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Aumenta no país financiamento público de colégios particulares que atendem alunos de graça

As charters schools cresceram 289% em 10 anos; modelo causa polêmica, pois eficácia não foi comprovada 

ANTÔNIO GOIS
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK 

O auditório do Brooklyn College, em Nova York, com capacidade para 2.000 pessoas, estava lotado no fim de tarde de uma terça-feira de abril. Não havia apresentação de artista.
O que atraía tanta gente ali era o sorteio de vagas gratuitas em uma rede de escolas privadas mantida com dinheiro público.
O casal Eric e Rachael Thomas era mais um a esperar ansiosamente pelo anúncio dos contemplados.
Ao ouvirem o nome do pequeno Elijah, os dois comemoraram como quem celebra um gol, uma cesta ou um ponto do time de coração. Ao lado, uma mãe chorava, desolada, por sua filha não ter sido chamada.
Tínhamos certeza que conseguiríamos. Eles [a rede de escolas Achievement First] foram a melhor coisa que aconteceu no Brooklyn nos últimos tempos, disse Rachael.
As reações dos pais naquele auditório ajudam a entender por que uma parcela crescente da opinião pública norte-americana pressiona seus governos a aumentarem o financiamento público a escolas privadas.
Esses estabelecimentos, conhecidos como charters schools, representam apenas 4% do total de escolas americanas, mas, nos últimos dez anos, cresceram 289%, saindo de 1.297 em 2000 para 5.043 neste ano.

LIBERDADE
As charters schools têm liberdade para organizar o currículo, estabelecer horários, aumentar ou encurtar o calendário letivo e contratar professores não sindicalizados, o que gera forte reação dos sindicatos.
Em troca do financiamento público, atendem apenas alunos de graça, selecionados por sorteio, e precisam cumprir metas de qualidade.
A aposta no modelos das charters, no entanto, é polêmica nos EUA.
Se há quem acredite que elas são uma solução para o criticado sistema público de ensino, outros são céticos em relação aos seus resultados e reclamam que trata-se de uma maneira de drenar recursos públicos para mãos privadas.
As pesquisas de abrangência nacional sobre o tema são inconclusivas. Após consideradas todas as variáveis externas às escolas que influenciam no aprendizado dos alunos, não houve estudo que identificasse até o momento significativa diferença em favor das charters.

MAU USO
Além disso, começam a aparecer casos de mau uso dos recursos públicos ou baixo desempenho. Na cidade de Nova York, por exemplo, quatro delas (de um total de 99 atualmente) já foram fechadas por maus resultados.
Uma reportagem do New York Times em maio trouxe também relatos de estabelecimentos processados por pagarem viagens turísticas a seus membros, ou salários milionários aos diretores.
Mesmo assim, a expansão das charters schools continua a ser apoiada por governos em diferentes níveis.
A estratégia fez parte da política educacional de George W. Bush, e continuou com Barack Obama.
Mesmo sem evidência de que as charters são melhores, há uma pressão forte dos pais por mais poder de escolha. Os ricos escolhem as escolas dos seus filhos. Os pobres querem o mesmo, afirma Henry Levin, pesquisador da Faculdade de Professores da Universidade Columbia.

Colégio oferece US$ 500 a quem indicar professor

ENVIADO A NOVA YORK

O diretor Morty Ballen tem em sua sala um mural com adesivos com o nome dos alunos de sua escola no Brooklyn, a charter Explore, dispostos em colunas que indicam o nível de aprendizado.
Quando um estudante progride, vai pessoalmente à sala de Ballen e muda o adesivo de lugar, recebendo as felicitações.
O perfil de seus alunos não difere muito do encontrado nas escolas públicas vizinhas. Três em cada quatro são pobres, conforme os critérios americanos, e a maioria são negros de famílias que migraram de países caribenhos.
As duas escolas que Ballen fundou atendem hoje 600 estudantes, mas ele têm metas de expandir para 3.000 até 2.015.
Uma das grandes vantagens de uma charter é não precisar seguir regras de contratação e demissão do setor público. Pode também negociar com os docentes a carga horária e dias letivos, sem intermédio de sindicatos.
Para atrair bons profissionais, Ballen oferece US$ 500 a quem indicar um professor que seja aceito. Uma vez na escola, todos ganham um celular, que é disponibilizado aos pais, para tirarem dúvidas.
Apesar de ser um defensor do modelo, ele diz que sua expansão tem um limite. Não é viável que toda escola pública vire charter. Não somos a solução para todos os problemas do ensino público, mas acredito que somos ao menos parte da solução.


Frases

Mesmo sem evidência de que as charters são melhores, há uma forte pressão dos pais por mais poder de escolha. Ricos escolhem as escolas dos filhos. Pobres querem o mesmo
HENRY LEVIN,
pesquisador da Universidade Columbia

Não é viável que toda escola pública vire charter. Não somos a solução para todos os problemas do ensino público, mas somos ao menos parte da solução
MORTY BALLEN,

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Poesia Matemática


Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
Quem és tu?indagou ele
Com ânsia radical.
Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.

