A Brasília que não lê

Quem são esses brasileiros analfabetos residentes no DF?

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A facilidade de enviar mensagens e dar palpites sobre todos os assuntos, graças às redes sociais à disposição de (quase) todos, provocou mudanças no comportamento de pessoas no mundo inteiro, particularmente no povo brasileiro, amante de conversas, sequioso por notícias. Se o Brasil nunca chegou a ser, propriamente, um país de leitores, pelo menos se tornou um país de escritores... Ou, pelo menos, de gente que escreve. Brasileiros continuam apresentando  índice de leitura muito baixo.  Mas como escrevemos!


A questão é o que e como se escreve.  Afinal, o que se faz quando se quer dar uma notícia, contar algo novo, mas não se tem nada na mão? O que se faz quando se discute em nosso grupo a respeito de um assunto sobre o qual a gente não entende nada? Muito simples: a gente inventa notícias. A gente finge que sabe do que se está falando. Muita gente tem confundido o direito à livre manifestação com ter competência para isso. O resultado tem sido uma enxurrada de bobagens emitidas sem o menor cuidado. Antigamente se aconselhava a pensar antes de falar. Hoje se escreve e depois se pensa. Ou não se pensa, uma vez que o escrito já circulou e ficamos reféns de afirmações impensadas, de arroubos autoritários, de compromissos com texto produzidos em anexos de gabinetes palacianos.  Em bom português, muitos perderam o medo de dizer bobagens em público e o fazem de forma despudorada. Há mesmo aqueles que acham que usar o mesmo veículo utilizado por especialistas, ou por pessoas de bom discernimento, garante a todos a mesma credibilidade. Não garante. Bobagem é e continuará sendo bobagem em qualquer lugar, seja sussurrada timidamente entre quatro paredes, seja emitida com o selo de um ministério que já teve credibilidade, em tempos melhores...

Diga-se de passagem, bobagens não têm preconceito: podem ser emitidas por aquele cunhado fanfarrão, pela tia recatada e carola, pelo senhor engravatado  e sisudo, ou pela garota de óculos, com cara de intelectual.  Ninguém está livre de publicar idiotices, basta reproduzir, sem checar a fonte, uma notícia falsa; divulgar narrativas grotescas sobre a origem de epidemias; desenvolver teorias grosseiramente anticientíficas; decretar unilateralmente o fim de uma pandemia que continua derrubando milhares de pessoas a cada dia; postar um texto idiota e atribuir a Clarice Lispector (bem ela, coitada, tão cuidadosa), ou Fernando Pessoa...

É triste constatar, mas besteiras podem vir de familiares próximos. Na verdade, elas não respeitam idade (jovens e velhos podem ser igualmente ridículos), título acadêmico ( é triste, mas é realidade constatada), ou a patente militar (da ativa e na reserva, particularmente quando se metem a gerir áreas que desconhecem). Qual o leitor que já não sofreu constrangimento por acreditar em informações que “pareciam” verdadeiras, ou em se referir a experiências que nunca foram realizadas? Claro que o problema não é das redes sociais, mas do uso que se faz delas. Se as pessoas lessem um pouco mais (imprensa de qualidade e livros, principalmente) muita bobagem deixaria de circular e a idiotia poderia voltar à sua modéstia habitual, de onde nunca deveria ter saído.  Afinal, como já diziam os antigos, o ignorante calado pode até passar por sábio...

Meu leitor apressado, que não gosta de argumentos e sim de opiniões definitivas perguntaria agora: afinal, não é democrático que as pessoas se manifestem sobre o que quiserem, do jeito que quiserem? A resposta demagógica seria um sim genérico. Mas é claro que não se pode misturar o direito da escolha com a competência para fazê-lo. Eu não posso, nem devo palpitar sobre assuntos que não conheço. Seria, no mínimo, inócuo. A sociedade moderna é complexa, especializada, as pessoas só dão conta de sua área e não é vergonhoso (pelo contrário, é aconselhável) ouvir quem conhece a respeito de assuntos que não conhecemos. Dependendo do cargo que ocupamos, nossos palpites podem ter efeitos altamente negativos sobre a saúde da população. Comprar um produto ineficaz (a cloroquina, por exemplo) é gastar, de modo irresponsável, o dinheiro público e induzir a população a utilizar remédio que pode até fazer mal. Redes sociais viralizam a irresponsabilidade.  Irresponsabilidade em funções executivas é inaceitável. Não se trata mais apenas da uma tia Cotinha qualquer transcrevendo bobagens na rede, mas de pessoas que, por conta do cargo que ocupam, deveriam sentir-se responsáveis pelos poucos que ainda acreditam neles.


Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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