A Brasília que não lê

Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?

Leia Mais

Projeto Leitura

O Projeto Leitura, tem como objetivo vencer um dos maiores desafios encontrados pelos professores e amantes da literatura: Criar o hábito da leitura.

Leia Mais

Projeto LEF

Projeto LEF Confira artigos, trabalhos, Vídeos, Fotos, projetos na seção do Letramento no Ensino Fundamental.

Leia Mais

Blog

 

Certas histórias de família são tão exemplares, mesmo que, nos detalhes, pareçam muito particulares, que vale a pena contá-las. Seguramente, muitos leitores saberão de casos semelhantes ocorridos entre seus ancestrais. Este é um episódio vivido pelos meus.

A vida da família Kahn nos anos 1920, em Alytus, Lituânia, foi melhorando à medida que os filhos iam crescendo. Como se dizia, para alimentar cada boca havia dois braços trabalhando. A família produzia leite e verduras na pequena gleba arrendada e toda a produção era vendida para ser utilizada por residentes das colônias de tuberculosos da cidade. Não que algumas doenças não acometessem este ou aquele, mas, em uma época em que parte substancial das crianças não chegava à adolescência, todos os filhos de dona Sara "vingaram" e vão aparecer em foto familiar, tirada em 1929 ou 1930, saudáveis e com ótima aparência.

A região era conhecida por ter surtos relevantes de tuberculose. Para se ter uma ideia, em levantamento feito na importante cidade de Kaunas, a uma hora de Alytus, entre alunos de 7 a 14 anos de idade, foi constatado que 80% deles eram portadores de tuberculose. Enquanto isso, dona Sara, viúva, responsável por nove filhos, conseguiu que todos sobrevivessem.

Há poucos relatos sobre o dia a dia da família nessa época, mas sabe-se que ela respeitava profundamente a cultura judaica, embora não se tratasse de gente muito religiosa. Vários filhos começaram a frequentar movimento juvenil sionista, particularmente o Hashomer Hatzair (Jovens Sentinelas) que pregava, junto com a vida em um kibutz em Israel, uma insubordinação aos dogmas religiosos, tanto os relativos à alimentação e à sexualidade, quanto aos ritos praticados na sinagoga.

Shlomó liderava o grupo dos filhos "esquerdistas". Fermina e Israel apoiavam suas ideias. Luiza, embora muito jovem, seguia o pensamento de Shlomó e frequentava o Hashomer. Enquanto o irmão, por temperamento, questionava publicamente as práticas conservadoras da comunidade, ela, dotada de muita inteligência social, procurava estender uma ponte entre as diferentes concepções. Mas, muitos anos depois, ela ainda se lembraria e cantaria para os filhos algumas marchas revolucionárias aprendidas nas reuniões do grupo sionista.

A família, numerosa, se bastava em muitos aspectos. Ela não demonstrava, publicamente, eventuais fissuras internas. Não se abria muito para fora, nem para a comunidade judaica, menos ainda para os lituanos cristãos. O desprezo com que os judeus eram tratados pelos não judeus, o incitamento antissemita nas igrejas e na escola não eram, de resto, fatores favoráveis a uma interação.

No final dos anos 1920, começaram a aparecer pequenos sinais assustadores. Mesmo vivendo agora com certo conforto, a família não deixou de observá-los: tentativas de boicote aos comerciantes judeus, "brincadeiras" cada vez mais pesadas com as crianças que frequentavam a escola estatal, vizinhos que passavam e "se esqueciam" de cumprimentar. Uma onda nacionalista varria então a Lituânia e os judeus, mesmo os que lá viviam havia seis ou sete séculos, passaram a ser considerados estrangeiros, tanto quanto os russos e os alemães. Avoluma-se a emigração para a América, para a África do Sul. A vida material não está ruim, mas, sabe-se lá o dia de amanhã...

Minha avó troca cartas com o irmão Jacob, que tinha emigrado para os Estados Unidos, quando esse país ainda recebia imigrantes judeus da Europa Oriental. Ele a aconselha a abandonar a Lituânia, mas não consegue os papéis para que a irmã entre na América. Vovó Sara troca ideias com a irmã e esta diz que também não conseguira um visto para os Estados Unidos, mas que decidira emigrar para o Brasil, que diziam ser um país com muito futuro.

