JANELAS FALANTES
Dizem que filho de peixe, peixinho é. Tenho cá minhas dúvidas. Vovô foi janela em casarão de fazenda. Do lado de fora, o pasto e plantações de açúcar encostando nas montanhas azuis. Do lado de dentro a esposa do coronel tocava piano para as filhas prendadas enquanto o filho recebia lições de matemática à mesa de jantar. Vovô enxergava poder, riqueza e arrogância. Vovó, de cortininhas rendadas, ficava do outro lado da casa. Aliviava o calor e a fumaça vinda do fogão a lenha. Estrategicamente vigiava a mucama quando metia a colher nos tachos de cobre ou quando buscava salsa, cebolinha e pimenta dedo-de-moça para agradar nos cozidos para o patrão. Vovó testemunhava pobreza, humilhação e submissão.
Minha mãe e os irmãos saíram do nordeste num pau de arara. Só o mais novo é que ficou. Foi abençoado com vidros coloridos formando imagens sacras na capela da fazenda. Enxergava fé, reverência e idealismo. Sei que um tio foi para o Rio de Janeiro, juntou-se a uma guilhotina e se instalaram num prédio grande. Achava graça ser aberto por meninos e fechado por professores. Esse tio via respeito, dedicação e alegria. Outro tio seguiu para São Paulo. Se deu mal. Apenas conseguiu um lugarzinho no alto de uma parede de uma fábrica. Trabalhava exaustivamente dia e noite retirando poeira produzida pelas barulhentas máquinas têxteis. Seus olhos esfumaçados observavam ganância, abuso e semiescravidão.
Mamãe foi pioneira. Arriscou-se a vir para Brasília. Teve sorte ao ser instalada na frente de uma casa de família. Ela contava que era divertido porque muitas pessoas passavam na sua frente, mas que a dona da casa ficava brava quando a esquecia aberta e um jipe levantava poeira. Por isso mesmo, dia sim, dia não, lavavam-na com água e sabão. Ela contava que se sentia útil quando de manhã segurava toalhas para secar ao sol ou quando, no meio da tarde, equilibrava uma travessa de bolo quente de fubá. Ao por do sol sentia-se recompensada quando apoiava os cotovelos e servia de moldura para a dona que conversava com os passantes. Ao anoitecer, quando era aconchegada por um par de venezianas esquecia o mundo externo e ouvia o marido contar como cresciam rápidos os prédios do setor Comercial Sul. Dizia que os engenheiros apostavam entre si para ver quem seria o primeiro a concluir. Mamãe percebia o afeto, a união e a esperança.
Foi nessa época que mamãe conheceu meu pai. Contou-me que namoraram, mas quando ele soube da gravidez viajou para São Paulo. Alegou que não queria ficar em casa de madeira, sonhava alto com alvenaria e trabalho em metal.
Ela recebeu uma única carta do meu pai. Triste, dizia-se arrependido. Fizeram-no janela pequena, aprisionando-o em paredes grossas. Gritos escuros de um lado e muros sujos do outro lado. Queria fugir de lá. Escreveu que ódio, rebeldia e preconceito eram evidentes. O carimbo do envelope dizia que era de Carandiru. Nunca mais tivemos notícias. Acho que teve o mesmo fim que a mamãe: demolição.
Da minha parte, posso dizer que não puxei nem meu pai nem minha mãe: não tenho grade nem veneziana. Apesar da visão limitada e sem concurso consegui um lugar num prédio público. Nem ligo se me chamam janelinha. Tenho orgulho da minha conquista. Todos sabem quem sou e onde estou. Fui instalado perto da entrada. Lugar nobre. Muitas portas são identificadas: diretor, escada, almoxarifado. Sou o único em toda a edificação a ter o privilégio a uma placa: protocolo. Externamente office boys e homens engravatados se revezam apressadamente ao empurrar documentos. Internamente, homens de gravatas frouxas constroem enormes castelos com pastas de papéis cercados de ameaçadores grampeadores e mal encarados porta-carimbos formando um exército da burocracia.
Sou prestativo. Tenho hora certa para começar e terminar o trabalho. Se me perguntam o que vejo. Digo sem pestanejar: procurem outra janela.
Nesta semana recebi um e-mail informando que conquistei Menção Honrosa no 9.o Concurso de Contos de Ponta Grossa - PR de 2015.
Este conto também foi Prêmio Incentivo 2015 no 33.o Concurso Yoshio Takemoto – SP.