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LEITURA E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA
O que fazer para levar os estudantes a entenderem os textos que leem e escrevem na escola e fora dela?
A Brasília que não lê
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Presidente do CNPq fala sobre pesquisa e formação de pesquisadores

 

Entrevista com Glaucius Oliva - "A maioria quer ser inovadora"


O presidente do CNPq diz que enviar talentos ao exterior é o caminho para romper com o marasmo no ensino superior brasileiro e tirar os ainda acomodados da zona de conforto.

Desde a estreia do Ciência sem Fronteiras, em julho de 2011, a rotina do físico Glaucius Oliva, 53 anos, é tomada por decisões cuja complexidade se equipara ao gigantismo da iniciativa. Só nas contas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) órgão que há dois anos ele preside -, o número de estudantes enviados às melhores universidades do mundo deve se multiplicar por vinte até 2014. Como uma das cabeças à frente do programa, Oliva já teve de lidar com os tropeços iniciais e se lançou pessoalmente na costura de parcerias em países onde a inovação é cultivada em grau máximo.

Doutor em biologia estrutural pela Universidade de Londres - área à qual ainda se dedica na USP de São Carlos -, ele considera decisiva a convivência com a nata da academia mundial. "Espero que essa geração mais globalizada dê uma boa chacoalhada nas universidades brasileiras", dispara na seguinte entrevista que deu a VEJA.

Por que têm faltado candidatos às vagas oferecidas pelo Ciência sem Fronteiras?

Isso se vê principalmente na pós-graduação, em que muitos dos estudantes de mestrado e doutorado vivem em uma zona de conforto. Eles não ambicionam nada de muito extraordinário, fora da curva, e vão sobrevivendo à base de um ou dois artigos publicados por ano em revistas de baixa relevância. Essa turma leva uma rotina estável, previsível, e não tem grandes incentivos para se mexer e estudar no exterior.

Como esperar que, na volta ao Brasil, os talentos agora enviados às melhores universidades do mundo se sintam compelidos a produzir e a permanecer em ambientes como esse?

Tenho a esperança de que eles deem uma boa chacoalhada nas universidades brasileiras. A começar pela graduação, ainda apoiada em um modelo velho, fossilizado. Nem mesmo instituições mais conceituadas, como a USP, ficam de fora. Impomos aos alunos uma carga horária absurdamente elevada, baseada em um excesso de aulas expositivas maçantes. Basta olhar um pouco além de nossos próprios muros para perceber que a nata da academia mundial está caminhando justamente em direção oposta. Eles envolvem o aluno em projetos desafiantes, em leitura e discussões de altíssimo nível, no lugar de deixá-Io preso a uma sala de aula congelada no século XIX.

Recentemente, vieram à tona casos de atraso no pagamento de bolsas a brasileiros bancados no exterior pelo Ciência sem Fronteiras. Não foi a primeira vez. Por que a rec:orrência do erro?

Esses casos são raros diante do volume de bolsas distribuídas, mas inaceitáveis. Eles são produto dos labirintos burocráticos do setor público. Olhe como a coisa funciona. O dinheiro que atrasou era para dar um adicional àqueles estudantes que estão vivendo em cidades mais caras. Sendo uma verba extra, era preciso publicar uma portaria para poder alterar os valores no sistema e ainda submeter o caso ao crivo de uma instância jurídica. O trâmite acabou se arrastando por mais tempo do que deveria, e os alunos ficaram quatro meses sem ver a cor do dinheiro. Não podemos deixar que se repita, sob o risco de arranhar uma ótima iniciativa.

Houve resistências ao programa por parte das universidades?

Inicialmente, sim. Alguns coordenadores e professores questionavam: "Como assim? Vão levar embora nossos melhores cérebros?". Eles não conseguiam olhar um passo adiante. Mas, conforme foram se familiarizando com o programa, acabaram se convencendo de que poderia ser bom para todos. Uma turma que até hoje reclama é a da área de humanas, que ficou de fora. Não se passa um dia em que eu não receba um e-mail de alguém contrariado querendo saber o motivo da exclusão. Explico a essas pessoas que as bolsas para humanidades não foram extintas, e até se expandiram, só não foi no mesmo volume que as demais. Com o Ciência sem Fronteiras, fizemos, sim, uma opção pelas áreas exatas e biomédicas, porque o país precisa contar com uma base de talentos aí para se tomar mais inovador e conseguir competir globalmente.

