O fogo da criação


crônica da cidade

Conceição Freitas (CB, 11/12/2012)


Quando Oscar Niemeyer completou 50 anos, em 1957, portanto em plena convulsão da terra vermelha no Planalto Central, Lucio Costa escreveu um texto tão conciso quanto crucial sobre o processo de criação do parceiro na construção de Brasília.

Lucio Costa não apenas percebeu, de pronto, o nascimento do gênio Oscar Niemeyer, como teve a generosidade de realçar, sempre que pôde e enquanto foi preciso, as excepcionais qualidades do ex-estagiário. O inventor de Brasília contava que a "verdadeira estatura artística" de Niemeyer se revelou nas quatro semanas em que ele trabalhou sob a orientação direta de Le Corbusier. "Nem eu nem outros arquitetos que conviviam com ele àquela época (em meados dos anos 1930) poderíamos imaginar o que estava por acontecer", escreveu Lucio em suas memórias. E o que estava por acontecer era a explosão de um raro talento.

É bastante provável que o texto abaixo já tenha sido publicado nesta crônica, mas, do mesmo modo que reencontrá-lo é sempre uma surpresa, imagino que o leitor também se surpreenderá ou se surpreenderá mais uma vez:

"Oscar, cinquenta anos: pelo volume da obra realizada, poderia ter setenta, mas, na verdade, continua com os mesmos trinta e tantos da época da Pampulha. E pelo jeito será sempre assim. Não se trata, contudo, de nenhum pacto com o diabo. O segredo de sua juventude decorre simplesmente desse exercício cotidiano a que se entrega, e proceder à síntese e depuração de complexos problemas arquitetônicos.

Começa como se estivesse brincando com o tema. Às vezes, o partido — isto é, a escolha da disposição geral e consequente subordinação das partes — é tomado, quase diria, de assalto, logo na primeira investida; outras vezes, o jogo prossegue e começa então a ronda implacável: é de manhã à noite — fora de hora — até que quando menos o espera, abordado de vários ângulos, o cerco se define, e o tema, acuado, como que afinal se rende, se entrega, oferecendo ao arquiteto a almejada solução. Desde momento em diante, tudo se ordena sem esforço, como decorrência da clareza do partido adotado e da intenção que lhe presidiu à escolha.

Resulta daí uma certa euforia interior, um estado peculiar de beatitude artística. Ele convive com os amigos, brinca com os outros, assume compromissos da maior gravidade, mas já está longe — paira solto do chão, em pleno Parnaso. As horas e os dias não contam mais; não há o desgaste; pelo contrário, recebe a carga, acumula vida.

Isto que para nós outros sucede uma vez por outra, dá-se com Oscar Niemeyer, a bem dizer, todos os dias, e assim, feitas as contas com o devido rigor, ao completar cinquenta anos, ele ainda andará por volta dos trinta

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