A Brasília que não lê

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Reprodução: Correio Braziliense

Por Ailim Cabral

No aniversário de Brasília, dia 21, a Universidade de Brasília completa seis décadas de existência. Ao longo desse período, foram construídos muito conhecimento científico e peculiaridades como um dialeto próprio com gírias e jargões utilizados pelos estudantes

Completando 62 anos, Brasília é uma cidade única. E o caráter extraordinário da cidade traz de presente outras construções e instituições singulares. Uma delas, está prestes a se juntar à capital entre os sexagenários.

No próximo dia 21, a Universidade de Brasília, a famosa UnB, completa 60 anos. Nascida da união das ideias do antropólogo Darcy Ribeiro e do educador Anísio Teixeira, tomou forma física, como o restante da cidade, pelas mãos do arquiteto Oscar Niemeyer.

"Só uma universidade nova, inteiramente planificada, estruturada em bases mais flexíveis, poderá abrir perspectivas de pronta renovação do nosso ensino superior", diz o Plano Orientador, documento que norteia até hoje as estruturas e regras da instituição.

E nessas linhas, já se esconde o que é uma das gírias, ou jargões, mais conhecidos da UnB. O famoso Minhocão ou Instituto Central de Ciências (ICC). O prédio acadêmico mais usado da universidade tem cerca de 700 metros de comprimento e 70 de largura.

A forma comprida e levemente curvada do edifício criado por Niemeyer inspirou alguns dos primeiros ocupantes da universidade a criar a alcunha. O nome se consolidou, atravessou as paredes acadêmicas e hoje é conhecido até mesmo por brasilienses que nunca estudaram na UnB.

O termo é um dos poucos que o calouro de administração Jovenilson Miranda, 21 anos, conhecia antes de entrar na universidade. Um dos poucos lugares que não é conhecido só pela sigla, se tornou o ponto de referência para os novatos.

As siglas, inclusive, são parte importante do dialeto UnBense. Jovenilson ficou perdido quando lhe disseram para ir à BCE buscar um livro. É difícil encontrar um aluno que não chame a Biblioteca Central da UnB dessa maneira.

Siglas

Apesar de difundida e ser referência para os calouros, a palavra Minhocão já não faz parte do vocabulário dos estudantes atuais. "Todo mundo conhece, sabe o que é, mas no dia a dia o ICC ficou mais comum. Acho que por ser mais curto e pelas abreviações serem muito usadas", acredita Eduardo Oliveira Dias, 22.

No sétimo semestre de engenharia civil, Eduardo é o fundador da página UnB Sincera, que tem quase 50 mil seguidores no Instagram, entre eles o perfil oficial da própria universidade. Por lá, ele divide com colegas e professores os memes mais usados.

Antenado na cultura típica da UnB, Eduardo observa que o gosto pelas siglas não fica só nos prédios. O antigo e famoso PDS, o bar Pôr do Sol, na 408 Norte, virou sinônimo de rolê. "Usamos PDS para qualquer festa ou saída pós faculdade. Pode ser na casa de alguém ou em outros bares e restaurantes. HH, que seria o happy hour, também é um dos termos que mais falamos", conta.

Mestre em linguística e professora de graduação no campus da UnB em Planaltina e na pós-graduação no campus Darcy Ribeiro, Rosineide Magalhães de Sousa explica que o vocabulário de um grupo pode dar origem a variantes semântico-lexicais, ou seja, termos e palavras que são usados de uma forma própria, com um significado diferente do literal e do entendimento de pessoas de fora daquele círculo. Na UnB, ela destaca o uso de metáforas no "dialeto" dos estudantes.

"O legal é que os nomes que surgem são associados ao campo afetivo e a práticas sociais, além do humor, que é muito presente nessa linguagem dos estudantes. E pelas interações, esses termos vão se espalhando", diz. A professora destaca as diferenças geracionais, de vivências e até mesmo dos nichos e diferenças que surgem com os novos câmpus pelo DF. Muitas das gírias dos estudantes da década de 1980 já não se aplicam à realidade atual. 

