Artigos



A professora de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) Deisy Ventura recomendou, durante a comissão geral que discute a nova gripe causada pelo vírus H1N1, que haja cooperação internacional para combater a gripe. Em sua avaliação, é importante que os países possam quebrar patentes de medicamentos para garantir o tratamento. Segundo ela, o acesso à vacina também precisa ser igualitário.

Para Deisy Ventura, é necessário que a Câmara continue tratando do tema mesmo após o fim da pandemia. Ela teme que, a partir de agora, o período entre uma pandemia e outra no mundo seja cada vez mais curto.

Já o vice-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), José Geraldo Lopes Ramos, afirmou que o Brasil deve se preparar cada vez mais para combater a gripe e dar atenção especial às mulheres grávidas. Além disso, em sua opinião, é preciso dar mais atenção à gripe sazonal, inclusive vacinando gestantes.

O secretário de Estado de Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, considera que existe alarmismo nas notícias sobre a Influenza A. O México [onde o surto teve início] parou e não adiantou nada. O alarmamismo cria um outro nível de estresse, que não deveria haver, disse.

Osmar Terra justificou ainda o número de casos e óbitos no Rio Grande do Sul, que registrou 50 mortes, em decorrência de o estado fazer fronteira com dois focos da pandemia - o Uruguai e a Argentina. O secretário destacou ainda o clima do sul do País como fator determinante para a incidência da doença.

A comissão geral ocorre no Plenário da Câmara.

Agência Câmara

 

Categoria pai: Seção - Notícias

 

Em um cantinho da Amazônia brasileira, próximo à divisa com a Colômbia, 19 línguas indígenas dividem espaço com o português. A região, conhecida como Cabeça do Cachorro, fica no noroeste do Amazonas e tem 23 povos diferentes.

São Gabriel da Cachoeira, a maior cidade da região, tem quatro línguas oficiais. É o único município quadrilíngue do Brasil. Entre os idiomas do lugar está o nhengatu. Baseado na língua dos tupinambás, foi inventado pelos jesuítas do século XVIII  para evangelizar os índios. Os outros três idiomas são tukano, baniwa e o português – a língua usada para se comunicar com forasteiros.

Torre de babel - O índio baniwa Luís da Silva é um exemplo da “Torre de Babel” que se vive na região. Ele fala nove línguas: baniwa, tukano, wanano, kuebo, kuripaco, werekena, nhengatu, espanhol e português.

O índio tukano Laureano Maia, que aprendeu português com os padres, achou que podia esquecer o idioma de sua tribo. “Pôxa, e agora? Como que a gente vai ficar sem nada, sem cultura, sem mito, sem história?”.

Maia começou a recuperar a história de seu povo quando conheceu Judson, um adolescente de 16 anos cheio de perguntas. “Qual a minha etnia? Onde que eu pertenço? De onde que nós surgimos?” Para responder a todas essas dúvidas, eles conseguiram reaver o mito tukano da criação do mundo e, em um livro, salvaram ao mesmo tempo a língua e a cultura de seu povo.

Mito tukano - Segundo o mito tukano, no começo não existia água, não existiam árvores, não existia terra. Onde hoje é a Baía de Guanabara, Deus criou uma cobra-canoa. No ventre dela, nasceu a humanidade, com vários grupos étnicos. Eles foram subindo pela costa brasileira de sul para norte, percorrendo todo o litoral. Chegando perto da Ilha de Marajó, entraram no Rio Amazonas.

Navegaram rio acima até chegar no Rio Uaupés, na cachoeira de Ipanoré. O índio, o negro, o branco teriam surgido dessa cachoeira, e por isso ela seria tão grande. Cada buraco da cachoeira representa o surgimento de uma etnia.

O livro, todo escrito em tukano, foi impresso em uma gráfica de São Paulo. “Enquanto o índio estiver vivo, a cultura não vai acabar. Porque vai estar dentro de nós mesmos”, declara Judson. (Fonte: Globo Amazônia)

 

Categoria pai: Seção - Notícias

http:www.encantosepaixoes.com.br02004paitt.gif


 

 Hoje é dia de meu aniversário. 
E de todas as minhas modestas dimensões humanas, 
a que mais me realiza é a de ser pai. 

