A Brasília que não lê

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Novamente é janeiro. Embora tenhamos verão o ano todo, a publicidade no Brasil cria uma grande expectativa sobre os meses de verão no calendário. Com isso se  vendem muita cerveja, muita passagem aérea para o Nordeste, muita roupa da estação.
Não fico imune a essa excitação sobre o verão, mas tenho de reconhecer que me entristeço quando penso que  janeiro tem sido o mês dos maiores desastres naturais em nosso país. Mesmo correndo o risco de chover no molhado ( desculpem-me o trocadilho rasteiro), quero hoje falar sobre essas calamidades que, entra ano, sai ano, tiram a vida de muitos brasileiros.
Enquanto escrevo, o som em background da TV insiste em contabilizar o número de vítimas nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, que neste ano foram os mais atingidos pelas chuvas.
No ano passado, o país todo assistiu à destruição de cidades serranas fluminenses. Em anos recentes, as maiores tragédias tinham  sido em Angra dos Reis, onde uma pousada ficou totalmente arrasada, e um Niterói, no Morro do Bumba, que veio abaixo destruindo casas e causando muitas mortes.
Esse morro era de fato um enorme depósito de lixo, que se foi acumulando e crescendo. Não tardou que famílias pobres construíssem casas no seu cume e nas encostas.
Em Angra dos Reis, as edificações destruídas pela chuva eram construções sólidas, ao sopé dos morros. Em Petrópolis e Nova Friburgo, bairros inteiros de classe média foram reduzidos a lama, a Serra do Mar se esboroando sobre as casas, ruas e carros.
Na ocasião, um vizinho que é carioca recolheu donativos no nosso conjunto. Doei um salário mínimo, na esperança de que esse dinheiro trouxesse algum alívio às vítimas da catástrofe.  No entanto, a imprensa vem divulgando agora que todo o dinheiro arrecadado não se transformou efetivamente em novas habitações para quem ficou sem um teto. Aonde foi parar?
Em 2011, quando houve o terremoto seguido de tsunâmi no Japão, o mundo todo se solidarizou e enviou donativos àquele país. Mais recentemente, as autoridades japonesas devolveram à UNESCO e à Cruz Vermelha parte dos recursos que não  tinham sido utilizadas.
Os japoneses são assim: operosos e  honestos, tão diferentes de nós! Naquele arquipélago,  cujo solo é muito sujeito a tremores, eles desenvolveram um sistema preventivo eficiente. Nem sempre esse sistema os protege totalmente, mas imaginem como seria pior se  aquele povo  não  tivesse uma cultura de prevenção e socorro nas calamidades.
 Por que nós, brasileiros, continuamos desprovidos de uma política de  prevenção de desastres naturais e de  orientação e   assistência às vítimas das tempestades no início do verão? Nem se pode dizer que a Natureza por aqui durma  em berço esplêndido, já que  estamos livres de vulcões , terremotos e tornados. Felizmente não os temos por aqui, mas temos as enchentes e os deslizamentos dos morros. Não podemos culpar a Natureza por eles. As nossas catástrofes anuais são fruto da urbanização desordenada e do descaso dos governos.
Em 1950, o percentual de população urbana no Brasil era de 36,16 %. Em 2000, 81,20 % dos brasileiros já viviam em áreas urbanas. Os dados são do IBGE.
A maior parte desse contingente que migrou do campo para a cidade é constituída de cidadãos pobres e sem qualificação profissional. Ao contrário do que ocorreu nos países industrializados, onde a urbanização foi precedida da industrialização, aqui no Brasil a industrialização foi tardia e não se implantou em todo o país, somente em algumas regiões. Não há uma correlação entre industrialização e urbanização, com exceção talvez de São Paulo.
O fluxo campo-cidade do século XX não se restringiu às áreas industrializadas, tampouco. Os brasileiros foram deixando seu ambiente rural e demandando as cidades, principalmente a partir da década de 1940.  Nessas áreas a ocupação foi desordenada; construíram-se casas nas bacias dos rios, que eram desviados, em mangues, nas encostas dos morros. Das duas uma, ou não havia posturas municipais definindo as áreas adequadas para erguer casas, ou essas posturas não foram respeitadas e não houve fiscalização.
O fato é que entramos no terceiro milênio com as cidades muito inchadas e com muita ocupação irregular. Para tornar o cenário mais suscetível a tragédias, temos muitas maciços e morros em grande parte do território nacional, cuja cobertura  porosa  desliza facilmente quando muito encharcada. E não falta chuva ao Brasil. Existe uma tal de Zona de Convergência que transfere para o Sul e Sudeste a umidade da Amazônia.
Tudo isso já está bem estudado e monitorado por satélites e outras tecnologias de ponta. Todos sabem que os chamados meses de verão são chuvosos, embora nesse tempo também haja seca no extremo sul.
Para que serve a sofisticada tecnologia de previsão do tempo se as informações geradas caem  num limbo de indiferença e irresponsabilidade?
Nos países frios do Hemisfério Norte as nevascas são monitoradas e as  comunidades rurais ou urbanas se preparam para conviver com elas todos os invernos. Nem todo o dano que causam pode ser  evitado, mas há uma preocupação muito grande em preservar vidas humanas.
Por que não somos assim? Por que não temos políticas preventivas? A sabedoria popular diz que mais vale  prevenir que remediar. Mas não somos previdentes, não somos cuidadosos e quando chega o dilúvio, nada mais há a fazer do que contar os mortos. Aí os governos, em todos os níveis, se propõem pressurosos a acudir, a destinar verbas para a reconstrução. Mas para muitos já é tarde.
 Será que nunca vamos aprender? Será que a vida de um brasileiro vale menos do que a de um norte-americano ou europeu?
Lembro-me de quando a Via Dutra tinha uma única pista. Com frequência caíam barreiras e a estrada fica interditada. Por este Brasil afora, durante o meses  de chuva, os caminhos se fecham, as comunidades ficam isoladas.
Vemos tudo isso _ nós população _ e os governos  com um ar apatetado e uma resignação bovina. Até quando? Nas próximas eleições para presidente, governadores e prefeitos, é imperioso que os candidatos apresentem projetos de prevenção de calamidades. E que, depois de eleitos, os ponham em prática.

Stella Maris Bortoni-Ricardo (janeiro de 2012)

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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