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RESENHA

 

BORTONI-RICARDO, S. M. (2008). O professor pesquisador: introdução à pesquisa qualitativa. São Paulo: Parábola Editorial. 135p. (Série Estratégias de Ensino, 8)

 

Resenhado por:

Adail Sebastião Rodrigues-Júnior

Universidade Federal de Ouro Preto

 

            A introdução à terceira edição do The Sage Handbook of Qualitative Research, feita por Denzin e Lincoln (2005), problematiza a fundamentação histórica da pesquisa qualitativa, orientada por paradigmas sociológicos e antropológicos. A ideia central que orientou grande parte das discussões em torno da pesquisa qualitativa e seus métodos mais comuns (observação, participação, entrevista, etnografia, colaboração, etc.) sustentava uma visão imperialista e colonizadora, de cujas bases, nos idos anos 20 e 30 do século passado, emergiam práticas de observação e interpretação da cultura do “outro”.  Estudos de Boas, Mead, Bateson, Malinowski, entre outros, inauguraram, por assim dizer, essa perspectiva de análise da outridade, de um ponto de vista urbano e civilizado.

            É curioso perceber nas colocações de Denzin e Lincoln que o paradigma qualitativo orientou-se por esse posicionamento inicial e que somente nas décadas de 1980 e 1990 a pesquisa qualitativa atingiu determinado auge, por ter-se revelado uma abordagem que investigava as relações humanas em contextos variados. Nessas mesmas décadas, a pesquisa qualitativa, mais especificamente seu método de perquirição conhecido como etnografia, recebeu atenção significativa de educadores, dentre eles Frederick Erickson e Judith L. Green, nos Estados Unidos da América, e Ben Rampton e Brian Street, no Reino Unido. Embora seguindo perspectivas distintas, esses pesquisadores, legatários de teóricos como John Gumperz, Erving Goffman, Dell Hymes, e dos próprios fundadores da disciplina, fundamentaram a pesquisa qualitativa como uma abordagem que não apenas investigava comunidades diferentes, mas sobretudo que vertia olhares para as comunidades urbanas, sendo a escola uma dessas comunidades.

            No Brasil, uma das representantes dessa vertente é a professora Stella Maris Bortoni-Ricardo. Seu livro, O Professor Pesquisador, é um exemplo de que a pesquisa qualitativa salta das prateleiras de livrarias e bibliotecas, presa em livros e relatórios de pesquisa em forma de monografias, teses e artigos, para a vida cotidiana do mundo escolar. A figura central desse movimento é o professor da escola regular, que ora assume o papel de um pesquisador em formação. O livro de Bortoni-Ricardo, como bem posto, mostra ao professor que é possível realizar pesquisa em sua sala de aula, na comunidade escolar da qual participa, enfatizando o processo de aprendizagem, por meio de três questões fundamentais: i) o que está acontecendo aqui agora? ii) o que as ações que estou observando significam para os sujeitos nelas envolvidos? iii) que relações existem entre as ações do microcosmo escolar e as ações sociais mais amplas?

            Em busca de respostas para essas três perguntas, Bortoni-Ricardo dividiu seu livro em introdução e onze capítulos. Na introdução, a autora define, de modo claro e completo, a concepção de pesquisa em sala de aula e seus dois paradigmas: o positivismo e o interpretativismo, afirmando que a pesquisa qualitativa insere-se no rol dos estudos interpretativistas. Essa discussão lança luz sobre pontos fundantes das duas perspectivas, sem, no entanto, resvalar na verbosidade comum dos manuais de pesquisa. Isso porque é visível, ao longo da obra, a preocupação magna da autora em atingir a proposta de orientação de professores acerca das nuances da pesquisa.

            O capítulo 1, “Postulados do paradigma positivista”, tece comentários sobre a construção histórica desse postulado, desde Auguste Comte, no século 19, até Popper e Kuhn, no século 20. Além dessas discussões, os capítulos trazem comentários que ilustram as discussões aventadas, separados em quadros com transcrições de aulas proferidas pela autora a seus alunos da Universidade de Brasília. Vê-se, portanto, que o livro O Professor Pesquisador parte também de experiências docentes da autora.

