PREFÁCIO A STELLA MARIS BORTONI-RICARDO

DO CAMPO PARA A  CIDADE: ESTUDO SOCIOLINGUÍSTICO DE MIGRAÇÃO E REDES SOCIAIS

 

 

A Sociolinguística brasileira se enriquece de um modo particular com este novo trabalho de Stella Maris Bortoni-Ricardo, que aparece assinalado por duas fortes características: a documentação e análise de um dialeto urbano em seu nascimento, e a adoção de uma nova perspectiva para os estudos variacionistas sobre o português brasileiro. Podemos, assim, contar agora com uma tradução atualizada da primeira versão deste trabalho, preparado entre 1980 e 1981, e publicado em inglês pela Cambridge University Press, em 1985.

 

É bem reconhecida a importância da transformação de dialetos rurais em variedades urbanas não padrão para a descrição e a história do português brasileiro, dada a rápida urbanização de nosso país, cujas cidades acolhem hoje mais de 80% da população nacional. O exame das consequências linguísticos do fato esclarecerá muitas das características da língua majoritária que se fala hoje no país. Faltava, entretanto, um estudo minucioso que comprovasse essa percepção. Stella Maria preencheu essa lacuna.

 

Juntamente com o livro O falar candango, 2010, organizado pela autora e ainda por A.M. Vellasco e V. A. L. Freiras, este livro corresponde à certidão de nascimento linguístico de Brasília e de seu entorno. Pouquíssimas capitais dispõem da documentação e da análise de seus primeiros momentos linguísticos. O trabalho é, ademais, uma lança que sua autora atirou em direção ao nosso futuro linguístico.

 

Focando sua atenção em Brazlândia, cidade satélite de Brasília, Stella Maris produziu um rigoroso retrato sociolinguístico do local, operando com o paradigma das redes sociais. A sociolinguística urbana, que conheceu grande impulso no país a partir dos anos 70, é enriquecida agora com a perspectiva rurbana, categoria intermediária que problematiza a chegada de contingentes rurais ao meio urbano.

 

A adaptação linguística dos moradores de Brazlândia é cuidadosamente examinada a partir dos seguintes parâmetros: vocalização da palatal /´/, redução dos ditongos crescentes (por metátese, como em estauta, ou por redução, como em paciença),  regras de concordância verbal na primeira e na terceira pessoas do plural.

 

Quanto à teoria e à metodologia utilizadas no trabalho, a autora mostra que a tradição dos estudos sociolinguísticos desenvolvida em outros ambientes acadêmicos não se ajusta à situação brasileira. Ela propõe o uso do conceito de redes sociais, entendidas como um “conjunto de vínculos de todos os tipos entre os indivíduos em um grupo”.

 

O pressuposto da teoria das redes sociais assenta em duas possibilidades: a tessitura miúda e a tessitura larga. Temos uma tessitura miúda quando muitas pessoas que uma pessoa conhece interagem entre si; nesse caso, os participantes da rede tendem a “alcançar consenso em relação a normas, exercendo pressão informal uns nos outros para se conformarem a essas normas”. Temos uma tessitura larga quando a maioria das pessoas que uma pessoa conhece não interage entre si; nesse caso, há uma tendência ao desenvolvimento de uma variação maior de normas na rede. Integrantes das redes de tessitura miúda tendem a preservar a linguagem minoritária não padrão, ao passo que os integrantes das redes de tessitura larga optam pela linguagem culturalmente dominante ou suprarregional. A autora chama a atenção para o fato de que indivíduos podem transitar de uma rede para outra. Se a nova rede for mais integrada, mais difuso tenderá a ser o dialeto rural desses indivíduos.

 

A identificação das redes sociais é fundamental, portanto, para o estudo da difusão dialetal. Além disso, verifica-se que a caracterização individualizada dos falantes a que as pesquisas sociolinguísticas nos acostumaram (sexo, idade, nível sociocultural, etc.) é insuficiente para a obtenção de um retrato mais dinâmico de uma dada situação linguística.

 

A autora examina previamente a constituição da teoria das redes sociais, descrevendo seu percurso no sociologia, na psicologia e na sociolinguística, até sua formulação por Lesley Milroy, em 1980.

 

Assistida por uma rigorosa quantificação dos dados, a pesquisa comprovou que à época o processo de difusão dialetal estava mais adiantado entre os homens do que entre as mulheres. De um modo geral, abandona-se progressivamente a vocalização da palatal [´], há uma tendência à manutenção do ditongo crescente, tanto quanto um maior controle das regras de concordância. Esses resultados apontam para a disposição dos dialetos num continuum que tem numa ponta os vernáculos rurais isolados, e noutra o padrão urbano das classes mais escolarizadas. Stella Maris conclui sugerindo uma investigação sobre as consequências do letramento na mudança linguística.

 

Pode-se calcular que a metodologia aqui testada provocará novos estudos sobre o português brasileiro, em que a complexidade e a dinamicidade da língua receberão um tratamento mais acurado por parte de nossos linguistas.

 

Ataliba T. de Castilho (USP, Unicamp)

 

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