E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se,
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Frequentador de Círculos Concêntricos,
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

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Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?

 


Minas não é palavra montanhosa.
É palavra abissal. Minas é dentro
E fundo”

Carlos Drummond de Andrade



Gente, simplificar é um pecado. Se a vida não fosse tão corrida, se não tivesse tanta conta para pagar, tantos processos — oh sina — para analisar, eu fundaria um partido cuja luta seria descobrir as falas de cada região do Brasil.

Cadê os lingüistas deste país? Sinto falta de um tratado geral das sotaques brasileiros. Não há nada que me fascine mais. Como é que as montanhas, matas ou mares influem tanto, e determinam a cadência e a sonoridade das palavras?

É um absurdo. Existem livros sobre tudo; não tem (ou não conheço) um sobre o falar ingênuo deste povo doce. Escritores, ô de casa, cadê vocês? Escrevam sobre isto, se já escreveram me mandem, que espero ansioso.

Um simples mas é uma coisa no Rio Grande do Sul. É tudo menos um mas nordestino, por exemplo. O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Mas, se o sotaque desarma, as expressões são um capítulo à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é...

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: pó parar. Não dizem: onde eu estou?, dizem: ôndôtô?). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem — lingüisticamente falando — apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.

Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro — metaforicamente falando, claro — ele é bom de serviço. Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: cê tá boa? Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: — Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo mexer, para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:

— Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse aqui é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem apaixonado por. Dizem, sabe-se lá por que, apaixonado com. Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: Ah, eu apaixonei com ele.... Ou: sou doida com ele (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: E aí, vão?. Traduzo: E aí, vamos?. Não caia na besteira de esperar um vamos completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:

— Eu preciso de ir.

Onde os mineiros arrumaram esse de, aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você precisa de ir. Você não precisa viajar, você precisa de viajar. Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:

— Ah, mãe, eu preciso de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:

— Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro caça confusão. Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele vive caçando confusão.

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: Ô, é sem noção. Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o Ô no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Ouço a leitora chiar:

— Capaz...

Vocês já ouviram esse capaz? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer tá fácil que eu faça isso, com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um capaz... como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: ô dó dôcê. Entendeu agora?

Não? Deixa para lá. É parecido com o nem.... Já ouviu o nem...? Completo ele fica:

- Ah, nem...

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?. Resposta: nem... Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: você não vai?. A pergunta, mineiramente falando, seria: cê não anima de ir? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...

Certa vez pedi um exemplo e a interlocutora pensou alto:

— Você quer que eu dou um exemplo...

Eu sei, eu sei, a gramática não tolera esses abusos mineiros de conjugação. Mas que são uma gracinha, ah isso lá são.

Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o papel todo molhado. Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.

Falando em ei.... As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o ei no lugar do oi. Você liga, e elas atendem lindamente: eiiii!!!, com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...

Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:

— Ah, fui lá comprar umas coisas...

— Que s coisa? — ela retrucará.

Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um pelas metade, no lugar de pela metade. E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:

— Ele pôs a culpa ni mim.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: preocupa não, bobo!. E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras. nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: não se preocupe, ou algo assim. A fórmula mineira é sintética. e diz tudo.

Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: tchau pro cê, tchau pro cês. É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, minha filha, é prôcê, não é pra outra entendeu?

Deve haver, por certo, outras expressões... A minha memória (que não ajuda muito) trouxe essas por enquanto. Estou, claro, aberto a sugestões. Como é uma pesquisa empírica, umas voluntárias ajudariam... Exigência: ser mineira. Conversando com lingüistas, fui informado: é prudente que tenham cabelos pretos, espessos e lisos, aquela pele bem branquinha... Tudo, naturalmente, em nome da ciência. Bem, eu me explico: é que, características à parte, as conformações físicas influem no timbre e som da voz, e eu não posso, em honrados assuntos mineiros, correr o risco de ser inexato, entendem?


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Categoria pai: Seção - Notícias
O Povo, 16062010 - Fortaleza CE
*Fórmula certeira*
O Ceará não só colhe resultados animadores com o Programa de Alfabetização
na Idade Certa (Paic), mas, este será referência nacional O Ceará ganhou
destaque na área da Educação, neste início de semana, com a publicação dos
resultados do Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), executado
pela Secretaria de Educação do Ceará (Seduc), voltado para alfabetização de
crianças de até sete anos de idade. Os resultados obtidos desde sua
implantação, em 2007, fizeram com que a experiência cearense esteja sendo
pensada pelo Ministério da Educação como um modelo a ser aplicado em nível
nacional, segundo declarou em Fortaleza o próprio ministro da pasta,
Fernando Haddad.