 Ser pai 
é acima de tudo, não esperar recompensas. 
Mas ficar feliz caso e quando cheguem. 
É saber fazer o necessário por cima e por dentro da incompreensão. 
É aprender a tolerância com os demais e exercitar a dura intolerância
(mas compreensão) com os próprios erros.

  Ser pai 
é aprender errando, a hora de falar e de calar. 
É contentar-se em ser reserva, coadjuvante,
 deixado para depois. Mas jamais falar no momento preciso. 
É ter a coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte.
É viver as fraquezas que depois corrigirá no filho, fazendo-se forte em
nome dele e de tudo o que terá de viver para compreender e enfrentar.

   Ser pai 
é aprender a ser contestado mesmo quando no auge da lucidez. É esperar. 
É saber que experiência só adianta para quem a tem, e só se tem vivendo. 
Portanto, é agüentar a dor de ver os filhos passarem 
pelos sofrimentos necessários, 
buscando protegê-los sem que percebam,
para que consigam descobrir os próprios caminhos.

  Ser pai
é saber e calar. Fazer e guardar. Dizer e não insistir. 
Falar e dizer. Dosar e controlar-se. Dirigir sem demonstrar. 
É ver dor, sofrimento, vício, queda e tocaia, jamais transferindo aos filhos o que,
a alma, lhe corrói. Ser pai é ser bom sem ser fraco. É jamais transferir aos filhos 
a quota de sua imperfeição, o seu lado fraco, desvalido e órfão.

Ser pai
é aprender a ser ultrapassado, mesmo lutando para se renovar. 
É compreender sem  demonstrar, e esperar o tempo de colher, 
ainda que não seja em vida. 
Ser pai é aprender a sufocar a necessidade de afago e compreensão. 
Mas ir às lágrimas quando chegam.

Ser pai
é saber ir-se apagando à medida em que mais nítido 
se faz na personalidade do filho,
sempre como influência, jamais como imposição. 
É saber ser herói na infância, exemplo na juventude
e amizade na idade adulta do filho.
É saber brincar e zangar-se. É formar sem modelar, ajudar sem cobrar, 
ensinar sem o demonstrar, sofrer sem contagiar, amar sem receber.

   Ser pai
é saber receber raiva, incompreensão, antagonismo, atraso mental, inveja, 
projeção de  sentimentos negativos, ódios passageiros, revolta, desilusão 
e a tudo responder com capacidade de prosseguir sem ofender; 
de insistir sem mediação, certeza, porto, balanço, arrimo, ponte, 
mão que abre a gaiola, amor que não prende, fundamento, enigma, pacificação.

 Ser pai
é atingir o máximo de angústia no máximo de silêncio. 
O máximo de convivência no máximo de solidão. 
É, enfim, colher a vitória exatamente quando percebe que o filho 
a quem ajudou a crescer já, dele, não necessita para viver. 
É quem se anula na obra que realizou e sorri, sereno, 
por tudo haver feito para deixar de ser importante.

 

 

Categoria pai: Seção - Notícias

Valor Econômico


Que lições podemos aprender a partir destas experiências para melhorar a qualidade da educação brasileira?

Naércio Menezes Filho é professor titular (cátedra IFB) e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) e professor da FEA-USP.

Nesta semana tivemos em São Paulo dois seminários importantes sobre sistemas educacionais de outros países, que podem nos ajudar a melhorar a qualidade da educação no Brasil. O primeiro deles, promovido pela Fundação Itaú Social e pelo Instituto Fernand Braudel, apresentou um estudo sobre a reforma educacional que está sendo realizada em Nova York (A Reforma Educacional de Nova York: possibilidades para o Brasil).

O segundo, promovido pela Fundação Lemann, trouxe o professor Martin Carnoy, da Universidade de Stanford, para o lançamento de seu livro, que compara os sistemas educacionais brasileiro, chileno e cubano (A Vantagem Acadêmica de Cuba). Que lições podemos aprender a partir destas experiências para melhorar a qualidade da educação brasileira?