            Dando continuidade ao paradigma positivista, o capítulo 2, “Exemplo de pesquisa quantitativa experimental”, traduz uma inquietação constante de Bortoni-Ricardo, qual seja, exemplificar, ao longo do livro, aspectos teoricamente apresentados. Nesse capítulo, a autora discute as reações de falantes de português brasileiro à concordância verbal não-padrão, com base em sua dissertação de Mestrado. Conceitos-chave, como, por exemplo, senso comum, saliência, dialeto padrão e não-padrão, variância, entre outros, ilustram para o leitor os passos metodológicos de uma pesquisa de base empiricista. Ao analisar informantes universitários e supletivistas, Bortoni-Ricardo conclui que “a distinção entre os dois dialetos ocorre significativamente mais entre falantes universitários do que entre falantes do curso supletivo” (pp. 25-6).

            O capítulo 3 do livro de Bortoni-Ricardo, “Postulados do paradigma interpretativista”, explora a idéia de que a observação do mundo e dos fenômenos que nele se dão está diretamente vinculada às práticas sociais, e seus significados, dos indivíduos. Correlacionando essa afirmativa à realidade da escola, a autora pontua o seguinte:

 

O docente que consegue associar o trabalho de pesquisa a seu fazer pedagógico, tornando-se um professor pesquisador de sua própria prática ou das práticas pedagógicas com as quais convive, estará no caminho de aperfeiçoar-se profissionalmente, desenvolvendo uma melhor compreensão de suas ações como mediador de conhecimentos e de seu processo interacional com os educandos. Vai também ter uma melhor compreensão do processo de ensino e de aprendizagem (pp. 32-3).

 

A autora acrescenta ainda que o termo “interpretativismo” guarda, em si, um conjunto de métodos e práticas típicos da pesquisa qualitativa, citando, entre vários, a etnografia e a observação participante. Dado seu interesse de “entender, interpretar fenômenos sociais inseridos em um contexto” (p. 34), a pesquisa qualitativa encontra no método etnográfico um conjunto de procedimentos que busca desvelar realidades implícitas, muitas vezes imersas na cotidianidade de ações sociais não facilmente perceptíveis ao olhar de quem participa ativamente dessas ações. Para exemplificar a etnografia, Bortoni-Ricardo elege os trabalhos de dois grandes antropólogos, Malinowski e Mead, que fundamentaram os preceitos da etnografia como lógica de investigação. Além disso, a autora expande suas discussões para explorar o conceito de “competência comunicativa” (p. 39), cunhado por Dell Hymes, sociolinguista e antropólogo norte-americano. Com esses apontamentos, a autora prepara o campo para orientar a personagem principal de sua obra: o professor enquanto docente e pesquisador de sua prática pedagógica. Esse, portanto, é o tópico do próximo capítulo.

            No capítulo 4, “O professor pesquisador”, Bortoni-Ricardo elucida que à pesquisa interpretativista interessa o detalhamento de uma situação específica e não à criação de leis universais. A inobservância desse critério leva, muitas vezes, a interpretações equivocadas no momento de análise dos dados gerados por observações, entrevistas e notas de campo. Tendo como base o trabalho seminal de Shirley Brice-Heath (1983), em seu livro Ways with words, Bortoni-Ricardo discute a noção de “andaime”, originalmente proposto pelo psicólogo Jerome Bruner e amplamente utilizado em pesquisas educacionais orientadas por uma perspectiva vygotskyana. É curioso perceber que a autora consegue traduzir claramente conceitos às vezes complexos, a fim de que o professor-leitor de sua obra consiga internalizar tais conceitos e observá-los em sua própria vivência pedagógica. Assim fazendo, a autora conclui que o professor pesquisador, além de usuário do conhecimento produzido em pesquisas, é, essencialmente, um gerador de conhecimentos dos problemas que experiencia cotidianamente, no contexto escolar, equivalendo, portanto, a um pesquisador de sua própria ação e de seus colegas.

