreve é influenciado pela sua própria personalidade, classe social e
interesses individuais e políticos. O feminismo de Anzaldúa salienta o feminino
inscrito em espaços e momentos socioculturais dos sujeitos além do gênero, e
essa análise será feita nesta pesquisa. Destarte, a questão do gênero será
abordada e analisada na obra de Cora Coralina de forma a questionar as
relações assimétricas de poder e de desigualdade. O gênero em Cora, neste
texto, será abordado em sua ecleticidade e não apenas debruçado no estudo
das visões e vivências femininas/feministas.
Podemos perceber que a poesia de Cora Coralina reproduz os
sentimentos e as sensações comuns aos seres em geral. O erotismo permeia
sua obra numa sinuosa e estreita relação. A poeta trabalha com uma linguagem
no, com e para o sexo. Cora segue, empiricamente, os preceitos de Bakhtin. É
produto final dos muitos eu e das muitas vozes que compõem seu mundo. A
sua linguagem possui uma forte carga dialógica; seu texto comporta duas
faces: é escrito pelo eu da autora e para o eu dos outros. Essa interação verbal
reflete o caráter dialógico e polifônico de seus textos. Segundo (BAKHTIN,
1981:85): a palavra é um território compartilhado, quer pelo expedidor, quer
pelo destinatário.
Sua linguagem erótica acrescenta, substitui, enfim, interage em seus
escritos através de nossos referenciais sexuais, sociais e nossa vivência,
possibilitando-nos a posse de sua visão de mundo. Podemos classificar a
linguagem erótica utilizada por Cora Coralina como linguagem pragmática
sexual. Na simplicidade dos seus versos, privilegia-se a estética, tornando
erotismo em arte.
Por estar, sempre, à frente de seu tempo, a poeta ousa trazer à baila
questões mais profundas. Traz a importância sexual para a continuidade da
vida. Apresenta o potencial orgástico a serviço do prazer e da confirmação do
sucesso de encontros: entre o pólen-flor, o sêmen-útero, o homem-mulher e
suas relações cotidianas. Tomemos como exemplo excertos de seu Poema do
Milho:
(...)
Flor de milho, travessa e festiva.
Flor feminina, esvoaçante, faceira.
Flor masculina – lúbrica, desgraciosa.
(...)
Pendões ao vento.
Extravasão da libido vegetal.
Procissão fálica, pagã.
Flor masculina, erótica, libidinosa,
polinizando, fecundando
a florada adolescente das bonecas.
(...)
Bonecas verdes, vestidas de noiva.
Afrodisíacas, nupciais...
(...)
E o pólen dos pendões fertilizando...
Uma fragrância quente, sexual
invade num espasmo o milharal.(...)
Ousa demonstrar que, por vezes, não raras, que sexo e erotismo propiciam
momentos de infinitas delícias sem se preocupar com o seu papel elementar de
fecundação.
Outra evidência desse ‘estar à frente do tempo’ é a alusão ao sexo que
se revela diferente, em sua essência: “(...) Espigas falhadas. Fanadas.
Macheadas”, da mesma forma como encontramos em seu poema Lua-Luar
referência a outra forma de sexualidade:
(...)
Lua cúmplice
Lésbica lua nascente,
andrógina – lua-luar.
Tais ocorrências nos mostram a Cora enfrentadora dos
preconceitos e dos conceitos vigentes. Cora Coralina nos apresenta esses
versos com o mesmo erotismo natural a que se primou em escrever. Para
ressaltar a importância do erotismo na literatura, entre outros espaços,
tomemos emprestado o que diz Louro (2007: 118):
Para compreender o lugar de Eros e do erotismo na sala de aula,
precisamos deixar de pensar essas forças apenas em termos
sexuais, embora a dimensão não deva ser negada. Sam Keen, em
seu livro The pasionate life, leva seus leitores e leitoras a lembrar
que, na sua concepção inicial, “a potência erótica não estava
confinada ao poder sexual, mas incluía a força motriz que faz com
qualquer forma de vida deixe de ser mera potencialidade para
alcançar sua plena realização.
Em Cora, o erotismo pulsa e pula de seus versos. O tema é tão natural
que consegue enxergá-lo, em instantes imperceptíveis aos não-sensíveis, em
que a natureza celebra o amor, o sexo, a vida. Perceber o erotismo na
linguagem de seus versos é captar como a cultura de seu tempo tratou o
assunto e de como sua sensibilidade soube fazê-lo arte através de seus textos.
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JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária.
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LOURO, Guacira Lopes e outros. O corpo educado. Pedagogias da sexualidade.
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