Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Em pleno Natal, e logo depois do jogo Barcelona X Santos, no qual praticamente só o Barcelona jogou, eu não deveria me ocupar de pequenas questões de gramática, dirá o leitor. Mas tratar delas em ocasiões assim é uma forma de autocontrole. Às vezes, não resisto, o leitor pode comprovar, mas faço o possível para ficar no meu campo, o da linguagem, no qual corro risco menor de emitir meros palpites. Deixo isso para os comentários à coluna e para certos blogueiros, especialistas em tudo, isto é, em nada.
Vou falar de duas mudanças linguísticas já ocorridas no português do Brasil. Primeiro, uma concepção básica da mudança. Antes dela, uma tese geral: não há língua que não mude. Se o leitor quiser fazer a prova, que leia algum texto no inglês do século XV e outro no inglês de hoje. Ou um texto no português da mesma época (pode ser a carta de Caminha ou Os Lusíadas) em um no português de hoje (pode ser um texto do próprio leitor, bem caprichado!). Ou um em grego antigo e outro em grego moderno, em francês antigo e no moderno etc.
Como se pode saber se uma mudança já ocorreu? Não será apenas um caso de variação, isto é, de duas formas que coexistem? Um bom critério, o melhor de todos: houve uma mudança quando a forma nova, que era considerada um erro e que só ocorria na fala ou na escrita de pessoas incultas, passa a ocorrer na boca ou na pena de pessoas cultas, sem que elas se deem conta de que "erraram".
A nova forma é empregada inconscientemente. Só especialistas ou catadores de erros ainda percebem que se trataria de erro. Quando esse fato ocorre, repito, houve uma mudança. Sempre é assim: num certo estágio, há uma variação entre duas (ou mais) formas, uma culta (conservadora, "certa") e outra popular (inovadora, "errada"). Quando os usuários da forma conservadora adotam a inovadora, então a mudança se completa. É sempre um processo relativamente lento que, em determinado momento, aparece como acabado. Pode ser que o fato venha a ser revertido, mas isso é raro. Ou pode ser que a forma antiga não desapareça totalmente. O importante é que a inovadora deixe de ser percebida como erro.
Dou dois exemplos. Numa das emissões do programa Painel, comandado por William Waak (que não é um revolucionário!), fazendo uma intervenção que comentava a avaliação de um de seus convidados sobre o bicho que vem por aí na economia, ele disse: "... um bicho que ninguém sabe qual é o tamanho dele". Fez o comentário em tom descontraído, como se o considerasse uma boa tirada (a informalidade explica a construção?).
Muitos falantes, e mesmo leitores, não percebem mais que a construção "deveria" ser outra, com o famigerado "cujo": "um bicho cujo tamanho ninguém sabe qual é". "Que ninguém sabe o tamanho dele" é uma construção relativa não padrão, não "correta". Ou melhor: era. Atualmente, é correta. Consagrada pela prática, pelo uso. E deveria ser reconhecida sem frescura, sem saudade do tempo antigo. O que implicaria ser empregada também na escrita, deixar de ser estigmatizada, desaparecer das provas de língua etc. O que não impede que a forma antiga continue sendo interpretada e analisada, quando ocorrer nos textos que se leem, ou que seja adequadamente analisada como forma arcaica da língua (como "Vossa Mercê", "vosmecê" ou "vós").
Outra construção cada vez mais comum pode ser representada por "Está fora do horizonte da equipe pressões que possam comprometer esta estratégia". A frase é de Valdo Cruz, em sua coluna dominical na Folha de 18/12. Valdo Cruz também não está entre os rebeldes, em nenhum sentido.
Há dois fatores que podem explicar que o verbo (está) esteja no singular, quando seu sujeito (pressões) é plural. Um é a ordem: sujeitos pospostos condicionam a ausência de concordância. Ouvem-se muitas construções como "foi feito muitas apreensões durante este ano", em que "foi" e "feito" não concordam com "apreensões". É só ouvir depoimentos ou entrevistas e ler com os dois olhos as inúmeras mensagens na globosfera.
As gramáticas tradicionais dizem que este tipo de (falta de) concordância é aceitável quando o sujeito é posposto e composto. Mas é fácil mostrar que o fato ocorre também com sujeito pospostos simples, como nos exemplos acima.
Outro fator que condiciona esta construção é a distância entre o verbo e o sujeito. De fato, entre "está" e "pressões" há uma massa relativamente grande de palavras. Se este tipo de fato só ocorresse condicionado pela distância, seria mais fácil considerar que se trata só de variação. Mas como a construção ocorre muito frequentemente sem a presença deste fator, talvez já se possa falar em mudança.
Esta construção não exclui a outra ("estão ... pressões"). Apenas quero ressaltar que gente como Valdo Cruz não só produz construções como esta quando fala, mas também quando escreve. E este é um excelente indício de mudança.
Ninguém mais deveria ser punido (em provas etc.) pelo emprego de construções como esta. Ela é uma forma padrão, correta.
Que tenha havido uma mudança não significa que as formas arcaicas não sejam mais empregadas. Objetos e roupas arcaicas são eventualmente usados. Todos percebem que se trata de objetos antigos, fora de moda. O fato de ainda serem usados faz com as pessoas que os usam sejam avaliadas como diferentes. Um sujeito que usa gravata borboleta ou suspensórios em geral não é criticado, mas o fato chama atenção.
O mesmo ocorre com as formas linguísticas antigas. Algumas ainda ocorrem. Mas ocorrem cada vez menos, e seu emprego que chama atenção. Em certos casos, o que chama atenção é uma forma popular, como menos gente ou a gente vamos. Outras vezes, são as formas antigas, eruditas: ele fora avisado, bichos cuja cara...