A Brasília que não lê

Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?

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Criada para ser a capital de todos os brasileiros, Brasília se tornou mais do que isso. Ícone e berço de todo o Brasil, no Planalto Central, trouxe na bagagem de tantos candangos o sonho de uma vida melhor

Ainda no projeto idealizado pelo urbanista Lúcio Costa, Brasília, a área que compõe o Plano Piloto, deveria ser capaz de receber pessoas de todas as classes sociais e de todos os cantos do país. O sonho do urbanista, influenciado por ideias de uma sociedade mais igual, que ebuliam com as perspectivas vindas da União Soviética (URSS) - combatida posteriormente pelos Estados Unidos à ditadura militar no país -, e influenciado pelo marxismo não se concretizou. Os mais humildes, mesmo os que vieram para a nova capital ainda na sua construção, foram afastados do grande centro, o que gerou o nascimento das satélites. Isso, porém, não impediu que brasileiros de todas as partes viessem para cá e construíssem a capital mais eclética do Brasil.


"Brasília é uma mistura de brasileiros, com certa predominância das regiões mais próximas como Goiás, Minas Gerais e de razões sociológicas, como do Nordeste. Isso gerou uma cidade com uma série de espécies de amostragens da cultura brasileira", destaca o professor titular de antropologia da Universidade de Brasília (UnB) Gustavo Lins Ribeiro.

O prazer de estar em Brasília é exatamente ter em um só lugar um pedacinho de todos os outros, seja na nordestinidade dos moradores de Ceilândia, maior reduto de nordestinos fora do Nordeste, no modo de viver meio carioca meio paulista do Guará e do Cruzeiro, com costumes de boa vizinhança e rara calma. Ou ainda, no jeitinho de interior de Planaltina, a mais antiga cidade do DF, que fica ao lado de Goiás, nos costumes gaúchos no Centro de Tradições (CTG) do PAD-DF e no misto disso tudo das duas primeiras cidades-satélites do Distrito Federal: a Candagolândia e o Núcleo Bandeirante.


No pouco de tudo que existe na cinquentenária Brasília está o orgulho e os costumes vindos de todas as partes do Brasil. Na feira de Ceilândia, por exemplo, é fácil encontrar aquela buchada de bode, ou para os menos aventureiros um doce de leite com coco e queijo minas. Em outra parte da cidade, mas ainda em uma feira, podemos encontrar o que há de novo na moda nacional. E só chegarmos à Feira do Guará, que também possui frutas de primeira qualidade e aquele pastel com caldo-de-cana.

Herança dos portugueses
Em Planaltina, o destaque fica por conta dos pontos históricos e da via-sacra na Capelinha, herdada dos portugueses e que caminhou do litoral até o interior do país, para se tornar, na primeira cidade a abrigar os candangos, um dos maiores eventos de fé do Brasil.


"Aqui há um pouco da cultura de cada parte, como o CTG, a buchada de bode, a Festa do Divino e os carnavais carioca, pernambucano, com o frevo e o baiano, com o trio-elétrico", numera o professor Gustavo.


Longe ou perto dos dois Eixos, que compõem o "avião" às margens do Paranoá, são esses mesmos candangos, que saíram de suas terras para construir com seus sonhos a fria paisagem de concreto, que se tornaram os brasilienses, da receptividade e do caloroso aperto de mão, com seus filhos e netos, que todos os dias passam pela rodoviária do Plano Piloto e se espalham pelas asas Sul e Norte.


Identidade brasiliense
Segundo o antropólogo, "o que caracteriza a identidade brasiliense é a abertura ao incomum". Por conta do cosmopolitismo da cidade, as diferenças são melhores aceitas, o que diferencia os brasilienses dos demais povos que já têm uma identidade formada pelo tempo. "Em Brasília todo mundo é migrante, por isso não há uma tradição. Um brasiliense da gema", analisa.


As diferenças culturais das Regiões Administrativas (RA) também passam pela forma com que a cidade foi ocupada. Por se considerar que Brasília seria uma sede meramente administrativa, a cidade foi projetada para ser ocupada por servidores públicos, que naquela época moravam no Rio de Janeiro, excluindo teoricamente os operários e as pessoas que sonhavam em morar na capital.


"Taguatinga foi fundada por imigrantes nordestinos, que não tinham condições [de morar na área central], que era ocupada por sevidores públicos vindos do Rio de Janeiro. Hoje Taguatinga é uma cidade em si mesma, com empresários ricos", descreve Gustavo Lins sobre a evolução dos brasilienses.


"A tendência, daqui para frente, é ter um sentido de pertencimento de Brasília, com o passar das gerações de avós, pais e netos nascidos aqui", conclui Gustavo Lins Ribeiro.


Proximidade com o poder corrompeu política local



Há muito tempo Brasília, centro político brasileiro, convive com o estigma de capital da corrupção e não era difícil ouvir piadas afirmando que Brasília só tem ladrão e a réplica: os ladrões veem do seu estado, mas com o aparecimento da Caixa de Pandora, infelizmente, perdemos esse privilégio. "Os muitos políticos corruptos nos tornaram iguais às pessoas dos outros estados", finaliza o professor de antropologia.



E o sotaque?


Para quem é de fora ouvir brasilienses conversando deve soar no mínimo estranho. Tudo isso porque os sotaques de tão misturados criaram outro, difícil de ser identificado até por quem é de Brasília. No meio do papo pode surgir um "uaí" ou um "oxente" e muitas vezes o locutor da frase nunca esteve em Minas ou no Nordeste, pode ser um filho de catarinense, por exemplo.


Segundo a professora da Faculdade de Educação e Linguística da UnB, Stella Bortoni a 2ª e a 3ª gerações não procuram preservar a fala de seus avós, ou seja, os costumes linguísticos. "Em algumas falas a sonoridade pode se assemelhar, mas não dá para se identificar. Eles [brasilienses] não vão incorporar a fala de seus avós", afirma Bordoni.


A professora diz também que pequenas marcas podem variar de pessoa para pessoa, mas que a fala do brasiliense deve avançar, com o tempo, sem marcas das outras regiões.


Outra marca são as gírias, surgidas especialmente na década de 1980, quando Brasília já via seus primeiros filhos crescerem. O clássico bordão: "vamos passear de camelo?" que fazia quem é de fora pensar no animal, e só depois descobrir que ia passear de bicicleta faz parte dessa história. Podem estranhar o raro tipo de música, que vai desde nosso antigo rock progressista, no coração do poder político, nos porões dos apartamentos do Plano Piloto, em meados de 1980, ao samba de roda dos anos 1990 no Cruzeiro, ou da nova MPB que hoje se mistura nos bares de Taguatinga ou ao rap de Ceilândia, criando um novo som todo próprio da cidade.


Brasília é tudo isso. De canto a canto uma mistura de tudo, que faz o tudo ficar original mesmo com um pouco de cada lugar do Brasil.

UnB Agência

 
 



 

 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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