
O Projeto Leitura, tem como objetivo vencer um dos maiores desafios encontrados pelos professores e amantes da literatura: Criar o hábito da leitura.

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Aqui onde Sabino se perdeu
Marcelo Torres
Sabe o Sabino?
Aquele que nasceu homem e morreu menino?
O menino no espelho,
O grande mentecapto,
O gato sou seu,
A chave do enigma,
O homem nu,
A mulher do vizinho.
Aqui estamos todos nus.
O encontro marcado
Sim, ele mesmo: Fernando Sabino. Certa feita ele baixou aqui em Brasília. E aqui nesta quadra. Aliás, para ser mais exato, aqui neste bloco. Ele era muito amigo – e muito admirador também - de Clarice, Clarice Lispector, que era uma linda mulher, casada com um diplomata, morou uns longos dias aqui na cidade.
Por que longos dias? Porque ela não gostava desta cidade, ora! Dizia ela: “A alma aqui não faz sombra no chão”, “Brasília é mal-assombrada”, “Brasília é a paisagem da insônia”. Ela não gostava daqui, parecia o tempo todo assombrada, uma eterna insônia. Mas voltemos a Sabino.
Não se sabe ao certo se ele aqui veio para algum encontro marcado, com ela ou com outra pessoa, ou se veio fazer algum trabalho, alguma pressão no Congresso – porque quem vem a Brasília é sempre com essas incumbências; hoje, além desses compromissos, há também os concursos, vem-se a Brasília fazer concurso. Uma coisa, porém, me parece certa: não viajou ele até aqui para admirar a arquitetura de Brasília, que é bonita, não se pode negar, mas ninguém vem à capital apenas para admirar o modernismo dos doutores Lucio e Oscar. Como bom mineiro, não falou muito sobre o assunto, ele só disse que esteve na cidade e ficou hospedado num apartamento aqui neste bloco. O anfitrião ou a anfitrioa saiu e o deixou sozinho. Foi então que bateu nele aquela vontade doida de fumar – ele fumava muito.
Aí ele desceu para comprar cigarro, sem saber onde. Ali na entrequadra passou por aqueles blocos, tinha um bar, tinha um restaurante, tinha um salão, uma padaria, um sebo, uma farmácia... Ele só foi achar o bendito cigarro sabe onde? Ali na banca, do outro lado. E quando ele se pôs no caminho de volta, achou tudo muito estranho, tudo muito igual. “Eu me vi numa floresta de prédios iguaizinhos uns aos outros”, disse. Aí ele ficou parado, só olhando os prédios, que de fato são todos iguais, mas separados, o chão com muita grama, esse passeio de cimento, muitas árvores, esse imenso bosque vazio.
Puxou um cigarro e ficou na sombra a esperar alguma alma caridosa. Deve ter se sentido um grande mentecapto, sabe-se lá. Pensou: “Estou perdido em Brasília, quem diria! Não hei de conseguir achar nunca mais o apartamento”. Mas logo lembrou que anotara o endereço, vasculhou os bolsos da calça, na frente e atrás, depois os da camisa e em um deles achou um papelzinho onde estava escrito um código alfanumérico: “SQS – 307 – F – 502”.
Agora que ele reparou o que estava escrito. Seria uma senha? Na corrida do aeroporto para cá, ele só mostrou o papel ao taxista, e o taxista disse que era fácil, fácil, não tinha errada. Você já reparou que todo mundo em Brasília diz que tudo aqui é fácil? Mas todo mundo que vem aqui estranha, já percebeu? É fácil para quem é daqui e se acostumou, mas para quem é de fora é uma esfinge.
Bom, aí Sabino olhou o papel. Que diabo seriam aqueles códigos? SQS 307? E a letra F isolada e seguida do número 502? A situação estava mais para SOS! Parado sob a sombra da árvore, acendeu mais um cigarro e torceu para aparecer uma boa alma que pudesse traduzir aquele estranho código.
Pardais ciscavam pela grama, cigarras faziam uma sinfonia nas árvores. Lembrou do que Clarice escreveu: “Socorro! Socorro! Help me! Sabe qual é a resposta de Brasília ao meu pedido de socorro? É oficial: ‘aceita um cafezinho?’” Sabino sorriu, uma coisa que não lhe tiravam era o sorriso, ele sempre disse. Acendeu mais um cigarro e sorriu, ouvindo ao longe a voz do velho: “No fim dá tudo certo; se não der certo é porque ainda não chegou ao fim”.
Pois no fim desse corredor de cimento, vinha vindo uma moça puxando um cachorrinho. Quando chegou, era simpática, prestativa, atenciosa. Ela sorriu. Talvez nunca ninguém tenha pedido a ela uma informação de endereço – em Brasília. Ela olhou o papel, sorriu mais uma vez e trouxe Sabino até este pilotis, bem aqui. “É este aqui”.
Detalhe: ela não pediu livro, nem autógrafo, não quis tirar foto, nada, nada, nada. Disse apenas “É este aqui”, e foi embora puxando seu cachorrinho. Com certeza ela não sabia com quem estava falando.
Sabino agradeceu, meio desconcertado, talvez esperasse que a mocinha lhe perguntasse algo, falasse de algum livro, pedisse um autógrafo, um cartão. Só restou a ele subir. E ele subiu, juntou seus trens, pegou o telefone e chamou um táxi.
Segundo Sabino, só existem dois tipos de gente no mundo: aquele que tem medo de avião e revela esse medo, e aquele que tem medo e não revela. Ele dizia pertencer ao primeiro grupo. Porém, apesar de todo medo, naquele momento ele pegaria um táxi para o aeroporto, e lá mudaria o dia e o horário do voo de volta para o Rio.
Depois, quem sabe, escreveria uma carta ao amigo.