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Por Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto.

 

O que fez com que o homem se tornasse o rei dos animais? Para os religiosos em geral foi por decisão divina. Deus construiu o Universo todo, e criou o homem para coroar sua obra. Já um antigo professor alegava que nossa hegemonia planetária devia-se à nossa capacidade de atuar socialmente (como se tantos outros animais não o fizessem). Alguns economistas ainda acreditam que somos superiores porque produzimos de forma organizada (e as abelhas, meu caro, não são mais organizadas do que a maioria das nossas empresas?). Para não continuar expondo hipóteses em que não acredito vou logo apresentando a minha: Acredito que o que diferencia mesmo o ser humano dos demais seres sobre o Planeta é o simples fato de sermos os únicos capazes de produzir, armazenar e consumir cultura, seja ela material, seja ela imaterial.

 

O livro tem sido, qualquer que seja o material e o formato com que se apresenta, o objeto por excelência em que essa cultura vem sendo depositada. Um pensamento, uma equação, um invento, uma narrativa, um sonho e até um delírio eram registrados em livro. Na gruta de Lascaux, na França, podemos ver verdadeiras formas primitivas de histórias em quadrinho. E, graças à revolução de Gutenberg, desde o Renascimento, cinco séculos atrás, o livro impresso em papel guarda e revela o estado atual do patrimônio cultural da humanidade.

 

Alguns especialistas temem que novos formatos em que os livros começam a ser apresentados alterem capacidades intelectivas desenvolvidas pelo ser humano desde há vários séculos. Para outros, o problema maior não seria a superficialidade relativa dos livros de hoje comparados com os de antigamente, mas a incapacidade que as novas gerações têm para se concentrar o suficiente em um único objeto (um livro inteiro). Temem que à mente pluri estimulada falte verticalidade: as novas gerações seriam incapazes de, simplesmente, ler um livro inteiro. E, na hipótese de o fazerem, de absorver o conteúdo do livro.

 

Ao mesmo tempo em que os homens se fazem mais superficiais, as máquinas – que eles próprios constroem – se tornam cada vez mais inteligentes. Uma simples projeção em gráfico sobre o aprofundamento da inteligência cibernética, de um lado, e, por outro lado, a superficialidade cada vez maior de nossa capacidade intelectiva levaria a uma conclusão catastrófica sobre nosso futuro como rei dos animais.

 

Sintomas desse processo são evidentes. Hoje já não conhecemos sequer a tabuada! Ao usar e abusar da calculadora, vamos perdendo noções de grandeza. A substituição de noções de localização pelo GPS, antes, e agora pelo Waze facilitou tanto a nossa vida que estamos perdendo nossa antiga capacidade de nos situarmos no espaço, algo que tem sido útil ao ser humano desde os tempos em que vivíamos como caçadores-coletores. Logo, logo vamos encontrar grupos indígenas em plena floresta amazônica com Waze na mão… E, por mais que a informação seja chocante, somos a última geração de motoristas. Em alguns anos, dez no máximo, frequentaremos veículos autônomos (sim, sem motorista) com tração elétrica. E, se for como espero, até a buzina será eliminada dos automóveis.

 

Mas, como diz Everett, em seu livro Linguagem, a maior invenção da humanidade, a buzina não é uma linguagem, embora seja uma forma de comunicação. E, por mais que tenhamos vontade de atribuir a alguns animais características e raciocínio de humanos, isso não acontece. Por mais que uma formiga, ou uma abelha saibam dar recados a suas semelhantes, eles se resumem a informações sobre uma flor, ou um grão de cereal, não sobre sentimentos e emoções. Por mais que uma mãe foca ou chimpanzé sinta a morte de um filho, nenhuma saberia responder a uma pergunta sobre quais os planos para o dia seguinte. A linguagem é um atributo do ser humano, daí sua capacidade – e nisso ele é único – de registrar aquilo que se tornará o patrimônio cultural da humanidade, e não da bicharada. Que tal continuar a fazer isso no livro?

 

Sinto informar a quem ainda não se deu conta, mas cães não escrevem, gatos não leem, macacos não fazem poesias, golfinhos não resolvem equações de segundo grau (nem de primeiro). Foram milhares e milhares de anos para os homens desenvolverem a linguagem. O patrimônio cultural construído por nós com esse instrumento é único, impossível de descolar do ser humano, e só dele.

 

Não temos porque nos envergonhar de nossas conquistas. Temos mais é que preservá-las. E este é o desafio da nossa geração.

 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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