O livro do professor Carnoy tenta explicar por que os alunos cubanos têm um desempenho tão superior ao dos demais países latino-americanos nos exames internacionais de proficiência. O ponto principal é que Cuba fez uma opção pelas crianças, ao invés de privilegiar os adultos. Isso tem várias implicações.

Em primeiro lugar, há vários anos a saúde e a educação das crianças são prioridades absolutas no país. Em contrapartida, inexistem oportunidades de emprego e liberdade de expressão para os adultos. Assim, o sistema cubano não permite que as preferências dos professores e dos funcionários das escolas cubanas tenham importância no modo como as escolas são dirigidas e na maneira como as aulas são ministradas.

Como o sistema é totalmente centralizado, a supervisão e o controle sobre o desempenho dos professores na sala de aula é muito forte. Em Cuba, os cursos de formação de professores são exigentes e muito voltados para as práticas de ensino. Além disto, os professores têm que seguir um currículo nacional, sem muito espaço para criatividade.

Como o salário é extremamente reduzido para todas as ocupações, em Cuba não faz muita diferença ser professor, advogado ou engenheiro, o que faz com que muitos dos melhores alunos do ensino médio optem por serem professores. Por fim, os professores que não conseguem fazer com que seus alunos aprendam, mesmo após um período de treinamento, têm que parar de dar aulas e procurar outra profissão (cortar cana, por exemplo).

Há uma preocupação muito grande com a prática na sala de aula. Os alunos cubanos permanecem pelo menos seis horas diárias na escola. Filmagens em salas de aula mostram que eles passam mais tempo fazendo exercícios individuais, enquanto os brasileiros passam muito tempo fazendo trabalhos em grupo e tendo aulas expositivas. Além disto, o professor brasileiro passa um tempo considerável tentando fazer com que os alunos sentem nas carteiras e se concentrem na aula.

No caso de Nova York, os progressos em termos de aprendizado estão sendo obtidos rapidamente a partir de um sistema educacional praticamente falido. Segundo o estudo divulgado, entre 2006 e 2009 a porcentagem de alunos que atingiram o padrão adequado de desempenho em matemática cresceu de 57% em 2006 para 82% em 2009. O principal progresso ocorreu entre os alunos negros e os mais pobres. Mas como isto foi alcançado?

As principais medidas estão relacionadas com o ambiente institucional e a organização do sistema escolar. Em primeiro lugar, privilegiou-se a autonomia escolar e a diminuição dos elos burocráticos, o que faz com que o secretário possa comunicar-se rapidamente com os gestores das escolas.

O papel dos diretores é fundamental e os novos diretores do sistema de Nova York, recrutados entre os melhores profissionais existentes, são cobrados diretamente pelo desempenho do aluno e recompensados quando os alunos efetivamente aprendem. Quanto isto não ocorre, a secretaria de educação pode demitir toda a equipe escolar e até mesmo reabrir a escola com um novo nome.

Para implementar estas medidas, foi feita uma negociação intensa com os sindicatos de professores, que acabaram concordando com grande parte delas.

Assim como em Cuba, acompanhar o desempenho do professor dentro da sala de aula é fundamental. Nova York preocupou-se em apoiar o professor, ensinando-o a como melhorar suas aulas. Isto exige a presença de tutores dentro da sala de aula, para evitar que o professor faça o que bem entender quando fecha a porta da sala.

O diretor da escola tem que estar comprometido com o aprendizado, ao invés de ser apenas um gestor preenchendo relatórios para os órgãos burocráticos. Além disto, surgiu a ideia dos coordenadores de pais de aumentar a participação dos pais na vida escolar, que é fundamental para melhorar o aprendizado dos alunos. Por fim, os problemas de violência na escola, que tanto preocupam os diretores brasileiros, foram enfrentados através de estreita colaboração da escola com a polícia.

Que lições podem ser aprendidas a partir dessas experiências para o caso brasileiro? A primeira lição é colocar as crianças em primeiro lugar. Obviamente, seria indesejável implementar as medidas de controle e supervisão dos professores à força, como é feito no sistema cubano de ensino. Afinal, a liberdade de expressão e de opinião são fundamentais para a nossa democracia.