Os números indicam que 162 municípios (88%) estão com médias satisfatórias
de alfabetização de crianças na faixa etária perseguida. Os resultados foram
apresentados pelo próprio governador Cid Gomes. De acordo com a verificação
feita pelo o Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica (Spaece), da
Seduc, houve uma progressão impressionante: em 2007, a média era de 118,9
pontos; 2008, a média foi de 127,7 pontos, e em 2009, a média obtida foi de
142,5 pontos, considerada suficiente. Já os alunos alfabetizados no término
do segundo ano do ensino fundamental eram 39%, em 2007, enquanto, no ano
passado alcançou 56%. Dos 184 municípios cearenses, 45,1% atingiram médias
de proficiência situadas no nível desejável, seguidos de 42,9% que estão no
nível suficiente, totalizando 88%. Há até onze municípios que já obtiveram e
até superaram médias de 200 pontos.

A criação de um programa específico de alfabetização para crianças dessa
faixa etária impôs-se como uma necessidade imperativa, tendo em vista os
resultados medíocres obtidos nos anos anteriores pelo sistema convencional.
Num primeiro momento, era compreensível que as autoridades da educação
tivessem como mira principal colocar todas as crianças em idade escolar na
escola. Junto com isso, assegurar-lhes os nutrientes mínimos capazes de
garantir um cérebro capacitado para absorver os conhecimentos. Se não
contarem com uma ração mínima de nutrientes seus cérebros poderão atrofiar,
daí o cuidado com a merenda. A partir de agora, está em jogo também a
questão da qualidade. Para isso foi preciso elaborar o programa
Alfabetização na Idade Certa, traçando os eixos fundamentais da educação
infantil, aperfeiçoando a gestão pedagógica da alfabetização e cuidando da
formação do leitor, da gestão municipal da educação e submetendo tudo a uma
avaliação externa. Ou seja, procura-se garantir o acesso à escola, mas
também estabelecendo mudanças nas práticas pedagógicas com o objetivo de
tornarem as aulas mais interessantes, sem esquecer o incentivo à leitura e a
capacitação dos profissionais da educação. A fórmula está dando certo, como
indicam esses primeiros resultados.
Categoria pai: Seção - Notícias

Ciclos, Progressão Continuada e Aprovação Automática:

contribuições para a discussão

 

Educação: teoria e prática, Rio Claro, SP, Brasil - eISSN: 1981-8106

Está licenciada sob Licença Creative Commons

Resumo

O presente artigo pretende contribuir para a discussão sobre o processo de organização

escolar a partir dos conceitos de ciclos, progressão continuada e aprovação automática.

Para tanto, utilizou-se o resgate histórico, a análise dos documentos oficiais, bem

como da literatura pertinente à temática para contextualização da origem dessas

propostas e das concepções de avaliação subjacentes a elas. O texto procura esclarecer

a questão dos ciclos, da progressão continuada e promoçãoaprovação automática,

buscando analisar de que modo essas idéias carregam, potencialmente, a possibilidade

de os profissionais da educação rediscutirem a organização escolar e, implicitamente,

as marcas das políticas educacionais que as propõe.

Palavras-chave: ciclos; progressão continuada; aprovação automática; avaliação; política

educacional.

Cycles, Continuous Progress, Automatic Promotion:

contributions for the discuss

Abstract

The present article aims to contribute for the discussion on the process of school

organization starting from the concepts of cycles, continuous progress and automatic

promotion. For that it was used the historical recover, the analysis of the official documents

as well as of the literature that is pertinent to the subject, seeking the contextualization

of the origin of those proposals and of the assessment conceptions that are underlying

to them. The text tries to explain the subject of the cycles, of the continuous progress

and automatic promotionapproval, analyzing how those ideas carry, potentially, the

possibility of the professionals of the education possibility rediscuss the school

organization and, implicitly, the marks of the education politics which propose them.

Key words: cycles; continuous progress; automatic promotion inside education;

assessment; educational policy.

EDUCAÇÃO: Teoria e Prática - v. 18, n.31, jul.-dez.-2008, p.73-86.

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Introdução

Durante o período de realização do trabalho como Assessora em Avaliação

junto ao Departamento Pedagógico (DEPE) da Secretaria Municipal de Educação

de Campinas na gestão 2005-2009, com atuação, mais especificamente,

em 2005, muitos eram os questionamentos e dúvidas dos profissionais da rede

municipal de Campinas em relação aos ciclos, a progressão continuada e a promoção

automática.

Motivada e instigada pelos questionamentos desses profissionais da rede,

que demandavam esclarecimentos sobre as questões mencionadas; fruto do debate,

das sínteses e da exigência de sistematização das informações para

disseminá-las nos diversos espaços escolares da rede, surgiu a perspectiva de

construção do presente artigo em 2006.

Os temas, embora recorrentes e, talvez, academicamente bastante analisados,

para os profissionais da educação da rede municipal de Campinas ainda

suscitavam dúvidas, visto que a progressão continuada existia na rede estadual,

mas não na rede municipal. Naquele momento, vivia-se um processo de discussão

e de tentativa de implantação de uma política de reorganização escolar envolvendo

novos tempos e espaços escolares com a proposta do ciclo com progressão

continuada (para o primeiro nível de escolaridade) e a escola de tempo integral,

entre outras.