Por que o Brasil ficou apenas na 58" posição no último ranking mundial da inovação? Esse é, antes de tudo, o retrato de um atraso histórico em relação aos países mais desenvolvidos, que começaram a cultivar o saber séculos antes de o Brasil ver surgir sua primeira universidade. Até os anos 70, a ciência brasileira era inexpressiva no cenário internacional, uma aventura para uns poucos heróis que se lançavam na busca de conhecimento com pouco incentivo. Quando finalmente fincamos as bases para uma produção científica mais sólida, outros fatores emperraram os avanços. Um deles foi a falta de foco na escolha dos temas investigados.

Esse é um fator que continua pesando contra a inovação?

Já melhoramos muito. Para se ter uma ideia, naqueles tempos em que a ciência brasileira estava no chão, o bordão no meio acadêmico era: Produza alguma coisa, não importa o que nem para quê". Nossa ciência sempre foi muito ofertista, regida por uma lógica segundo a qual primeiro você investiga um assunto, depois pergunta se alguém está interessado nele. Hoje, felizmente, há cada vez mais pesquisadores debruçados sobre problemas concretos, dedicados à ciência aplicável. Mas persistem, sim, núcleos universitários que se perdem em temas etéreos, alguns com a visão enviesada por suas próprias crenças e ainda aferrados a antigas bandeiras ideológicas.

Quais bandeiras?

É uma minoria, mas há gente na academia que ainda não vê com simpatia a aproximação com o setor privado. Eles repetem o mesmo velho bordão: "Vamos acabar colocando recursos públicos a serviço do capital". Esses centros de resistência sustentados sobre o discurso ideológico contribuíram historicamente para manter as empresas distantes do mundo acadêmico e a inovação brasileira, por consequência, longe do topo. Se você conversar hoje com certas associações de docentes, talvez ainda escute conhecidos slogans anticapitalistas. Mas reafirmo: atualmente, eles já não traduzem mais a predisposição da maioria, que quer inovar.

Nos países mais inovadores do mundo, a maior parcela dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento vem do setor privado, e não do governo. Por que no Brasil é diferente?

As empresas brasileiras se desenvolveram sob um protecionismo pesado, num ambiente em que a competição não era estimulada e não havia incentivo à inovação. Nenhum empresário em sã consciência colocaria dinheiro no desenvolvimento de novas tecnologias - algo que leva anos para se reverter em riqueza - sem confiar na solidez das instituições nem em uma moeda cujo valor era corroído a cada dia pela inflação. Mas isso vem mudando, e rapidamente.

De onde vem essa sua convicção?

Nos encontros com organizações como Fiesp e CNI, ouço a toda hora as cabeças mais empreendedoras do país falando da necessidade de inovar. E eles estão realmente pisando no acelerador. Entenderam que, no mundo de hoje, ninguém se toma competitivo sem ser inventivo. O Brasil é um caso único de país no mundo em que uma universidade - a Unicamp - está entre as instituições que lideram a produção de patentes. É o setor privado que deveria encabeçar o desenvolvimento de novas tecnologias. Cabe ao governo, de seu lado, garantir crédito, segurança jurídica e incentivos tributários à inovaçílo - esta, aliás, uma iniciativa amplamente aceita pela Organização Mundial do Comércio.

Por que a esmagadora maioria dos Ph.Ds. brasileiros prefere trabalhar em universi· dades e não no setor privado, como é tão comum nos países mais desenvolvidos?

Por muito tempo, faltavam boas oportunidades nas empresas, mas também iniciativa por pane dos doutores brasileiros para quebrar o ciclo da inércia que os faz permanecer no universo acadêmico. Há, como já disse, uma acomodação na academia entre aqueles que ambicionam pouco e não veem sentido em ir além da zona de conforto. A própria universidade não os incentiva a sair. Quando recebem propostas de emprego de uma empresa, não é raro ouvirem de seus orientadores: "Vão roubar o meu doutor?". Grandes pesquisadores às vezes se esquecem de que uma das funções primordiais da academia é justamente formar doutores de alto nível para elevar a produtividade da indústria.

O princípio da meritocracia não deveria estar mais presente nas universidades brasileiras?