Chane tem uma ideia: Que tal casar meu filho Shepsl (Simão, no Brasil) com uma prima, das muitas filhas que a irmã tem? Isso resolveria o problema de Shepsl, que já está em idade de casar. Assim ele viajaria com esposa. E poderia ajudar a família Kahn a tomar uma decisão: a noiva escolhida mandaria, do Brasil, informações de como é o país e a turma resolveria se valia a pena tirar, de uma vez, todo o mundo da Lituânia e ir para um lugar novo, sem tradição de antissemitismo.

Vovó Sara gosta da ideia da irmã. Resta definir qual das cinco filhas se casará com o primo. As duas pequenas ficariam fora da lista, mas ainda restavam três. Decidiu-se consultar as possíveis candidatas. Fermina ri muito com a ideia, ela quer alguém mais culto. Sobram Ester e Ana. Esta, por ser a mais velha, tem a preferência, e aceita o casamento de risco.

O rapaz aparece na casa dos Kahn. Quieto, muito sério. As meninas menores riem da irmã, que tenta fazer cara de séria, não é mais uma simples irmãzinha, é uma noiva. Os dois se casam. Ana, agora, pertence à família Kumpinski e parte para o Brasil.

Olhando para o acontecimento, quase um século depois, fico a pensar que esse casamento arranjado, estranho, sem amor, entre primos de primeiro grau, no final das contas salvou toda a família. Alguns indícios da tragédia que se abateria sobre todo o povo judeu havia sido captado pelas irmãs. Menos de um ano depois do enlace, minha avó, com os filhos, viria para o Brasil. A mudança de país fez com que a história dos Abelov (sobrenome de solteira da minha avó), dos Kumpinski e dos Kahn não acabasse em 1941, quando terminou, por conta dos nazistas, a história de seis séculos dos judeus de Alytus.


Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, doutor e livre docente da USP, organizador e coautor de Novos Combates pela História (Editora Contexto)

Categoria pai: Seção - Blog

Nenhuma descrição de foto disponível.

Categoria pai: Seção - Blog

O fato é indiscutível. Um número cada vez maior de brasileiros sai do Brasil para não mais voltar. Na verdade, até voltam, mas por pouco tempo, só para matar a saudade, já que fixaram residência em países que consideram mais promissores. Brasileiros que vivem nos EUA e na Europa adoram nos visitar no final do ano, quando o frio no Hemisfério Norte fica desagradável e eles passam a sonhar e idealizar nossas praias com água morna, areia fina e acesso livre. São hordas de brasileiros lotando os aeroportos do Primeiro Mundo para duas semanas de Brasil. Passado esse tempo, em que recarregam as baterias, eles voltam ao país que escolheram para residir, onde conseguem ter um padrão de vida superior.

Por aqui, muita gente anda pesquisando suas origens, não por súbito amor à história, mas para ver se encontram algum bisavô que possa garantir à família um documento que assegure a cidadania europeia. Nunca se suspirou tanto por aquele camponês do Vêneto que, cansado de ser explorado, juntou sua numerosa família e suas poucas posses e veio ao Brasil em busca de liberdade, pão e uma pequena gleba onde pudesse trabalhar sossegado. Agora, um século depois, o sentido é inverso, todos daqui almejam um passaporte da União Europeia, na esperança de permitir uma vida melhor para os descendentes.

 
PUBLICIDADE
Categoria pai: Seção - Blog

solidária. Não temos aqui uma democracia funcional. Não temos aqui uma Justiça razoável. Não temos aqui um ensino universal de qualidade.
 
Por mais que os formalistas tentem explicar as firulas processuais, nenhum ser humano normal, dotado de um mínimo de bom senso, pode aceitar o fato de que todos os políticos julgados, mesmo os raríssimos condenados, nas instâncias inferiores, a penas longas, acabam saindo livres, ricos, respeitados e, com frequência, presenteados com cargos públicos bem remunerados. Por outro lado, o STF preocupa-se em manter penas como a de uma pobre infeliz que surrupiou algumas barras de chocolate no supermercado e teve a ousadia de pedir perdão. “A lei tem que ser aplicada”, dizem os arautos da injustiça seletiva.
 
