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Fonte: Correio Braziliense13/11/2011
Jaime Pinsky



Paulista de Sorocaba, filho de imigrantes, desde muito cedo convivi com livros: toda noite, antes de dormir meus pais liam para mim e para minha irmã, Cecília. Era algo muito afetivo, mas sem condescendência: a leitura era feita em iídiche, essa língua sonora e complexa, com palavras emprestadas do alemão medieval, do polonês e do hebraico, mas com sonoridade e vida próprias. Originária da Alemanha, levada por imigrantes judeus para a Polônia, ainda na Idade Média, a língua foi adquirindo personalidade própria durante os sete séculos decorridos entre sua viagem inicial e a destruição da civilização do judaísmo europeu pelos nazistas.

Mas para mim a língua ainda estava muito viva: Contos e romances de Isaac Bashevis Singer (que viria a receber o Nobel de literatura pelos seus escritos), pequenas histórias de Sholem Aleichem (“Violinista no telhado”, o musical, foi baseado em um texto seu), e tantos outros povoavam nossa imaginação; o “shtetl” (a pequena cidade, com forte presença judaica, na Europa) e seus personagens (o alfaiate, o cocheiro, o rabino, o leiteiro) pareciam viver conosco na Sorocaba de então.

Coexistiam pacificamente, aos meus olhos, uma língua culta, essa dos livros dos meus pais e uma vulgar, a que eu falava com meus amigos de rua do bairro do Além Linha, pertinho das oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana. Enquanto meu amigo Neu (estranhei quando descobri que era um diminutivo de Irineu. Neu era Neu, oras) caprichava no “nóis vai, nóis fica”, nos erres moles, no descompromisso com as concordâncias, eu ouvia meus pais preocupados em pronunciar o iídiche “culto, lituano”, evitando trocar os ós por ús (família deveria se pronunciar mishpoche e não mishpuche) os ús por ís (inteligente era klug e não klig). Eles abominavam aquilo que chamavam de iídiche vulgar.

Mas minha iniciação literária não havia terminado. Na verdade, ela mal havia começado. A loja do meu pai, em prédio alugado à Sociedade Beneficente 25 de julho, tinha uma porta que a ligava a uma biblioteca de propriedade da instituição locadora e estava desativada. Livros e mais livros jaziam, silentes, nas prateleiras, sem esperança de serem manuseados, quanto mais lidos. Minha irmã, dois anos mais velha (eu tinha cinco anos) já estava na escola e era louca por livros. Nunca tirou um deles do recinto, mas se instalava lá, por horas, para ler com calma. Eu a acompanhava e exigia que ela lesse em voz alta as histórias de fadas e de dragões, de aventuras medievais e cavaleiros destemidos. Ela se sentava em um banquinho e eu, feito papagaio de pirata, ficava atrás, de pé, acompanhando a leitura, linha por linha. Às vezes pedia para ela repetir a frase, para que eu pudesse fixar as letras e as palavras, o que nem sempre ela fazia com boa vontade. Quando me dei conta, estava lendo sozinho. Ia buscar na banca “da linha”, ao lado da porteira da via férrea, o jornal “A Gazeta”, que meu tio (que morava conosco) comprava diariamente. Voltava com o jornal aberto, lendo notícias, algumas das quais me lembro até hoje.

Quando, alguns meses depois, fui colocado na escola de cartõezinhos com “nenê, asa, bola, cesta, coração”, que devíamos colocar numa cartela com as mesmas palavras escritas com a letra caprichada da professora não passavam de brincadeira de criança para mim: eu já estava irremediavelmente alfabetizado e irreversivelmente louco por livros. Passei a fazer minhas próprias incursões à biblioteca da “25 de julho”, discutia as histórias com minha irmã, que até parou de me chamar de “bebê”, ao menos por um tempo (quando adolescentes, ela quase mulher com 14 anos, eu uma criança de 12, o apelido voltou).

Dona Zizi nos corrigia com enérgica suavidade. Não deveríamos, insistia ela, dizer “nóis vai, nóis fica” e sim “nós vamos e nós ficamos”. Intrigado, fiquei dividido entre a lealdade que devia ao Neu, ao Zezé e a todos da turma, de um lado, e a posição da professora.

Perguntei à minha mãe como devia lidar com o assunto, já que a molecada achava estranha aquela língua que agora eu aprendia na escola e nos livros. Dona Luiza foi breve e clara: “aprenda o que te ensinam na escola, para você ser alguém; mas fale a língua dos seus amigos, para você não perdê-los”.

Tenho a sensação de que Dona Luiza, minha mãe, foi a verdadeira criadora da sociolinguística...

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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