No sexto semestre de ciências contabéis, Jefferson Soares, 22, ri de termos antigos como "digestivo", cigarro de maconha fumado após o almoço, e "morte lenta", comida do RU. Apesar do cardápio ter mudado, ele afirma que muitas refeições ainda se encaixam no nome nada lisonjeiro. Fã das lendas da universidade, repetidas para os calouros todos os anos, destaca o uso sexagenário de Ceubinho, que segue firme e forte, e o mais novo: Udefinho.

Ceolinos

Egressos do curso de geologia, Diniz Tamantini Ribeiro, 61, e Celso Scalambrimi Costa, 60, estudaram na universidade na década de 1980 e eram ceolinos, com muito orgulho. O termo se referia aos alunos que viviam no antigo alojamento estudantil.

O paulista e o mineiro também compartilham a lembrança do "leitão com ovos". A princípio, parece ser um prato antigo do bandejão, mas a expressão tem um aspecto um pouco mais político do que parece. José Leitão de Abreu era chefe da Casa Civil no governo Figueiredo e foi até a universidade, acompanhado de outros militares. Os estudantes protestaram contra a visita e os expulsaram.

"Acertaram um ovo nele durante a manifestação, e no dia seguinte, uma faixa enorme anunciava o suposto novo prato do bandejão, leitão com ovos", ri, Diniz. O C.O. virou Céu, a Casa do Estudante Universitário. O bandejão, onde Celso e Diniz comiam, virou o R.U. e as catacumbas se transformaram no submundo, mas os laços criados pelos "georiátricos", como tantos na universidade, são eternos.

Glossário 

Muitos se perderam, outros são específicos de determinados cursos e poucos atravessam gerações e se consolidam. Confira alguns termos do vocabulário da UnB:

RU: Restaurante Universitário, o antigo Bandejão

Ceubinho: corredor entre as alas Norte e Central. A entrada faz referência ao Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), que fica na 707 Norte.

Udefinho: corredor entre as alas Sul e Central do ICC. A entrada da universidade é associada ao Centro Universitário UDF, na 603 Sul

Iesbinho: novo Módulo de Apoio e Serviços Comunitários (MASC) Honestino Guimarães, em frente ao Minhocão

Tetas de Madonna: apelido do Centro Comunitário, devido à cobertura em lona branca e formato pontudo

Corredor da morte: corredor no subsolo do Minhocão onde ficavam os centros acadêmicos invadidos, como de antropologia

Beco diagonal: Anfiteatro 14, onde alunos escreveram, a parede, palavras referentes ao personagem da literatura e do cinema Harry Potter

Suco de vermelho ou de amarelo: maneira como os alunos identificam a bebida servida no Restaurante Universitário, já que ela não tem sabor

C.U: disciplina comunicação e universidade, a Faculdade de Comunicação

T.P.M: disciplina teoria política moderna

Anal POL: disciplina de análise política

Transminhocão: ônibus fictício que passa no subsolo do ICC transporta os alunos de uma ala para a outra. A lenda é transmitida aos calouros, que repassam a tradição quando se tornam veteranos.

Centro de Orientação (C.O): A sigla do Centro Olímpico, pouco conhecida pelos calouros, é aproveitada para o trote. Os veteranos indicam a área mais distante como um centro de orientação para novos alunos, o que não existe.

Monte Olimpo: Faculdade de Direito, onde os alunos se acham deuses. Essa é antiga, mas ainda sobrevive.

Pica-pau: como os alunos da engenharia florestal são chamados

Frango atropelado: frango mal cortado servido com legumes

Disciplina optatória: vista em nossa matéria publicada em 1982, a expressão ainda é popular. O nome é resultado da mistura entre optativa e obrigatória. De uma lista de matérias opcionais, o aluno é obrigado a escolher algumas.

Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2022/04/5000658-transminhocao-ru-pica-pau-udefinho-conheca-o-jeito-unbense-de-falar.html

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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