Nesse sentido, o objetivo deste artigo é contribuir para a discussão sobre

a organização escolar a partir de esclarecimentos sobre ciclos, progressão continuada,

aprovação automática, buscando caracterizá-los, descrevê-los,

contextualizá-los historicamente para melhor compreensão dos mesmos e, dessa

maneira, possibilitar a apropriação dos conceitos e, consequentemente, dos

respectivos significados pelos sujeitos cujas práticas envolvem essas questões.

Assim, apresentam-se aqui esclarecimentos sobre o sentido dos termos

- ciclos, progressão continuada, promoção automática - que vêm frequentando o

dia-a-dia escolar, incorporando-se à fala dos profissionais da educação para que

se desfaçam ambigüidades ou dúvidas que impedem o pensamento de mudanças,

a reflexão sobre outras formas de organização escolar, antes mesmo que

elas sejam implantadas e analisadas, tendo em vista seu potencial educativo.

Este trabalho permeado por vozes resultantes dos debates com os profissionais

da educação da rede municipal de Campinas lançou mão do resgate

histórico para contextualizar a origem das propostas e as concepções subjacentes

a elas. Assim foram analisados documentos oficiais, bem como a literatura perti-

Regiane Helena Bertagna. Ciclos, Progressão Continuada e Promoção Automática...

75

nente à temática, com a seguinte organização: esclarecimentos sobre ciclos,

progressão continuada e promoçãoaprovação automática; e em seguida, a discussão

de como os ciclos e a progressão continuada carregam potencialmente a

possibilidade de os profissionais repensarem a organização escolar e, ao mesmo

tempo, implicitamente, as marcas das políticas educacionais que as propõe.

Ciclos

Compreender o que são os ciclos não é tarefa muito fácil porque em

nosso país, as propostas de ciclos se construíram de diferentes maneiras e segundo

concepções diversas, o que dificulta a pretensão a uma única assertiva ou

compreensão sobre sua constituição. No entanto, no cerne na concepção dos

ciclos está a forma de organizar o tempo e o espaço escolar, em contraposição à

clássica forma seriada. Nesse aspecto espaço-temporal centra-se a grande possibilidade

de organização da escola.

Embora se observe o emprego generalizado da expressão ciclos,

na literatura, na legislação e em documentos de várias redes

públicas de ensino do país, para caracterizar uma organização de

ensino oposta à seriação, uma análise mais detalhada de seu

emprego indica uma diversidade de conceitos, bem como de

iniciativas de organização escolar (ALAVARSE, 2003, p.7).

É interessante lembrar que a atual forma de organizar o espaço e o tempo

escolar – através da seriação – é herança de Comenius (século XVII), período

em que essa forma de organização escolar também possuía uma intencionalidade:

“A regularidade, ritmo e harmonia do trabalho escolar deveriam garantir uma organização

produtiva em termos de eficiência, rapidez, precisão e também padronização”

(FONTANA, 2003, p. 129). Ou seja, a finalidade era otimizar, potencializar

a utilização do tempo e do espaço para se ensinar num mesmo ritmo, muitos

alunos. Passado tanto tempo, é compreensível e esperado que, com a evolução

da sociedade e da educação, as pessoas ligadas à área tenham apontado outras

propostas para romper com esta forma historicamente instituída. Assim, os ciclos

ganham potencialidade.

A possibilidade da organização não seriada do ensino não se constituiu

novidade na legislação que normaliza o ensino institucionalizado. Segundo SOUSA

(1998), ela está presente desde a LDB no 402461, artigo 104, com caráter experimental

e, na Lei no 569271, artigo 14, é explicitada como alternativa e, a partir

EDUCAÇÃO: Teoria e Prática - v. 18, n.31, jul.-dez.-2008, p.73-86.

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da LDB no 9.39496, artigo 23, fica instituída possibilidade da implantação dos

ciclos.

A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos

semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos,

grupos não-seriados, com base na idade, na competência e outros

critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o

interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar

(LDB, 1996, artigo 23).

FREITAS (2003, p.7) aponta que, na legislatura de 2002, havia intenção

de suprimir a palavra ciclos presente no artigo da lei, mas como não foi recuperado

pelo autor do artigo, acabou sendo arquivado, mostrando-nos “a indisposição

que a utilização de ciclos como organização pedagógica tem suscitado”

O total de escolas organizadas em ciclos no país, segundo os dados do

censo escolar de 2002, indicavam 10,9% (FRANCO, 2004), o que significa que

grande parte do nosso sistema de ensino se organiza, ainda, pela forma seriada.

Esse dado é importante, principalmente porque muitas críticas foram destiladas

logo de início demonstrando as “falhas” dos ciclos e apontando que a aprendizagem

ficava prejudicada por essa nova forma de organização, devido, principalmente,

à ausência da reprovação.