A isonomia salarial é intrínseca ao serviço público. Um juiz que trabalha com presteza ganha o mesmo que aquele que só bate ponto na repartição, atravancando o Judiciário, e essa mesma lógica distorcida se replica na universidade pública. Na posição que ocupo, preciso lidar com a realidade encontrando caminhos para, dentro do sistema já estabelecido, tentar garantir o reconhecimento ao esforço e aos talentos individuais. O CNPq e a Capes já dispõem de bons mecanismos para aferir com objetividade o nível da produção dos grupos de pesquisa e contam com verbas para premiar os mais produtivos. O dinheiro vai para o bolso do pesquisador e para o seu laboratório. Agora, acho que cabe, sim, uma reflexão sobre aspectos da legislação brasileira que acabam sufocando o princípio da meritocracia.

O senhor pode dar um exemplo?

Se eu sou o chefe de um grupo de pesquisas na universidade, tenho uma vaga a ocupar e encontro um profissional que se encaixaria perfeitamente na função, não posso contratá-Io. A lei me impede. Ela exige o concurso público. Nos Estados Unidos, onde essas regras são muito mais flexíveis, você escolhe um professor de Princeton ou de Harvard e pode fazer a ele a proposta mais agressiva que estiver ao seu alcance. Todos sabem que a presença de um bom professor desencadeia um ciclo virtuoso, já que ele consegue atrair mais alunos, projetos e dinheiro para a universidade.

Os bons cientistas brasileiros queixam-se do excesso de burocracia na universidade. O senhor engrossa o coro?

Sem dúvida. Olhe, por exemplo, como funciona o sistema de doação de dinheiro privado para as faculdades públicas. Essas verbas precisam ser elCecutadas segundo as normas do serviço público. Ou seja, se eu quero comprar um equipamento que atende às necessidades da minha pesquisa, preciso antes lançar uma licitação. E ela deve sempre obedecer à regra do melhor preço, que, como se sabe, nem sempre é o critério mais adequado para fazer uma escolha no meio científico. Para piorar as coisas, o dinheiro doado às vezes leva até um ano para ser disponibilizado, e é o próprio pesquisador que conduz todo o processo, perdendo um tempo valioso de sua atividade intelectual.

Quase a metade das vagas oferecidas neste ano nas universidades públicas foi preenchida com estudantes beneficiados pela nova política de cotas. O senhor apoia a iniciativa?

Acho que os efeitos dessa política podem ser positivos, sim, mas o governo deve observar atentamente as consequências dela para que a qualidade seja preservada acima de tudo. Os Estados Unidos adotaram no passado um sistema mais flexível, dando um empurrão àqueles alunos que não estavam no topo, mas que já apresentavam rendimento escolar compatível com os desafios do ensino superior. Eu me pergunto: será que era necessário estabelecer um número fixo de vagas para os cotistas? E deveria ser 50%? Ou 20%, 30%? Se as notas de ingresso forem baixas demais, o princípio da meritocracia ficará em xeque.
Precisamos acompanhar os desdobramentos da iniciativa para evitar isso.

Há um grupo que defende a extensão das cotas à pós-graduação. O senhor se inclui nele?

De jeito nenhum. Essa é uma bandeira agitada por grupos de afrodescendentes que deixam de considerar algo essencial: depois de uma graduação, as diferenças na largada da vida acadêmica já deveriam ter sido sanadas há tempos. Se elas não foram, infelizmente, não é possível almejar um mestrado, muito menos um doutorado. Nesse olimpo deve estar gente verdadeiramente preparada para atuar na fronteira do conhecimento, com alta capacidade para inovar e gerar riqueza.

 

 

Definições de dicionário feitas por crianças

Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos

Atualizado em 18 de maio, 2013 - 18:38 (Brasília) 21:38 GMT
Crianças colombianas | Foto: Cortesia Bilblioteca Laboratório do Espírito

Crianças produziram cerca de 500 definições, que viraram livro de sucesso

São definições cheia de poesia e sabedoria, apesar da pouca idade de seus autores. Ou talvez por isso mesmo.

Vão desde A de adulto ("Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si", segundo Andrés Felipe Bedoya, de 8 anos), até V de violência ("A parte ruim da paz", na definição de Sara Martínez, de 7 anos).

O dicionário está no livro "Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças", uma obra que surpreendeu ao se tornar o maior sucesso da Feira Internacional do Livro de Bogotá, no final do mês de abril. A surpresa aconteceu especialmente porque o livro foi publicado pela primeira vez na Colômbia em 1999 e reeditado no início desse ano.

"Isso me faz pensar que o livro continua revelando, continua falando sobre as pequenas coisas", disse à BBC Mundo Javier Naranjo, que compilou as definições feitas por crianças colombianas.

"Eles têm uma lógica diferente, outra maneira de entender o mundo, outra maneira de habitar a realidade e de nos revelar muitas coisas que esquecemos", diz.

