Verdadeiros intelectuais desdenham a televisão ???
Uma vez, na Universidade da Pensilvânia, o grande sociolinguista William Labov me perguntou se eu assistia televisão, mais propriamente, se me interessava por sitcoms. Tentei explicar a ele como as novelas brasileiras catalisam a atenção de grande parte da população e até da mídia. Depois rimos juntos quando ele observou que ‘verdadeiros intelectuais’ supostamente não veem televisão. Como não tenho a pretensão de reivindicar a condição de ‘verdadeira intelectual ( nem sequer de falsa), posso admitir que vejo algumas novelas, não mais do que um capítulo por dia.
No momento um fato me chama muito a atenção. Dou notícia de duas novelas de grande audiência. A das empreguetes, que vejo aos pedaços, quando estou lanchando, e a “Avenida Brasil” , que me sento para ver e curtir. Ambas as novelas de sucesso giram em torno de mulheres. A primeira explorando, com humor, o conflito entre patroas e empregadas domésticas e a segunda, mais trágica, o desejo de vingança que a enteada, abusada e maltratada na infância, nutre em relação à madrasta, mais perversa que as madrastas da Branca de Neve e da Cinderela juntas. O tema, como se vê, é antigo e já permeava o imaginário dos europeus quando as histórias infantis foram inventadas, difundidas e, posteriormente, registradas por grandes escritores. Naturalmente que há belos e bons atores do sexo masculino nas novelas, mas eles estão ali só para compor o contexto. As histórias se ocupam mesmo das personagens femininas. Nina é a Branca de Neve que dispensou o príncipe, porque, para ela, vingar-se da madrasta cruel é mais importante. Já as empreguetes são as gatas borralheiras que estão virando princesas. Ah, ia me esquecendo. Vejo também às vezes, quando consigo me manter acordada até mais tarde, a nova adaptação da obra prima de Jorge Amado, “Gabriela”. Essa é também uma novela feminina. Das mulheres que sofrem sob o jugo dos seus maridos, coronéis do cacau; das quengas que se vendem por tão pouco e que têm necessidade de se apaixonar por algum de seus clientes; das meninas casadouras que se guardam para o matrimônio e suspiram e ensaiam timidamente rebelar-se contra a castidade que lhes é imposta. E, é claro, tem a Gabriela, a mais completa encarnação da mulher ideal, de cama e mesa, que povoa o universo do escritor baiano. Além de linda, ela é despojada, dedicada ao seu homem, mas incapaz de perceber por que não se deveria deitar também com o moço bonito que lhe faz a corte.
Bem, pra quem gosta de novelas, temos, só nesta amostra, três delas que prestam uma verdadeira homenagem à mulher brasileira.