No entanto, observamos que a maioria das escolas (aproximadamente

80%), estão organizadas de forma seriada, persistindo nesse modelo e, ainda,

com a possibilidade de reprovação (e, em alguns casos altos índices de reprovação).

As estatísticas sobre o desempenho escolar dos alunos, fornecidas pelo

Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB, não se constituem como

reveladoras de qualidade de ensino, muito pelo contrário, indicam-nos quanto

estamos “devendo” aos alunos em relação à aprendizagem. Com isso, quero

apontar que o problema do ensinar com qualidade para todos os alunos está

presente para todas as formas de organização escolar e não somente para a de

ciclos. Poderíamos, ainda, questionar que, em tantos anos da existência do

modelo seriado, o problema da não qualidade da educação persiste e, pior, o

modelo tende a acirrar ou, no mínimo, manter as desigualdades escolares e sociais,

como se pode observar pela quantidade de turmas que iniciam e terminam o

Ensino Fundamental.

Portanto, as novas formas de organização do tempo e do espaço escolar,

denominadas de ciclos ou de outro nome que se pretenda apresentar, em contra-

Regiane Helena Bertagna. Ciclos, Progressão Continuada e Promoção Automática...

77

dição com a forma seriada permite repensar a finalidade da educação e,

consequentemente, a concepção de homem e sociedade. Definir com clareza o

que se pretende nesse novo tempoespaço e persegui-lo, repensando as posturas

e concepções frente à educação e à prática pedagógica, representa grande

desafio para todos os profissionais da educação.

Progressão Continuada

Assim como a organização não seriada do ensino, a progressão continuada

não se constitui novidade, ela também percorre o mesmo caminho, ou seja,

oferece a possibilidade de uma organização escolar diferenciada e, como a progressão

continuada, não é privilégio da nova LDB no 9.39496, mas vem clarear

essa perspectiva, apontando para sua efetivação, se for de interesse do processo

de aprendizagem.

Portanto, a discussão sobre a “não-reprovação” não é recente. Tem sido

realizada na realidade brasileira há muito tempo e, em determinados momentos

históricos, foi mais enfatizada, como na década de 1950. Reflexo disso são os

textos de ALMEIDA JÚNIOR (1957), PEREIRA (1958) e LEITE (1999). Esses

autores revelam que, naquela época, a não reprovação era denominada de aprovação

automática e já se contava com experiências de outros países, como a

Inglaterra - promoção por idade cronológica – (GIPPS, 1998), repercutindo em

nosso país por meio da discussão e do debate dessa possibilidade em vista das

altas taxas de evasão e repetência no país, do desperdício de verbas e da estagnação

dos alunos na mesma série, principalmente nos primeiros anos escolares,

o que impossibilitava o fluxo escolar.

Segundo SOUSA (1998), de acordo com o Parecer do Conselho Federal de

Educação (36074 – relatório), já se propunha o sistema de avanços progressivos.

[...] o sistema de avanços implica na adequação dos objetivos

educacionais às potencialidades de cada aluno, agrupando por

idade e avaliando o aproveitamento do educando em função de

suas capacidades. [...] Não existe reprovação. A escolaridade do

aluno é vista num sentido de crescimento horizontal; o

aproveitamento, numa linha de crescimento vertical. Pelo regime

de avanços progressivos, o aproveitamento escolar independe

da escolaridade, ou seja, do número de anos que a criança

freqüenta a escola (SOUSA, 1998, p. 87).

Mais recentemente, na década de 1990, a discussão sobre aprovação

EDUCAÇÃO: Teoria e Prática - v. 18, n.31, jul.-dez.-2008, p.73-86.

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automática foi recolocada a partir da abordagem pelos autores SILVA e DAVIS

(1993) e MAINARDES (1998), além de reflexões e discussões de resultados de

experiências com a aprovação automática realizadas no país, geralmente atreladas

a uma organização escolar por blocos, ciclos, níveis, sendo a aprovação

automática tomada como possibilidade de ruptura com a seletividade escolar e

de reorganização do fluxo escolar.

Embora os resultados apresentados nessas pesquisas demonstrassem

o cuidado no trato da questão (aprovação automática), desde 1957 já se colocava

a necessidade da participação dos professores na construção da nova proposta,

recomendação que, historicamente, nas políticas públicas, acaba sendo deixada

de lado.

Nesse movimento, em 1998, a progressão continuada foi instituída no

Estado de São Paulo pelo Conselho Estadual de Educação (CEE, Deliberação no

0997) e adotada pela Secretaria de Estado da Educação (SEE), na forma de

ciclos para o ensino fundamental, regular ou supletivo.

Quando essa medida foi adotada no Estado de São Paulo, as escolas

estaduais de nível fundamental foram organizandas em ciclos de progressão continuada,

estabelecendo-se dois ciclos: um de 1a a 4a série e outro, de 5a a 8a

série. Esse modelo trouxe reflexos por outras redes de ensino, principalmente as

municipais, que, gradativamente têm aderido aos ciclos, embora não necessariamente

com a configuração dada pelo Estado de São Paulo.