Na área da Educação o descalabro é geral. Em vez de buscar o apoio de boas universidades e bons especialistas, os governos (e estou usando o plural, não estou falando apenas da era bolsonarista) aparelham os setores do Ministério de Educação, que deveriam ter um caráter técnico, com gente sem um mínimo de condição curricular e intelectual para desempenhar até papeis subalternos. O resultado é a transformação de uma área, que algumas décadas atrás, (como nos tempos do Presidente Itamar Franco) prometia ser séria, apolítica e destinada a estabelecer políticas de Estado, em mera aplicadora de receitas ineficientes. O resultado tem sido o esvaziamento crescente do órgão, pois gente boa, quando convocada, não consegue  implantar propostas sérias, mesmo as que estão dando certo em muitos outros países. E por aí vamos, reproduzindo a desigualdade, não dando oportunidades iguais a todos e fazendo remendos com sistemas de cotas que, evidentemente, só beneficiam os poucos beneficiados, não a maioria da sociedade. O sistema de cotas não é uma solução, é um paliativo e como tal precisa ser visto.
 
Democracia? A despeito dos esforços de poucos, a despeito de ser melhor uma democracia formal (que não é mais do que democracia aparente, não real) à democracia alguma (e ministros inteligentes, como Barroso, sabem disso), vamos ser sérios... Que democracia é esta? O sistema democrático tem, entre seus princípios básicos, o conceito da igualdade de oportunidades. Que oportunidade igual tem um adolescente de 18 anos, que fez uma escola pública na periferia da cidade, contra outro, que estudou em uma escola particular de ponta, que custou mais de 5 mil reais por mês e prepara cuidadosamente os alunos para o vestibular? Igualdade de oportunidade? Piada. Este estudante entra em Medicina, ou Engenharia, ou Administração, ou Economia em uma excelente faculdade pública. Faz o curso superior sem pagar nada. Como não há refeição grátis, todos nós pagamos. Vejam só a ironia: somos nós, todos nós, com nossos impostos, inclusive os mais pobres dentre nós, os financiadores do estudo superior do garoto de boa família.  No final, o rapaz vai fazer uma pós graduação nos EUA e nunca mais volta ao Brasil, a não ser no final do ano, para mostrar à sua noiva, americana ou europeia, como o seu país é lindo... nos quinze dias em que passa aqui.
 
Quando o sujeito é muito generoso, mas muito generoso mesmo, pois não tem nenhuma obrigação de fazer isso, ele faz uma pequena contribuição à faculdade em que estudou de graça durante quatro, cinco ou seis anos. E fica chateado que não coloquem uma plaquinha lembrando seu ato patriótico.
 
Feliz ano novo a todos.  


Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, doutor e livre docente da USP, organizador e coautor de Novos Combates pela História (Editora Contexto)

Categoria pai: Seção - Blog

 

 

Maria Fátima de Sousa

 

Colocar em dúvidas a eficácia das vacinas para as crianças de 5 a 11 anos é mais um atentado contra a saúde pública/coletiva. Esta é mais uma das ordens descabidas e cumpridas pelo ministro da saúde sem nenhuma referência científica, inclusive afrontando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que aprovou a vacina Pfizer. Ele também vai de encontro dos gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) e seus conselhos, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS).

O que estamos assistindo, mais uma vez, é uma campanha contra a vacina, que salva vidas há décadas, e que, nessa pandemia, tem evitado ampliar ainda mais o número de mortes e de casos do Covid 19 no país. Faltou ao ministro a responsabilidade sanitária que exige o cargo que ocupa; faltou a honestidade científica, se colocando em (na) contramão ao mundo onde pesquisadores/cientistas, autoridades de saúde e chefes de estados de mais de 39 países a autorizaram e/ou iniciaram a vacinação em suas crianças, com a consciência sanitária de que essa é uma estratégia fundamental ao controle da pandemia, evitando assim a transmissão do vírus e das formas graves de adoecimentos e a evolução a óbitos.

