A Brasília que não lê

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As sociedades humanas, criadas ao longo da História, foram organizadas com funções de melhorar a qualidade de vida de seus membros. Mesmo os grupos de caçadores-coletores, existentes há vinte mil anos, ou mais, já estabeleciam normas de convivência, com o objetivo de incorporar o maior número de membros do grupo. Isto quer dizer que, longe de coloca-los à margem, a sociedade preocupava-se em dar-lhes tarefas, papeis que pudessem desempenhar, mesmo que ainda muito jovens, ou já bem idosos. Depois, com o surgimento das cidades e da civilização (como a conceituamos atualmente) passou a caber aos líderes, fossem eles designados, eleitos, ou simplesmente usurpadores do poder, a tarefa de organizar, alocar as pessoas dentro de grupos de atuação: aqueles que construíam casas, outros que lidavam com irrigação, os que organizavam o culto, aqueles que cuidavam da defesa e assim por diante. Estudar o Egito, as civilizações mesopotâmicas, ou os hebreus, deixa claro que, sem uma cuidadosa organização, nenhum povo conseguiu construir grandes coisas.

Outro fator essencial nas culturas da Antiguidade era o processo de transmissão cultural de uma geração para outra. Enquanto os pequenos agricultores, de um período anterior, tinham que cumprir todas as tarefas em sua propriedade (como preparar o terreno, revolver a terra, plantar, colher, defender a propriedade de invasores humanos e animais predadores, fazer serviços de manutenção, assim como conhecer as estações, tentar adivinhar a previsão do tempo, e até saber construir moveis e utensílios domésticos), o desenvolvimento das cidades iria propiciar uma divisão de tarefas fazendo com que as pessoas pudessem se especializar em áreas específicas. A agricultura familiar pré-urbana não permitia um estudo formal. O filho do agricultor aprendia, com o pai, as tarefas que este já realizava. Já nas sociedades civilizadas, urbanas, sistemas mais complexos de transmissão de conhecimento tornaram-se viáveis. A divisão de tarefas ocasiona a existência de professores, e com eles, a transmissão do saber.

A complexidade social passa a exigir funções de supervisão, que empoderam uma parte dos membros do grupo. Havia o que produzia e o que vendia os produtos, o que construía residências e o que as mandava construir, o que rezava e o que, supostamente, tinha uma ligação mais estreita com a divindade.  Embora todas as tarefas fossem necessárias, todos fizessem alguma coisa, uma camada da sociedade passou a se beneficiar do trabalho alheio, ficando com parcelas maiores da remuneração obtida pelo trabalho de todos.

Isso explica como, mesmo em sociedades ricas como a do Egito faraônico, havia uma camada social de miseráveis, que trabalhava muito, vivia pouco e não usufruía de parcela compatível de tudo o que era produzido. Daí a falácia da frase atribuída a Heródoto, segundo a qual o Egito seria uma dádiva do Nilo. Bastaria perguntar aos camponeses, ou aos servos, que trabalharam até a morte, por exaustão, na lavoura, na busca da água e na construção de obras públicas, quão dadivoso o Nilo tinha sido para eles...

Como e por que o faraó e sua família, assim como a elite dos funcionários públicos civis, militares e eclesiásticos do Egito (respectivamente escribas com altas funções, militares graduados e sacerdotes importantes) conseguiam viver em padrão muito alto, enquanto a maioria da população apenas sobrevivia, tendo que entregar a maior parte de sua produção a título de impostos e tributos? A resposta é simples: porque tinham poder para isso. Porque tinham leis, que eram interpretadas sempre a seu favor. Porque tinham, do seu lado, militares e policiais, que os obedeciam. Em resumo, porque podiam.

Sim, estamos falando de mais de 4 mil anos e seria um enorme anacronismo comparar a sociedade egípcia antiga e sociedades modernas, como a nossa. Contudo, quando se olha para o sistema de justiça , o sistema prisional, a facilidade com que legisladores, julgadores, administradores públicos reproduzem o sistema de poder, defendem seus privilégios, encontram saídas legais para não serem punidos adequadamente, enquanto o oposto ocorre com a “plebe rude”; quando se percebe que o sistema educacional, aquele que foi montado para transmitir saber de uma geração a outra, está se tornando cada vez mais piramidal, com poucos tendo chance de chegar ao topo (não é qualquer família que pode pagar 8 mil reais por mês por um mês de colégio de elite em São Paulo) percebemos que a realidade é outra, mas o processo de poder derivado da divisão de tarefas é o mesmo.

A pergunta paira no ar: é este o país que queremos?

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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