No Estado de São Paulo, a implantação da progressão continuada é

explicitada nos textos oficiais da seguinte maneira:

[...] a progressão continuada permite uma nova forma de

organização escolar, conseqüentemente, uma outra concepção

de avaliação. Se antes aprovava-sereprovava-se ao final de

cada série, agora se espera que a escola encontre diferentes

formas de ensinar que assegurem a aprendizagem dos alunos e

o seu progresso intra e interciclos (BERTAGNA, 2003, p. 79).

Nesse sentido, observa-se um certo tom de inovação no conceito de

avaliação, presente nessa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo,

mas é preciso observá-lo com cuidado. Partindo-se da idéia de que toda criança

é capaz de aprender, a progressão continuada permite que os professores acompanhem

constantemente os avanços e as dificuldades dos alunos, oferecendo

suporte e reforço escolar sempre que necessário, apostando, entre outras coisas

Regiane Helena Bertagna. Ciclos, Progressão Continuada e Promoção Automática...

79

nos recursos pedagógicos para assegurar a aprendizagem. Essa é uma forma de

compreensão que centra a discussão na aprendizagem, em seus aspectos técnico-

metodológicos e não na formação humana, no desenvolvimento da criança,

como apontamos que seria interessante na concepção de ciclos.

Ser contra a progressão continuada é, em nosso entender, negar

a evidência científica de que toda criança é capaz de aprender, se

lhe forem oferecidas condições para tal; ou seja: respeito a seu

ritmo de aprendizagem e a seu estilo cognitivo, bem como recursos

para que interaja de modo profícuo com os conhecimentos (SÃO

PAULO (Estado), 1998a, p. 2).

Como enfatiza o texto oficial a denominação progressão continuada foi

adotada porque extrapola a compreensão da aprovação automática no sentido de

ser apenas a implementação de uma norma administrativa, mas contempla o

aspecto pedagógico, a crença em que toda criança é capaz de aprender. Então,

sempre ocorrerá progresso de aprendizagem, mesmo que em níveis diferentes,

se respeitado o ritmo de aprendizagem dos alunos. Atrelada a essa concepção

está a crença em que todos podem aprender se oferecidas as condições e recursos

adequados para a aprendizagem.

Essa concepção, já discutida por FREITAS (2003, 2005), não supera a

clássica visão de compensação das diferenças de desempenho, (muitas originárias

das condições sociais dos alunos), via recursos pedagógicos. Para esse

autor, os pilares da progressão continuada demonstram ser ela “[...] um esforço

de concretização da utopia educacional liberal” (FREITAS, 2005, p. 10). Desta

forma, entendemos que a progressão continuada não promove a discussão sobre

como organizar os tempos e espaços escolares visando a superar a atual forma

e a concepção de educação, de sociedade.

Além disso, os estudos acadêmicos que acompanharam a implantação

da proposta da progressão continuada no Estado de São Paulo apontam, claramente,

que não houve ruptura com a forma de organizar os tempos e espaços

escolares e sim uma acomodação da forma seriada, agrupando-se séries com a

denominação de ciclos (GUILHERME, 2003; BERTAGNA, 2003; FREITAS, 2000),

pouco incentivando a discussão da forma escolar e sua finalidade.

Nesse sentido, podemos entender a distinção que alguns autores fazem

em relação à denominação de ciclos para a progressão continuada, não entendendo

que ela seja uma proposta de ciclos (ARROYO, 1999; FREITAS, 2003).

EDUCAÇÃO: Teoria e Prática - v. 18, n.31, jul.-dez.-2008, p.73-86.

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Há também uma oscilação quanto à terminologia, ora progressão continuada,

ora aprovação automática, muito recorrente na realidade educacional. É importante

explicitar a diferença entre progressão continuada e aprovação automática:

“[...] a criança avança em seu percurso escolar em razão de ter se apropriado,

pela ação da escola, de novas formas de pensar, sentir e agir”; e, na promoção

automática, a criança “[...] permanece na unidade escolar, independentemente de

progressos terem sido alcançados” (SÃO PAULO (Estado), 1998a, p. 2-3).

Embora a diferença possa parecer pouco significativa, é importante considerar

que a progressão continuada propõe a avaliação contínua do processo de

aprendizagem dos alunos, assim como recuperação contínua, além de modalidades

alternativas de adaptação, reclassificação, avanço, aproveitamento escolar,

controle de freqüência dos alunos e dispositivos regimentais. Com essas alternativas

e tendo o progresso como alavanca propulsora da aprendizagem, pretendese

beneficiar os alunos, favorecendo o seu desenvolvimento afetivo, social e

cognitivo. Portanto, não deveria ser considerado aprovação automática, visto que

esta desconsidera o processo de aprendizagem da criança.