Além de ficarem atentos a persistência da variante delta, do avanço da ômicron e dos cuidados que devemos ter com a segurança no retorno às aulas presenciais das crianças, sobretudo aquelas marcadas pelos vírus das desigualdades que se perfilam dia a dia na procissão dos desempregos, subempregos, insegurança alimentar e nutricional, moradias insalubres, transportes precários e pobrezas indignas, entre outros fatores da face da desumanidade, agravados pela tragédia da pandemia.

Faltou ainda ao ministro da saúde, sinceridade ao assumir que a tal consulta pública e audiências (instrumentos necessários à elaboração das políticas públicas e construção de consenso) não se aplicam nessa matéria. Ao contrário, criou incertezas, pânicos junto aos pais, principalmente aqueles que negam a ciência, atentando contra a saúde dos seus filhos e da população em geral. Um ato de obediência à ignorância atrevida e um desrespeito ao juramento que fez ao se comprometer cuidar da saúde das pessoas.

Faltou com a verdade que não se trata de falta de vacinas. Deveria assumir que sequer dispõe de autoridade perante os demais gestores do SUS, que seguirão responsáveis em não seguir uma orientação estapafúrdia e que, mais uma vez, coloca em risco a legitimidade e autoridade técnico-científica do Programa Nacional de Imunização (PNI).

Ao invés de prorrogar a campanha da vacinação para as crianças, deveria ter assumido que está desistindo de ser uma autoridade sanitária que deveria passar segurança à população em momento tão grave da saúde pública. Mas não, cumpre todas as ordens que lhe chegam de um presidente que só prestou desserviço à população, afinal o Ministério da Saúde deve orientar a nação da importância da vacinação, único caminho para seguir salvando vidas.

Ao contrário, promete que em janeiro vai vacinar, prorrogando uma ação governamental para ontem. Amanhã, quem assegura que as crianças não vão adoecer ou morrer? Um verdadeiro desmantelo. Ainda bem que existem servidores públicos vigilantes que defendem o PNI, o SUS, a vida e saúde da população brasileira mesmo em meio a um caos que agora alcança diretamente nossas crianças.

Não podemos esquecer que atitude dessa natureza contribui, cada vez mais, para a ampliação do movimento anti vacina, permitindo às autoridades do Governo Federal induzirem as mães a não deixarem seus filhos serem vacinados e assim desacreditarem nas decisões sobre os rumos do PNI, historicamente respeitado no Brasil e no mundo pela sua agilidade e capilaridade em todos os municípios brasileiros, dos centros às periferias das cidades vacinando nossas crianças, foi e é assim que é considerando um dos maiores e mais inclusivos programas de imunização em todas as nações. Podemos citar vários dos seus benefícios, mas destaco a erradicação da varíola nos anos 80 e da poliomielite na década de 90.

Logo, os pais precisam entender a urgência da vacinação porque a pandemia ainda não acabou, e essa é a forma mais eficaz de frear a contaminação e o surgimento de novas variantes do coronavírus. Apenas a imunização em massa nos protege e diminui o risco de contágio. Que os novos ares de Janeiro nos livrem do atraso de mais uma lamentável decisão.

 

 

Enfermeira sanitarista, professora associada do Departamento de Saúde Coletiva, da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade de Brasília. Doutora honoris causa pela Universidade Federal da Paraíba e pós doutora pela Université du Québec à Montréal. http://lattes.cnpq.br/7405541534944144

 

 

Categoria pai: Seção - Blog

Pesquisar

PDF Banco de dados doutorado

Em 11 de janeiro de 2022, chegamos a 182 downloads deste livro. 

:: Baixar PDF

A Odisseia Homero

Em 01 de janeiro de 2022, chegamos a  6.573 downloads deste livro. 

:: Baixar PDF

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Uma palavra depois da outra


Crônicas para divulgação científica

Em 11 de janeiro de 2022, chegamos a 11.759 downloads deste livro.

:: Baixar PDF

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Novos Livros

 





Perfil

Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

Leia Mais

Publicações

Do Campo para a cidade

Acesse: