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Bárbara Freitag
Professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB)

Caio GomezEsp.CBD.A Press
 
A VI Festa Literária de Paraty (Flip) homenageou Machado de Assis pelo centenário, em 1192008, da sua morte. A abertura coube a Roberto Schwarz, com a palestra A poesia envenenada de Dom Casmurro e a mesa de encerramento Papéis avulsos, coordenada por Lilia Schwarcz, trazia para o debate Ana Maria Machado, Luiz Fernando Carvalho e Sergio Paulo Rouanet. O autor de Ao vencedor as batatas salientou em sua fala inaugural o papel dos narradores “volúveis” de Machado, esforçados em iludir o leitor e por meio deles colocar em debate preconceitos (do próprio autor?) do seu tempo.

Em Riso e melancolia, Rouanet focalizou a “hipertrofia da subjetividade” do narrador, onipresente e debochado sobretudo nos romances do Machado da segunda fase, depois de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os quatro integrantes da última mesa retomaram o debate em torno de Esaú e Jacó, Memórias Póstumas e Dom Casmurro. Muito riso e pouca melancolia produziu a releitura feita por Ana Maria Machado, autora do romance A audácia daquela mulher, quando disse espontaneamente: “Quando li Dom Casmurro pela primeira vez, tentei descobrir se Capitu traiu ou não (Bentinho). Da segunda, minha dúvida era outra: como ela se interessou por um cara tão bocó?”

Luiz Fernando Carvalho, autor da versão cinematográfica de A pedra do reino (Suassuna), confessou “odiar” a idéia de “adaptação” de um texto literário ao cinema. Ao realizar a transposição da trama entre Bentinho, Capitu e Escobar, na minissérie Capitu, vai dar ao espectador a sua percepção subjetiva, decorrente de sua leitura de Dom Casmurro, no que obteve o aplauso do público e de Ana Maria Machado, que também rejeitou qualquer tentativa de adaptação de romances para uma versão infanto-juvenil. “Deixem os jovens amadurecerem e fazer sua própria leitura!”

Machado de Assis forneceu a moldura para mais essa Flip, considerada um sucesso de público. Mas sua presença não se limitou ao início e final do evento. Machado também se encontrava nas ruas da cidade, na tenda próxima à Flipinha, onde um boneco, representando o “Machadinho” jovem, pobre mas alegre, namorador, boêmio, vendia doces e cocadas a um público infantil curioso, interessado em ser fotografado ao seu lado. Outro Machado, vestido com terno da época, cabelo e barba recobertos de tinta chumbo, fazia pose para os ávidos em tirar fotos, lembrando aos mais de 6 mil visitantes que ele e sua obra estavam em evidência nesses cinco dias ensolarados de festa.

Mas nem tudo era paz e harmonia nesse encontro literário. Na mesa
intitulada Os fuzis, em que Guilherme Fiúza substituiu Caco Barcello e contracenou com Misha Glenny, havia tolerância demasiada com o usuário de droga (Johny) de classe média, visto mais como “perdido” no mundo burguês que um dos elos que alimenta o tráfico e a violência, como tentou mostrar o filme A tropa de elite. Nova pareceu-me a perspectiva introduzida pelos integrantes da mesa Guerra e paz, composta por dois autores africanos: Chimamanda N. Adichi, nascida na Nigéria, e Pepetela, natural de Angola.

A jovem autora relata o que chamou de “in between” entre agressores e vítimas da guerra de Biafra. Em sua obra focaliza as relações de amor e espanto de mulheres, crianças, amantes, não diretamente envolvidos no conflito, vivendo com e sem guerra em suas redes sociais de amparo e sacrifícios. Pepetela, que participou da luta armada para obter a independência de Angola, confessou preferir fazer uso da escrita a manipular a metralhadora, mas se sentia orgulhoso por ter defendido seu país, de “corpo fechado”, condição sine qua non para obter o respeito de seus companheiros de luta.

Um conflito de outra ordem foi gerado pela discussão do livro de Pierre Bayard, autor de Como falar dos livros que não lemos, em que sugere usarmos, além das siglas comuns “op.cit” (livro acima citado) e “ibid.” (o mesmo), também siglas para livros “não lidos mas comentados” ou “apenas folheados” e livros que não pretendemos ler. Elisabeth Roudinesco considerou esse best seller na França e nos EUA um escândalo, pois estaria fornecendo argumentos para a desconstrução da alta cultura, indispensável para combater um populismo e consumismo barato sugerido pela indústria cultural, que dispensa a leitura e a conscientização política.

Uma forma elegante, lúdica e artística para dar conta do conflito foi tematizada pela mesa de José Miguel Wisnik e Roberto da Matta, focalizando o futebol, dando destaque à transformação desse jogo em paixão nacional brasileira e internacional. Segundo Wisnik, a dimensão lúdica e estética do futebol brasileiro se associa à capacidade desse jogo de impor o respeito à regra ao mesmo tempo em que valoriza a democracia, pela igualdade de acesso de todos a essa paixão, superando barreiras de classe, de poder e de convicção religiosa. Isso poderia servir de lema para as próximas Flips: preservar a vida da literatura, defender a prática de leitura e garantir o acesso de todos ao livro.


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