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Maria Inês Fini, ex-presidente do Inep: o Enem precisa mudar
O exame atual é um amontoado de conteúdos que não mede se o aluno é capaz de sair do campo da memorização, juntar peças e chegar à solução de problemas
Nenhuma política educacional mobiliza tanto a sociedade brasileira quanto o
O Enem passou por várias fases e acabou sendo beneficiado pela consolidação de uma cultura de avaliação do ensino no Brasil da década de 90 para cá. Até 2008, não funcionava como um passaporte de ingresso à universidade. Seu propósito era medir se o aprendizado de cada estudante condizia com as expectativas traçadas pela Lei de Diretrizes e Bases, um parâmetro para as escolas. O exame valia-se de uma concepção mais abrangente de aprendizagem, já discutida por muitos países nos anos 1980. Testava o desenvolvimento das estruturas de pensamento que permitiam a assimilação dos tradicionais conteúdos escolares de forma ampla. Na prática, eram 63 questões que giravam em torno de situações-problema interdisciplinares e devidamente contextualizadas. Abordavam temas científicos, artísticos e filosóficos.
A prova passa então a cobrar um acumulado de conteúdos. Antes, eram testadas 21 habilidades, em torno das quais se organizavam as 63 questões da prova. Elas deram lugar a quatro conjuntos de trinta habilidades — ao todo 120, portanto. E o exame se agigantou: ficou com 180 questões em cada uma das quatro áreas de conhecimento. Para perplexidade de muitos teóricos, à vasta lista de habilidades — já suficientemente imensa — foi acrescida uma relação de conteúdos. Era o retorno a uma prova mais tradicional, que demanda memorização de soluções para problemas conhecidos — uma volta atrás. Aquilo de que os jovens precisam é conseguir juntar peças de distintas disciplinas à base de raciocínio lógico para equacionar questões às quais nunca foram apresentados. É isso que o mundo do trabalho busca hoje, globalmente.
Essa é a concepção de uma educação integral. E o Enem de hoje está ainda distante dela. Ele precisa ser repaginado para testar as habilidades de um estudante formado em outro tipo de escola. O que está previsto por lei para o ensino médio, esse mesmo que espanta tantos estudantes dos bancos escolares, é um modelo afinado com o que há de mais bem-sucedido no mundo — um sistema que permita a jovens de diferentes interesses, ambições e disponibilidades escolher entre vários itinerários dentro da escola. Os alunos terão uma base comum — 1 800 horas de currículo igual para todos. A partir daí, o estudante que preferir investir em uma formação mais técnica terá essa oportunidade, assim como aquele que quiser seguir uma abordagem mais acadêmica também encontrará uma alternativa. Há ainda os que se identificam com a área de humanas e outros com predileção pelas ciências exatas — cada qual poderá despender mais tempo naquilo que o seduz intelectualmente. Com a nova escola desenhada — e a implementação dela será gradual em estados e municípios —, está riscado o futuro para o Enem, que terá de se modificar para medir outra natureza de conhecimento. Os desafios e prazos estão estabelecidos para este novo ensino médio. As parcerias comprometidas. É a favor do exame (e não contra ele) que a sociedade precisa se movimentar para inová-lo e manter seu papel na democratização do acesso ao ensino superior. Não custa lembrar que o Enem pede um olhar técnico, que o faça fincar os pés na modernidade, e não ideológico. Não podemos perder a chance de alçar este voo rumo ao século XXI.
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