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Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz que quando passa o cometa de Halley ela nem olha mais. Mas continua ativa à frente do seu grupo de debate e pressão, as Socialaites Socialistas, que pregam a implantação no Brasil do socialismo no seu último estágio, que é a volta ao tzarismo.

Elas, inclusive, já descobriram um descendente dos Romanovs que é garçom no Méier e diz que topa ser tzar se puder contar tempo para o INPS. Com a proximidade do carnaval, Dorinha tem se reunido quase que diariamente com o Pitanguy para planejarem sua repaginação, ou o corpo com que desfilará na avenida este ano. “Ainda estamos na fase dos esboços e cálculos estruturais”, conta Dorinha, que...

Mas que ela mesma nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinha púrpura em papel grená e cheirando a “Mange Moi”, o único perfume do mundo que já foi objeto de uma encíclica papal.

“Caríssimo! Beijos centrifugais. Sim, estaremos na avenida, eu e meu grupo. Só não sairei no carnaval quando estiver morta, e assim mesmo terão que sentar no meu túmulo. Este ano tomaremos especial cuidado com nossas próteses mamárias e glúteas, depois que no ano passado as duas nádegas da Julia (“Ju”) Bileu explodiram, uma atrás da outra, ainda na concentração, atrapalhando a marcação. E eu mereço me descontrair neste carnaval. Minha vida econômico/sentimental em 2011 foi estressante. Quel des frustraciones!

Depois de me separar do meu marido mais recente, cujo nome me escapa no momento, decidi me dedicar ao primeiro escalão do governo, onde circula o dinheiro de verdade. Meu objetivo era um ministro da Dilma. Com um pé — para não citar outras partes da minha anatomia — num ministério da República, eu estaria feita, pelo menos até o fim do mandato dele. Mas os ministros não paravam no lugar. Era eu mirar um ministro e a Dilma o botava na rua.

A instabilidade institucional derrotou meus planos de independência financeira e, quem sabe (meu lado Evita), teria alguma influência nos destinos da nação. Não consegui ser amante ou sequer auxiliar de gabinete de nenhum deles, nem por dez minutos.

Estou, por assim dizer, de volta à planície, caçando animais menores. E à espera que o próximo ministério da Dilma seja mais estável. Por mim, Dilma!

Da tua suspirosa Dorinha

 Fonte: Blog do Noblat

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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