Na proposta da progressão continuada do Estado de São Paulo são ainda

apontadas algumas mudanças necessárias como: na atuação pedagógica

para repensar os modelos de atuação docente. Propõem-se, para isso, estratégias

de ensino distintas, dirigidas ao conjunto da classe (conhecimentos comuns),

e atividades para pequenos grupos, possibilitando a troca de experiências (os

mais experientes monitoram os inexperientes) enfatizando-se, assim, um ensino

com base na heterogeneidade dos alunos.

A progressão continuada implica acompanhamento contínuo da

aprendizagem e tem no processo de reforço e recuperação um

recurso básico para sanar dificuldades e defasagens. É diferente

da promoção automática, que é entendida como mecanismo em

que o aluno vai sendo promovido independentemente de ser

submetido a processo continuado de avaliação, com reforço e

recuperação da aprendizagem, quando necessário (SÃO PAULO

(Estado), 1998b, p. 17).

É importante destacar que, embora a progressão continuada tenha apontado

para uma perspectivaproposta inovadora, de fato, na realidade, pouco se

efetivou. Possivelmente, as dúvidas geradas em torno do regime de progressão

continuada, implantado no Estado de São Paulo, são decorrentes da diferença

entre a concepção da proposta e sua implementação na prática que se encami-

Regiane Helena Bertagna. Ciclos, Progressão Continuada e Promoção Automática...

81

nhou muito mais para a aprovação automática ao centrar-se na discussão da

aprovaçãoreprovação desconsiderando outras essenciais como o fim a que se

destina a educação, a concepção de homem e sociedade que se pretende

implementar (BERTAGNA, 2003), a questão dos conteúdos culturais e,

consequentemente, a questão do conhecimento escolar (FREITAS, 2000), a participação

e envolvimento dos profissionais, principalmente dos professores nesse

processo (GUILHERME, 2003; MAINARDES, 2001), entre outros,

descaracterizando-se o caráter inovador e progressista apresentado na concepção

inicial da proposta do regime de progressão continuada.

Ciclos x progressão continuada

É preciso pontuar, nessa discussão, diferentes estratégias utilizadas pelas

políticas públicas na implantação dos ciclos. Têm-se expandido várias experiências

de ciclos no país, mas é preciso diferenciar os ciclos de formação com

pretensão de modificar a organização escolar, e que se baseiam em experiências

socialmente significativas para a idade e desenvolvimento do aluno e a progressão

continuada, que agrupa séries com o propósito principal de garantir a aprovação

do aluno e, consequentemente, a correção do fluxo escolar.

[...] a primeira exige uma proposta global de redefinição dos tempos

e espaços da escola, enquanto a segunda é instrumental – destinase

a viabilizar o fluxo de alunos e tentar melhorar sua aprendizagem

com medidas de apoio (reforço, recuperação) (FREITAS, 2003,

p.9).

Ainda, segundo esse autor, como indicado anteriormente, a segunda não

deve ser chamada de ciclo, mas de progressão continuada, e a primeira deve ser

apropriada pelos professores e discutida para se chegar a uma transformação,

em contraposição à velha forma de organizar os tempos e espaços escolares, ou

seja, como resistência ao antigo modelo e perspectiva de construção de novos

modelos educacionais, sem se perder de vista o essencial no processo educativo.

Nos ciclos de formação deve haver um tempo contínuo, que se identifica

com o tempo da formação do próprio desenvolvimento humano: infância, puberdade

e adolescência. Para FREITAS (2003) esse conceito deve ser expandido já que:

Sua principal diferença é que os tempos e espaços da escola são

colocados a serviço de novas relações de poder entre o estudante

e o professor, com a tarefa de formar para a vida, na atualidade,

EDUCAÇÃO: Teoria e Prática - v. 18, n.31, jul.-dez.-2008, p.73-86.

82

propiciando o desenvolvimento de novas relações entre as

pessoas e entre as pessoas e as coisas (p.67).

Portanto, é preciso ir além à compreensão dos ciclos de formação, superando-

se a concepção de “solução pedagógica” em contraposição à seriação,

para se constituir em “instrumentos para o desenvolvimento de novas relações”

escolares e sociais contrapostas às vividasimpostas pela atual sociedade.

Nesse sentido os professores, pais e estudantes devem compreender a

função dos ciclos enquanto resistência à “escola convencional” que, junto com

outros movimentos sociais, poderá apontar para a constituição de uma outra

concepção de educação e de sociedade.

Segundo FREITAS (2005), ainda que os ciclos se constituam propostas

mais elaboradas que a de progressão continuada, o autor faz uma analise crítica

dos ciclos, apontando para a ampliação da sua concepção, problematizando,

para além da organização dos tempos e espaços escolares, as relações de poder

(exclusão e subordinação) existentes.

· pautar a questão da “formação” e não só a da instrução

(português e matemática);

· introduzir o componente desenvolvimento (infância, préadolescência

e adolescência) na organização escola;

· remeter à relação educação e vida e não só como vivência de

experiências sociais, mas também como estudo crítico da

atualidade;

· apostar no desenvolvimento da auto-organização do alunos,

com sua participação em coletivos escolares como vivência real

de poder e decisão nos assuntos da escola;

· incorporar a progressão continuada.

