O tratamento do conceito de Relativismo Cultural nas séries iniciais da escolarização
publicado em Cox, M.I.P. (org.) Que português é esse? Vozes em conflito, Cuiabá: fAPEMAT, 2008, P.67-82 Stella Maris Bortoni-Ricardo (UnB)1
Não é uma tarefa muito fácil operacionalizar o conceito de Relativismo Cultural, fundamental no desenvolvimento da Linguística contemporânea, a partir do século XX, aplicando-o à análise da situação sociolinguística brasileira, com vistas a esclarecer, em salas de aula do Ensino Fundamental, por que certas variedades do nosso português têm aceitação mais ampla que outras. É o caso, por exemplo, de se explicar a alunos de séries iniciais por que a fala de personagens de ficção, nascidos e criados no campo, em particular a do Chico Bento com a qual eles estão familiarizados, é recebida com reservas nas comunidades urbanas ou até mesmo com franco preconceito. Sabemos que é difícil fazer a transposição didática de pressupostos da ciência linguística, como o Relativismo Cultural, que se contrapõem aos preconceitos em relação a línguas ou variedades de língua e seus falantes, se temos compromisso com a clareza, mas queremos evitar o tratamento trivializado desses conceitos. Neste artigo examino os esforços de uma professora para levar seus pequenos alunos a receberem com naturalidade as diferenças linguísticas com que a equipe de Maurício de Sousa marca o repertório de fala do personagem Chico Bento, seus familiares e amigos. 2 O seguinte episódio de sala de aula ocorreu numa 1ª série em uma escola pública na cidade de Taguatinga-DF em 2003. 3 Trata-se de uma conversa entre a professora e alunos depois que eles assistiram a um vídeo do personagem Chico Bento de Maurício de Sousa. 1 Para mais reflexões sobre o tema, ver www.stellabortoni.com.br ) 2 Alguns sociolinguistas criticam, com razão, a forma como a equipe de Maurício de Sousa cria as falas dos personagens rurais da revista Chico Bento. De fato há nessas falas certas incongruências, pois nelas co-ocorrem regras variáveis de caráter descontínuo, como por exemplo, no enunciado: “galante como um porquinho que sai a percura di lama!” (Chico Bento nº. 325 p.28) com expressões próprias do repertório de um falante escolarizado, como, por exemplo, na resposta que o Chico dá ao primo quando esse lhe diz: “_pensei que fosse uma buzina de caminhão!” “_ pois pensô equivocado!” (Chico Bento nº. 346 p.26). Também é passível de crítica o fato de regras graduais, como a elevação do fonema /e/ átono, serem marcadas na fala do Chico Bento. Como essas regras estão presentes na fala de qualquer brasileiro de origem rural ou não, teriam de ser marcadas também na fala dos personagens de origem urbana. Veja-se por exemplo o ato de fala “mi chamando?” (Chico Bento nº. 346 p.26) em que o pronome “me” é escrito “mi” e no morfema de gerúndio –ndo o fonema /d/ não é suprimido. Temos aí dois problemas de imprecisão na transcrição da fala. Neste artigo, contudo, não vou me deter nessa questão de incongruências na transcrição da fala do personagem. Considero que o trabalho escolar com o personagem é um fato positivo, pois ajuda o professor a introduzir em sala de aula o tema do multiculturalismo na sociedade brasileira. A questão da transcrição ortográfica na revista é um assunto para a disciplina de Sociolinguística nos cursos de Letras. 3 Este episódio foi analisado também, de forma mais sucinta, em Bortone, Marcia Elizabeth e Bortoni-Ricardo, Stella Maris. Modos de falar/Modos de escrever. Brasília: MEC. Secretaria de Educação Básica. Secretaria de Educação a Distância. Universidade de Brasília. 2006 (Coleção: PRÓ-LETRAMENTO. Fascículo 06)