            Após esclarecer o papel do professor-pesquisador, Bortoni-Ricardo tece comentários esclarecedores acerca das “Rotinas da pesquisa qualitativa (capítulo 5), da “Coleta e análise de dados” (capítulo 6) e dos “Elos entre asserções e dados” (capítulo 7). Nessa tríade, a autora demonstra a rotina do desenvolvimento de uma pesquisa, orientada por objetivos claramente expostos em um projeto de pesquisa, por observação minuciosa e trabalho de campo detalhado e, sobretudo, pela colaboração entre pesquisador e professor pesquisado. Exemplos de como lidar em contexto de pesquisa, que olhar verter para esse ou aquele fenômeno e como interpretá-lo abundam nesses três capítulos. Entrar em campo sem perguntas exploratórias previamente definidas compromete a capacidade de observação do pesquisador, “pois quem não sabe o que procura não o percebe quando o encontra...” (p. 73).

            Mantendo sua inquietação, Bortoni-Ricardo oferece exemplos de projetos de pesquisa sobre os procedimentos da pesquisa qualitativa apresentadas nos capítulos anteriores. O capítulo 9, “Projeto de pesquisa qualitativa”, apresenta uma pesquisa ampla, na vertente etnográfica de estudos sociolinguísticos educacionais, acerca das rotinas interacionais em sala de aula, com ênfase em protocolos interacionais ou sequências interacionais presentes no trabalho pedagógico. O capítulo 10, “Pré-projetos de pesquisas qualitativas”, ilustra ainda mais as discussões aventadas, oportunizando ao professor pesquisador o contato com temas de pesquisa qualitativa educacional, e seus procedimentos, preparando-o para a formalização de temas investigativos por meio de projetos de Mestrado stricto sensu.

            Por fim, o capítulo 11, “O paradigma de redes sociais para a análise qualitativa”, discute aspectos fundantes da análise de redes sociais, procedimento muito útil em pesquisas educacionais. No entanto, senti falta de exemplificações, como feito ao longo do livro, que tivessem relação direta com eventos escolares. Bortoni-Ricardo lançou mão de sua pesquisa de doutorado, cujo tema é a análise sociolinguística de uma comunidade de migrantes rurais radicados em Brasília. Apesar de interessante, o exemplo destoa do padrão apresentado pela autora em seu livro, ou seja, exemplos reais ocorridos em encontros sociais no âmbito escolar.

Para finalizar essa resenha, apresento duas sugestões. A primeira, de ordem editorial, seria a criação, para a segunda edição do livro, de um glossário com os termos-chave elencados ao longo da obra e sua localização no texto, tais como, “experimentação”, “indução”, “afirmações ontológicas”, “fato”, “valor”, “raciocínio científico”, “conceito de saliência”, “etnografia”, “observação participante”, “pesquisa-ação”, “estudo de caso”, “andaime”, “turno de fala”, dentre vários termos. O glossário facilitaria a busca pelo termo-chave e seria um meio de o leitor, em especial o professor pesquisador, revisitar os conceitos estudados e correlacioná-los à sua própria realidade.

A segunda sugestão, de ordem crítico-pessoal, é que todos os profissionais e pesquisadores envolvidos com a educação leiam o livro O Professor Pesquisador. Bortoni-Ricardo conseguiu reunir nessa obra o critério científico e a prática pedagógica, interligando o pesquisador ao objeto pesquisado e demonstrando que a pesquisa é parte inerente do ser humano, por ser este um agente social rodeado de práticas que incessantemente o convidam ao escrutínio.

 

Referências:

DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (2005). Introduction: the discipline and practice of qualitative research. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (orgs.). The Sage Handbook of Qualitative Research. 3ed. Thousand Oaks, London, New Delhi: Sage. pp. 1-32.

 

HEATH, S. B. (1983). Ways with Words: language, life, and work in communities and classrooms. Cambridge: Cambridge University Press.

 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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