É assim que, no peculiar dicionário, a água é uma "transparência que se pode tomar", um camponês "não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos" e a Colômbia é "uma partida de futebol".

Sabedoria infantil

Crianças colombianas com Javier Naranjo | Foto: Cortesia Bilblioteca Laboratório do Espírito
  • Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
  • Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
  • Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
  • Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
  • Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)
  • Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
  • Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
  • Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
  • Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
  • Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
  • Guerra:Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
  • Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
  • Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
  • Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
  • Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
  • Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
  • Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
  • Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
  • Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
  • Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
  • Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

Fonte: livro Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo

Além disso, uma das definições de Deus passa a ser "o amor com cabelo grande e poderes", a escuridão "é como o frescor da noite" e a solidão é a "tristeza que a pessoa tem às vezes".

'Outra visão do mundo'

As definições - quase 500, para um total de 133 palavras diferentes - foram compiladas durante um período "entre oito e dez anos", enquanto Naranjo trabalhava como professor em diversas escolas rurais do Estado de Antioquía, no leste do país.

"Na criação literária fazíamos jogos de palavras, inventávamos histórias. E a gênese do livro é um dos exercícios que fazíamos", conta ele, que agora é diretor da biblioteca e centro comunitário rural Laboratório do Espírito.

Ele diz que teve a ideia de pedir aos alunos uma definição do que era uma criança, em uma comemoração do dia das crianças.

"Me lembro de uma definição que era: 'uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo'. Eu adorei, me pareceu perfeita."

"As crianças escolheram algumas palavras e eu também: palavras que me interessavam, sobre as quais eu me perguntava. Mas não fugi de nenhum", afirma Naranjo.

No dicionário aparecem temas do cotidiano da Colômbia, como guerra e "desplazado", pessoa que se desloca pelo país, geralmente fugindo de conflitos. Um dos alunos definiu a palavra criança como "um prejudicado pela violência".

Aprender a escutar

Para a publicação, Naranjo corrigiu a pontuação e a ortografia das definições escolhidas, mas afirma não ter tirado nenhuma das palavras por "questões ideológicas".

Por isso, o livro mantém a voz das crianças, com suas formas de explicar as coisas e construções gramaticais particulares. Bianca Yuli Henao, de 10 anos, define tranquilidade como "por exemplo quando seu pai diz que vai te bater e depois diz que não vai".

O ex-professor diz que o respeito à voz das crianças também é parte do sucesso do livro, que foi reeditado em 2005 e 2009 e inspirou obras semelhantes no México e na Venezuela.

As vendas do livro ajudaram a financiar as atividades da biblioteca atualmente dirigida por Naranjo, que continua convidando as crianças a deixar a imaginação voar com outras dinâmicas.

"Nós adultos somos condescendentes quando falamos com as crianças e deve ser o contrário. Mais que nos abaixarmos temos que ficar na altura deles. Estar à altura deles é nos inclinarmos para olhar as crianças nos olhos e falar com elas cara a cara. Escutar suas dúvidas, seus medos e seus desejos", diz.

   

Martha Medeiros fala sobre o Dia das Mães

 

Um feliz dias das mães , para essas mães doidas e santas! Lindo texto de Martha Medeiros

Doidas e santas"
Martha Medeiros
- Revista O Globo - 13 de abril de 2008 - ELA DISSE

"Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa." São versos de Adélia Prado, retirados do poema "A serenata". Ele narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão, não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?"

Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada, onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões, e a gente sabe como as desilusões devastam, terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?

Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???

Nem ela caríssimos, nem ela.

Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.

Santa, mesmo, só Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (Não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do.)

Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar louca e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra.
Depois dessa, só conhecendo a poesia de Adélia Prado, é maravilhosa.


A SERENATA 

Uma noite de lua pálida e gerânios 
ele viria com boca e mãos incríveis 
tocar flauta no jardim. 
Estou no começo do meu desespero 
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa. 
Eu que rejeito e exprobro 
o que não for natural como sangue e veias 
descubro que estou chorando todo dia, 
os cabelos entristecidos, 
a pele assaltada de indecisão. 
Quando ele vier, porque é certo que vem, 
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? 
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos,
só a mulher entre as coisas envelhece. 
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? 
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado

 

   

Professor do ano nos EUA

 

Fonte : Terra

Professor do ano criou 'paraíso do ensino' em escola americana

Para o melhor professor dos Estados Unidos, inspirar os alunos a valorizar seus pontos fortes é o principal desafio de um educador

