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Mais de 60% das escolas públicas e particulares no Brasil se identificam como adeptas do construtivismo. Sendo assim, parece óbvio que seis de cada dez crianças brasileiras estão sendo educadas com base em uma doutrina didática cuja natureza, objetivos e lógica devem ser de amplo conhecimento de diretores, professores e pais. Correto? Errado. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) desvenda um cenário obscuro. Em plena era da internet, os conceitos do construtivismo parecem ter chegado ao Brasil via as ondas curtas de 49 metros de propagação troposférica, com suas falhas e chiados. Ninguém sabe ao certo como o construtivismo funciona, muito menos saberia listar as razões pelas quais ele foi adotado ou deve ser defendido. Ele é definido erradamente como um método de ensino. O construtivismo não é um método. É uma teoria sobre o aprendizado infantil posta de pé nos anos 20 do século passado pelo psicólogo suíço Jean Piaget. A teoria do suíço deu credibilidade à concepção segundo a qual a construção do conhecimento pelas crianças é um processo diretamente relacionado à sua experiência no mundo real. Ponto. A aplicação prática feita nas escolas brasileiras tem apenas o mesmo nome da teoria de Piaget. O construtivismo tornou-se uma interpretação livre de um conceito originalmente racional e coerente. Ele adquiriu várias facetas no Brasil. Unifica-as o primado da realidade da criança sobre os conceitos básicos das disciplinas tradicionais. Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.

A experiência mostra que as interpretações livres do construtivismo podem ser desastrosas – especialmente quando a escola adota suas versões mais radicais. Nelas, as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas. Por preguiça ou desconhecimento, essas abordagens radicais da teoria de Piaget são a negação de tudo o que trouxe a humanidade ao atual estágio de desenvolvimento tecnológico, científico e médico. Sua ampla aceitação no passado teria impedido a maioria das descobertas científicas, como a assepsia, a anestesia, as grandes cirurgias ou o voo do mais pesado que o ar. Sir Isaac Newton (1643-1727), que escreveu as equações das leis naturais, dizia que suas conquistas só haviam sido possíveis porque ele enxergava o mundo do ombro dos gigantes que o precederam. O conhecimento que nos trouxe até aqui é cumulativo, meritocrático, metódico, organizado em currículos que fornecem um mapa e um plano de voo para o jovem aprendiz. Jogar a responsabilidade de como aprender sobre os ombros do aprendiz não é estúpido. É cruel.

Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação dos professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória. A origem latina da palavra professor deveria ser um guia para todo o processo de aprendizado. O professor é alguém que professa, proclama, atesta e transmite o conhecimento adquirido por ele em uma arte ou ciência. Nada mais longe da realidade brasileira, em que menos da metade dos professores é formada nas disciplinas que ensina. À luz das versões tropicais do construtivismo, essa deficiência é até uma vantagem, pois, afinal, cabe aos próprios alunos definir com base em sua realidade o que querem aprender. É claro que um modelo assim já seria difícil funcionar em uma sala de aula ideal, com um mestre iluminado cercado de poucos e brilhantes pupilos. Nas salas de aula da realidade brasileira, é impossível que essa abordagem leniente dê certo. Adverte o doutor em psicologia Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo (USP): As aulas construtivistas frequentemente caem no vazio e privam o aluno de conteúdos relevantes.

Um conjunto de pesquisas internacionais chama atenção para o fato de que, em certas disciplinas do ensino básico, o construtivismo pode ser ainda mais danoso – especialmente na fase de alfabetização. Enquanto na pedagogia tradicional (a do bê-á-bá) as crianças são apresentadas às letras do alfabeto e aos seus sons, depois vão formando sílabas até chegar às palavras, os construtivistas suprimem os fonemas e já mostram ao aluno a palavra pronta, sempre associada a uma imagem (veja o quadro). A ideia é que, ao ser exposto repetidamente àquela grafia que se refere a um objeto conhecido, ele acabe por assimilá-la, como que por osmose. De acordo com a mais completa compilação de estudos já feita sobre o tema, consolidada pelo departamento de educação americano, os estudantes submetidos a esse método de alfabetização têm se saído pior do que os que são ensinados pelo sistema tradicional. Foi com base em tal constatação que a Inglaterra, a França e os Estados Unidos abandonaram de vez o construtivismo nessa etapa. O departamento de educação americano também o contraindicou para o ensino da matemática – isso depois de uma sucessão de maus indicadores na sala de aula.

O construtivismo ganhou força na pedagogia durante a década de 70, época em que textos de Piaget e de alguns de seus seguidores, como o psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), vários dos quais traduzidos para o inglês, foram descobertos nas universidades americanas. Foi a partir daí que a corrente se disseminou por escolas dos Estados Unidos e da Europa. No Brasil, virou moda. Uma década mais tarde, porém, tal corrente começaria a ser gradativamente abandonada nos países que a adotaram pioneiramente. Os responsáveis pelo sistema educacional daqueles países chegaram a uma mesma conclusão: a de que a adoção de uma filosofia que não se traduzia em um método claro de ensino deixava os professores perdidos, deteriorando o desempenho dos alunos. Hoje, são poucos os países ainda entusiastas do construtivismo. Entre eles estão todos os de pior desempenho nas avaliações internacionais de educação. Com seis de cada dez crianças brasileiras entregues a escolas que se dizem adeptas do construtivismo, é de exigir que diretores, professores, pais e autoridades de educação entendam como se atolaram nesse pântano e tenham um plano de como sair dele.