· gestão democrática (FREITAS, 2005, p.136).

Na constituição desse modelo de organização do trabalho pedagógico

fica também o desafio de construir formas de avaliação que não se resumam à

simples aprovação dos alunos, sem uma reflexão sobre o processo de desenvolvimento,

mas que a reflexão sobre a constituição dessa nova organização dos

tempos e espaços das escolas e das relações (de poder) construídas carregue

consigo outras possibilidades de avaliação, que superam também as novas formas

de exclusão (eliminação adiadaeliminação branda), criadas a partir da retirada

da avaliação formal – aprovaçãoreprovação (BERTAGNA, 2003). A avaliação

Regiane Helena Bertagna. Ciclos, Progressão Continuada e Promoção Automática...

83

deve ser incorporada ao processo de aprendizagem, sem necessário destaque

ou ênfase, mas no papel que lhe cabe, de suporte ao processo de acompanhamento

do desenvolvimento do aluno e do trabalho desenvolvido pelas escolas

(PERRENOUD, 1986; SOUSA, 1999; DALBEN, 2000).

Dessa forma, é importante enfatizar que propostas de ciclos de formação

não prescindem da avaliação. O fato é que, nas propostas de ciclos, a avaliação

não é utilizada ou entendida pelo seu produto – aprovaçãoreprovação, e sim, pela

sua potencialidade formativa junto ao processo de desenvolvimento da criança, o

que não significa abolir a avaliação, pois esta é imprescindível ao acompanhamento

e desenvolvimento dos alunos e das propostas das escolas para atendimento

dos estudantes, planejando e re-planejando, constantemente, suas ações

em função da aprendizagem e desenvolvimento dos educandos.

Uma possibilidade para se repensar a avaliação no processo de organização

das escolas em ciclos deve considerar o envolvimento dos diferentes profissionais

no processo educativo e a co-responsabilidade pela aprendizagem dos

alunos. Os professores, ao formarem coletivos por ciclos, compartilham a responsabilidade

pela aprendizagem dos alunos durante o ciclo.

Outra possibilidade para esse processo de reorganização e, ciclos pode

ser a da construção coletiva de mecanismos de avaliação com legitimidade política

no grupo e na comunidade educativa, pela criação de outros instrumentos

para acompanhar o desenvolvimento do aluno.

Nesse processo é preciso considerar atores nem sempre trazidos para

ao debate: alunos e pais, pois são eles que dão sentido e significado, além de

legitimidade ao processo educativo. Esclarecê-los e envolvê-los nas discussões

é essencial para a efetividade de qualquer proposta.

Considerações finais

É preciso retomar e potencializar as discussões sobre a construção de

outras formas de organização escolar que se pautem nos fins a que se destina a

educação, indicando o tipo de sociedade e de formação humana que se deseja. É

importante, também, que as novas formas de organizar os tempos e espaços

escolares, as novas formas de reorganização escolar, que implicam os ciclos, a

progressão continuada, a aprovação automática entre outras que venham a ser

incorporadas às práticas escolares, sejam construídas e promovidas com um

significado real para o desenvolvimento e formação dos alunos, sem descaracterizar

o ensino dos conhecimentos que propiciem a emancipação deles, principalmen-

EDUCAÇÃO: Teoria e Prática - v. 18, n.31, jul.-dez.-2008, p.73-86.

84

te, os provenientes das camadas populares, na escola pública, onde as inovações

geralmente são implantadas.

A importância desse repensar os tempos e espaços escolares, a organização

escolar, a avaliação, reside na possibilidade de se repensar o fim a que se

destina a aprendizagem, a educação. Na prática, o que importa é a finalidade

proposta para o ensino, para a educação, o envolvimento dos diferentes atores na

construção e definição do que é essencial para cada fase do desenvolvimento da

criança e, o comprometimento e a disposição para que a finalidade seja perseguida

na organização escolar.

Dizer isso não retira a responsabilidade das políticas de garantir as condições

para a implantação, não somente das condições estruturais, físicas, mas

também de criar espaços de discussão coletiva entre os diversos atores e formação

que sustente o processo, uma vez que muitos problemas, alguns conhecidos,

outros não, poderão emergir e deverão ser socializados, debatidos.

Portanto, a discussão e apropriação dos diversos conceitos que permeiam

o cotidiano escolar pelos próprios sujeitos que os vivenciam criam espaços de

construção a partir da mobilização da escola e da comunidade, para analise

critica dos limites e das possibilidades da escola em nossa sociedade.

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Enviado em set.2008

Aprovado em dez.2008

Regiane Helena Bertagna

Docente do Departamento de Educação do Instituto de

Biociências da UNESP - Rio Claro

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Regiane Helena Bertagna. Ciclos, Progressão Continuada e Promoção Automática

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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