Jeff Charbonneau recebeu homenagem do presidente americano Barack Obama na semana passada Foto: AP Jeff Charbonneau recebeu homenagem do presidente americano Barack Obama na semana passada Foto: AP

Aos 35 anos, a vida de Jeff Charbonneau, da Zillah High School, em Washington, mudou completamente em poucos dias. Desde que foi eleito professor do ano nos Estados Unidos, na semana passada, ele já participou de um programa nacional de televisão, foi notícia em diferentes veículos, conheceu Jill Biden - educadora e mulher do vice-presidente americano, Joe Biden -, e conversou com Barack Obama no Salão Oval da Casa Branca. O docente foi recebido pelo presidente durante uma cerimônia no dia 23 de abril. "Minha vida tem sido nada menos do que surreal nos últimos tempos", afirma o educador, que transformou as aulas de ciências em um "paraíso do ensino".

 

O programa The National Teacher of the Year (NTOY) homenageia docentes de escolas públicas dos Estados Unidos desde 1952, e a cada mês de abril o escolhido é reconhecido e apresentado pelo presidente do país. Os candidatos vêm da etapa estadual da premiação, que seleciona professores sob a condição de que sejam dedicados, inspirem estudantes a aprender, tenham o respeito e admiração de alunos, pais e colegas, desempenhem um papel ativo e útil para a comunidade e para a escola e que, sobretudo, sejam articulados. Para Charbonneau, a premiação é um reconhecimento do papel do professor na sociedade. "A educação realmente é a profissão que aponta para o futuro, e programas como este reconhecem e valorizam a importância disso", opina.

 

Saiba Mais

Agora, Charbonneau retorna para a sala de aula para completar o ano escolar. No meio de junho, começam os deveres do professor do ano, e ele vai viajar pelos Estados Unidos e pelo mundo com a missão de compartilhar o conhecimento e as estratégias de ensino que adquiriu em 12 anos de docência. "Além disso, também vou aprender com educadores de diferentes realidades a ser melhor no que faço", complementa. O campeão disputou o prêmio com outros três docentes, entre eles o brasileiro Alexandre Lopes, que dá aulas para a educação infantil.

 

O americano se formou na Zillah High School em 1996 e retornou em 2001 como professor de biologia e ciências gerais. Hoje, leciona química, física, engenharia e arquitetura a turmas da high school (que equivalem ao ensino médio brasileiro) e usa métodos de incentivo e inovação para conquistar os estudantes. "Eu acredito firmemente que não há nada em nossas vidas que não possamos alcançar. Infelizmente, nem todos têm essa crença em si mesmos, e é por isso que eu ensino", afirma, ao destacar que quer garantir que os estudantes percebam seu potencial ilimitado. Para o professor, inspirar é simplesmente reconhecer os pontos fortes de alguém, e por essa razão ele procura sempre o melhor em cada aluno.

 

Paraíso

 

Ao passarem por Charbonneau nos corredores da escola, não é incomum que os alunos o parem para perguntar: "Hoje é outro dia no paraíso, professor?". Os estudantes, mesmo aqueles que não passaram pelas turmas do docente, se referem à frase usada por ele ao receber os alunos diariamente: "sejam bem-vindos ao paraíso". Esse conceito, além de uma boa recepção, virou uma filosofia e um mantra para ele.

 

Eu acredito firmemente que não há nada em nossas vidas que não possamos alcançar. Infelizmente, nem todos têm essa crença em si mesmos, e é por isso que eu ensino

Jeff Charbonneau Professor do ano dos EUA

Charbonneau desenvolve seu "paraíso" por meio de seis estratégias e ideologias para ser um bom professor. A primeira delas – "hoje é o dia mais importante para cada um dos estudantes" - é o que incentiva o americano a ser o melhor que pode constantemente. Para ele, um bom professor deve ser bom todos os dias.

 

A segunda estratégia se baseia no pressuposto de que ótimos professores não admitem fracassos, e o americano se recusa a ouvir as palavras "não consigo" de um estudante. Quando identifica dificuldades, vai a fundo para ajudar na superação. Ele também acredita que um bom professor cria uma cultura de ambição liderada por exemplos - e esse é seu terceiro mandamento.

 

Além disso, para Charbonneau, o docente deve ajudar todos os estudantes, não só os de sua turma e que, conforme indica sua quinta estratégia, bons profissionais devem ser parte da solução. "A instituição em que leciono, como a maior parte das escolas, tem recursos limitados. Em vez de apenas lamentar, eu me empenho em levantar fundos", relata.

