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Arte e resistência: Respeita-se cada vez menos a divergência

Érico Nogueira
De Roma

Com mais de uma década de atraso, acabo de ver "A guerra de Canudos" (1997), filme dirigido por Sérgio Rezende. E o filme é mesmo muito bom, e nos dá muito em que pensar.

O episódio de Canudos, imortalizado no clássico Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, é uma pièce de résistance contra a homogeneização, contra a planificação, contra a dissolução dos indivíduos na massa amorfa do Estado. "Nunca antes neste país" (eu já ouvi isso em algum lugar) essa resistência foi tão urgente.

Dizer que tudo, em política, é orquestrado é tão inexato quanto dizer que nada o é. Mas espanta a anestesia, a apatia de nossas instituições diante de um projeto de poder, como o do PT, que no vídeo de abertura do seu 3º congresso (2007) falava abertamente em "colocar o estado a serviço do Partido" (sic), não o contrário.

Num cenário como esse, e com esse processo de sujeição do estado ao Partido em fase já bastante avançada, é natural que no Brasil, hoje, se respeite cada vez menos a divergência, a especificidade, e o caráter inalienável da consciência individual, em nome de uma bruta, e às vezes brutal, submissão à vontade da "maioria". Ainda que essa "maioria", como George Orwell tão bem nos ensinou, não passe, no fundo, da cúpula do Partido.

Os brasileiros pobres melhoraram seu nível de vida? A economia vai que é uma beleza? O índice de aprovação do governo nunca foi tão alto? - Não há como negar, tudo isso são fatos, e contra fatos não há argumento que chegue. Mas é impossível não observar que esses mesmos fatos, invocados pela "maioria" socialista de hoje para intimidar os dissidentes, foram também, num passado não muito longínquo, invocados por outra "maioria" para justificar a ditadura militar. E isso também é um fato.

Como eu disse na coluna anterior, a poesia, em particular, mas também a prosa, as artes plásticas, a música, o cinema, são formas de o indivíduo resistir, como tal, às injunções totalizadoras - e, portanto, totalitárias - de qualquer sistema. Isso porque a arte exige uma autoconsciência radical, que não se bica com coletivismos, populismos ou quaisquer outros "ismos" autoritários. A consciência do brasileiro está hoje cercada, como o arraial de Canudos. Nosso dever é resistir.

 

Érico Nogueira é poeta e tradutor. Ganhou o "Prêmio Governo de MG de Literatura" de 2008 com O livro de Scardanelli. Escreve também no Ars Poetica, blogue de poesia. Atualmente vive em Roma, onde desenvolve pesquisa na área de língua e literatura grega.

Fale com Érico Nogueira: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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