 

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> Estado de Minas, 04052010 - Belo Horizonte MG

*Idiomas na ponta da língua*
Este ano, o Enem traz prova de espanhol ou inglês. Se você não tem
conhecimento, comece a correr atrás. Se já domina, não deixe para rever
depois. Inclua exercícios regulares na planilha de estudos
Glória Tupinambás ¿Hablas español? ou Do you speak english? A partir de
agora, não vale mais “embromación” nem “enrolation”. Línguas estrangeiras
passam a ser decisivas para estudantes que vão participar, este ano, do
Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). *A novidade promete mudar a rotina de
estudo dos 6 milhões de candidatos *que devem fazer o teste marcado para os
dias 6 e 7 de novembro e que, pela primeira vez desde a sua criação, em
1998, vai exigir conhecimentos de outro idioma. O D percorreu salas de aula
em busca de professores e alunos para comentar a mudança nas exigências do
Enem e reúne aqui dicas para quem sonha em se dar bem na prova e depoimentos
daqueles que temem pela cobrança e dos que dominam várias línguas e
acreditam ser capazes de tirar o teste de letra.

A inclusão da língua estrangeira no Enem estava prevista desde o ano
passado, quando o Ministério da Educação (MEC) divulgou a matriz de
referência dos conteúdos para o teste. Mas, na última sexta-feira, o
ministro Fernando Haddad confirmou, como noticiou o Estado de Minas, quais
idiomas serão cobrados – inglês e espanhol – e outros detalhes do exame,
como a possibilidade de o candidato optar por apenas um dos idiomas na hora
da prova e o fato de as questões estarem integradas à prova de linguagens e
códigos do Enem. Na avaliação de especialistas em idiomas, *a tendência é de
que o foco da cobrança do Enem seja a interpretação de textos e não a
gramática pura e simples*. “As questões devem testar o conhecimento dos
alunos dentro de um contexto. Acreditamos que devem ser cobrados coesão
textual, ou seja, a gramática aplicada ao texto, e muitos falsos cognatos,
que são palavras semelhantes em duas línguas, mas de significados totalmente
diferentes”, explica a professora de espanhol do Colégio Bernoulli, Magali
de la Flor. Segundo a educadora, a melhor forma de se preparar para os
testes do Enem é investindo na leitura. “O ideal é acessar a internet e
buscar textos de jornais e revistas em inglês e espanhol. Esse contato com
os idiomas é fundamental para treinar a leitura e a interpretação”,
acrescenta ela.

RISCOS A inclusão das línguas estrangeiras no Enem 2010 foi recebida de
maneira bem distinta pelos candidatos.* Alguns estão de cabelo em pé com a
novidade, temendo cobranças excessivas já que não tiveram a chance de
frequentar cursos de idiomas e experimentaram o primeiro contato com as
línguas apenas no colégio*. E outros, com vários certificados internacionais
na gaveta e conhecimentos acumulados em intercâmbios, comemoram o inglês e o
espanhol como favas contadas no exame. Realidades tão distintas acendem o
sinal de alerta para *o risco de se criarem regras pouco democráticas e
excludentes do ponto de vista social. *

“Meu maior receio não é a dificuldade das provas, e sim a boa preparação dos
demais concorrentes”, afirma Allan Michael Omena, de 18 anos. Candidato a
uma vaga em medicina, ele diz que vai optar pelo espanhol por causa das
semelhanças com o português.* “Nunca fiz cursos de idiomas, porque são
caros, e o inglês que aprendi só no colégio é um pouco fraco.* Por isso, vou
escolher o espanhol, que dá para tentar decifrar no bom e velho
‘portunhol’”, brinca. Os medos de Allan são parecidos com os de
Mateus Gomes,
de 21, que também não aprovou a novidade. “A mudança vai complicar nossa
vida. Não sabemos qual será o nível de cobrança e isso nos deixa inseguros.”


*A estudante Ingrid Magalhães, de 17, não tem motivos para preocupações.
Desde os 5 anos de idade, ela frequenta um dos melhores cursos de idiomas da
capital e hoje domina, com fluência, o inglês e o espanhol*. E para
completar a boa formação, no ano passado, fez intercâmbio na Alemanha.
“Assisto a filmes americanos sem legenda e leio muitos livros estrangeiros
para poder praticar bastante. As aulas de inglês do colégio são a minha hora
de relaxamento e acredito que não vou ter dificuldade no Enem. Num simulado
do vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), errei apenas
uma questão”, diz.

TROCA DE DATA DO ENADE Para não coincidir com o calendário de provas do
Enem, o MEC anunciou ontem a nova data de aplicação do Exame Nacional de
Desempenho dos Estudantes (Enade), o antigo Provão. O teste será em 21 de
novembro, às 13h, e é obrigatório para estudantes matriculados no primeiro e
no último ano dos cursos de bacharelado em agronomia, biomedicina, educação
física, enfermagem, farmácia, fisioterapia, fonoaudiologia, medicina,
medicina veterinária, nutrição, odontologia, serviço social, terapia
ocupacional e zootecnia e dos cursos superiores de tecnologia em
agroindústria, agronegócios, gestão hospitalar, gestão ambiental e
radiologia. Mais informações no site www.mec.gov.br.

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No mundo das paródias » Cresce o mercado de livros que se apoderam de obras de domínio público para recriar novas aventuras