 

Por último, ele aponta que ótimos professores auxiliam seus pares a se tornarem melhores - desde 2004, ele participa de cursos de certificação profissional online como membro adjunto do corpo docente da Central Washington University. "Seguindo estas seis estratégias eu ajudei a criar um paraíso de ensino que promove a autoconfiança, o sucesso escolar, a colaboração e a dedicação", afirma.

 

Uma das inovações educacionais que tornaram Charbonneau professor do ano foi fazer com que robôs fizessem parte do aprendizado em sala de aula. Em 2007, ele começou a trabalhar com um grupo de pais voluntários que deram origem ao Zillah Science Boosters (Impulsionadores da Ciência de Zillah, em traduçãoo livre), o que, no ano seguinte, deu início ao Desafio de Robôs de Zillah, competição aberta à participação de diferentes instituições e que ocorre duas vezes por ano. O grupo levantou fundos e conseguiu financiar a compra de cem kits de robôs Boe-Bot.

 

O relacionamento com os alunos vem antes de tudo, o conteúdo é secundário. Para ensinar efetivamente, você precisa compreender suas origens, culturas, habilidades, seus pontos fortes e fracos

Jeff Charbonneau Professor do ano dos EUA

Na carta escrita para indicar Charbonneau ao NTOY, o diretor da Zillah High School, Mike Torres, exalta a iniciativa do professor. “Antes de Jeff, não tínhamos cursos de tecnologia na escola, e os alunos tinham de sair daqui para aprender sobre essa área”, afirma. Orientador da escola, John Griffin também escreveu elogios ao americano. "A instrução entusiasmada, inovadora e tecnológica de Jeff aumentou o interesse pela ciência em nossa escola e na comunidade", comemora.

 

Extraclasse

 

Além de inovar em sala de aula, Charbonneau também dedica parte do tempo a atividades extracurriculares e defende que atuar como orientador ou treinador é essencial para se aproximar dos estudantes. "O relacionamento com os alunos vem antes de tudo, o conteúdo é secundário. Para ensinar efetivamente, você precisa compreender suas origens, culturas, habilidades, seus pontos fortes e fracos", teoriza.

 

Vocação

 

A história, no entanto, poderia ter sido diferente. Ao ingressar na Central Washington University, Charbonneau chegou a pensar em se tornar médico. Durante o segundo ano, no entanto, se tornou voluntário em um programa na Ellensburg High School, no qual atuou como tutor em biologia. "Eu logo fiquei ‘viciado’ em ensinar. Passava mais tempo ansioso para encontrar os estudantes do que para qualquer outra tarefa", conta. Durante o curso na universidade, escolheu mudar de área - e nunca se arrependeu da decisão

 

   

Até hoje brancos e negros comemoravam separadamente suas formaturas nos EU. Incrível !!!

 

 

 brancos e negros em baile de formatura

Casais de brancos e negros entraram juntos para o primeiro baile de formatura sem a segregação racial Foto: Daily Mail / DivulgaçãoCasais de brancos e negros entraram juntos para o primeiro baile de formatura sem a segregação racialFoto: Daily Mail / Divulgação

Pela primeira vez na história de um colégio da Geórgia alunos brancos e negros puderam dançar juntos no baile de formatura, no último sábado. A festa aconteceu quase 60 anos após a Suprema Corte dos Estados Unidos ter decidido pela proibição da segregação racial nas escolas do País. As informações são do Daily Mail.

 

A festa contou com toda a pompa de uma formatura de ensino médio normal americana, com casais chegando juntos em limusines, as meninas usando vestidos longos com babados e muita animação. A única diferença é que os alunos da Wilcox County High School terminaram com a tradição de segregação da comunidade depois de levantar dinheiro para um baile integrado.

 

Durante décadas, o distrito escolar evitou a união das raças, promovendo bailes separados organizados pelos pais. Mas este ano quatro amigos – dois negros e dois brancos – se uniram para acabar com a prática de fazer festas de formatura separadas para brancos e negros. Eles começaram uma campanha no Facebook pelo baile integrado, que rapidamente ganhou mais de 26 mil seguidores.

 

Após o sucesso da festa, o distrito escolar anunciou que a partir do próximo ano o baile de formatura integrado será adotado oficialmente pelas escolas.  A decisão pode representar o fim definitivo de um dos bastiões da segregação racial que ainda perduram nos Estados Unidos Fonte : Terra

 

   

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