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EUA e Europa, derrotados num jogo de asfixia
Paulo Guedes
PAULO GUEDES
é economista e escreve quinzenalmente em ÉPOCA
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Tenho repetido há bastante tempo a profecia de que o sertão ia virar mar e o mar virar sertão. O leitor percebeu os receios de um calote na dívida pública dos Estados Unidos? Ou os chineses pedindo responsabilidade fiscal aos americanos? Os governos e bancos europeus estariam em risco sistêmico? E a moeda brasileira, que permanece forte mesmo quando parece que o mundo vai acabar? Se você ainda não entendeu, console-se: americanos e europeus estão entendendo menos ainda.

Por seus excessos, eles caíram em um buraco negro, cujo fundo ainda não é possível enxergar. E, como alertava nosso Ariano Suassuna, em volta do buraco tudo é beira: sempre que tentam escapar, escorregam e são tragados de volta.

Irlanda, Portugal, Grécia, Itália e Espanha são apenas alguns dos protagonistas da sucessão de tropeços à beira de um buraco cavado por governos socialistas e social-democratas europeus. Esse buraco foi aprofundado pela farra de crédito que acompanhou a adoção do euro como moeda continental. Houve ali uma formidável confusão nos mercados. A moeda comum não significava que os riscos de crédito dos diversos países eram os mesmos. Mas o que ocorreu então foi um desabamento das taxas de juros e uma convergência dos riscos de crédito sem que houvessem convergido também os fundamentos fiscais. Como se vê agora, a Alemanha é austera e a Grécia perdulária, com riscos de crédito bastante distintos.

Do outro lado do Atlântico, o banco central americano, Federal Reserve (Fed), tornou-se um soprador serial de bolhas. Uma outra sucessão de tropeços, agora à beira do buraco cavado por uma política inconsequente de crédito farto e dinheiro barato. A bolha das ações de empresas de novas tecnologias, as bolhas de crédito bancário e derivativos financeiros, a bolha imobiliária e, agora, a bolha dos títulos da dívida pública.

As incertezas e os riscos são indissociáveis das economias de mercado, mas financistas irresponsáveis extrapolaram todos os limites do razoável em seu grau de endividamento. Mais do que estimulados em sua sanha especulativa, consideravam-se blindados pela cumplicidade do Fed, em suas sucessivas ações de assistência e acomodação.

Ora, uma coisa é a proteção das economias dos pequenos depositantes, que devem ser garantidas pelo seguro de depósitos mantido pelo próprio governo. Outra coisa bem diferente é a tentativa de inflar ativos, que já se estende por mais de uma década, para garantir passivos de instituições financeiras que perderam seu lastro por créditos equivocados ou estouro de bolhas.

A China entra no mercado com poupança, educação e alguns truques para acelerar seu crescimento

As operações de salvamento de instituições financeiras irresponsavelmente alavancadas significam que os contribuintes americanos terão de garantir todo tipo de má aplicação de recursos, socializando perdas e transferindo riscos dos financistas para o governo.

Balançam os alicerces da civilização ocidental por um verdadeiro atentado de políticos e financistas contra seu regime fiduciário, fabricando pirâmides de papéis sem lastro nos mercados e insustentáveis promessas contra seus governos. Enquanto isso, 3,5 bilhões de eurasianos em países em desenvolvimento – e particularmente 1,5 bilhão de chineses – mergulham nos mercados globais, com muita poupança, investimentos em educação e ainda alguns truques macroeconômicos para acelerar seu ritmo de crescimento e sustentar a guerra mundial por empregos.

“Enquanto a tradição ocidental dá valor ao heroísmo e ao choque frontal de forças, a estratégia chinesa dá ênfase à paciência, à sutileza e ao acúmulo persistente de pequenas vantagens”, registra Henry Kissinger em On China (2011). “As diferenças se traduzem nos jogos intelectuais de cada civilização. O xadrez ocidental busca o xeque-mate, lance decisivo em que o rei não se move sem ser destruído. O ‘wei qi’ dos chineses (o ‘go’ dos japoneses) é um jogo de cerco e asfixia gradual em uma longa campanha em que se evitam os conflitos diretos e se buscam a ocupação de espaços vazios e a vantagem psicológica e estratégica sobre o adversário. Clausewitz contra Sun Tzu.”




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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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