A saída é negociar com os sindicatos de professores e também com os membros do Legislativo e Judiciário, para que eles entendam que o aprendizado das crianças tem que ser a prioridade da nossa sociedade. Algumas vezes, mudanças na legislação são necessárias para alcançarmos este objetivo, mesmo que tenhamos que acabar com alguns direitos adquiridos.

Em termos de políticas educacionais, as lições são claras: precisamos formar melhor nossos professores e entender o que eles fazem na sala de aula, através de uma supervisão efetiva e focada no aprendizado dos alunos.

Como não podemos aumentar os salários de todos os professores, devido às restrições orçamentárias dos Estados e municípios (nem diminuir os salários das outras profissões), o ideal é introduzir um sistema de remuneração que recompense os melhores profissionais ao longo da carreira, tanto no caso de diretores como no caso dos professores.

Isto fará com que os alunos mais talentosos, que acreditam no seu potencial e que gostam da profissão, tenham a possibilidade de alcançar um bom padrão de vida como professor do ensino básico.

 

Categoria pai: Seção - Notícias

                                                                            

Caros colegas

Gestores, diretores, professores, coordenadores e todos aqueles compromissados com a qualidade do ensino público no Brasil.

 

Pretendo desenvolver com vocês algumas reflexões no sentido de juntos pensarmos caminhos alternativos para o desenvolvimento educacional das crianças e adolescentes brasileiros que freqüentam a escola pública.

 

Eu sempre fui alguém desconforme e inquieta e com 25 anos de atuação como formadora de professores do ensino básico, sinto-me ainda mais desconfortável quando penso em nossa imensa responsabilidade em relação à qualidade do ensino público. Como cidadã, educadora, pesquisadora, formadora e alguém que sonha com um Brasil letrado, não posso me omitir diante de práticas metodológicas ultrapassadas que ainda vigoram em muitas escolas no Brasil.

 

Eu começo minhas reflexões perguntando: por que tantos professores que trabalham na escola pública pagam escolas particulares para seus filhos? Será que os próprios professores não confiam na capacidade de seus pares?

 

Algo está muito errado! É preciso que, independente de nossa classe social e de nosso nível de letramento, entendamos, de uma vez por todas, que somos todos responsáveis pela qualidade de educação no Brasil. Omitir nossas mazelas, colocando nossos filhos em escolas de bom nível e fingir que tudo vai bem, é uma atitude egoísta, alienante, conformista e antidemocrática, principalmente quando se trata de educadores.

As reflexões e experiências ao longo dos últimos trinta anos foram intensas e extremamente relevantes para o momento atual, pois de modo geral indicam que é preciso romper com práticas inflexíveis, que utilizam metodologias comprovadamente ineficazes. Só considerando os distintos aspectos que concorrem para a formação do aluno é que o processo de escolarização pode passar de fato a colaborar para a sua atuação autônoma. O grande problema, a meu ver, é que os resultados dessas pesquisas acabam ficando restritos à academia. É urgente envidar esforços no sentido de levar esses novos conhecimentos e essas novas metodologias até as salas de aula.

O mundo mudou, no entanto, muitos professores continuam a ensinar como se ensinava há cem anos, isso porque eles não conhecem os resultados das pesquisas em sua área. Na maioria das vezes, nem sequer sabem que existem pesquisas que apontam para novas práticas de ensino e para novas posturas no campo educacional. Imagine que um brasileiro tivesse dormido um século e acordasse agora. O mundo seria uma incógnita para ele.  Celulares, fast-food, com certeza iria se perder na imensidão de um shopping. Ao entrar numa casa, ele não conseguiria entender o que é uma televisão ou um computador. Mas, quando ele  deparasse com uma aula em uma de nossas escolas públicas, finalmente teria uma sensação de tranquilidade. Ah, isso eu conheço!, pensaria, ao ver um professor com um giz na mão à frente de vários alunos de cadernos abertos. É igualzinho a escola que eu frequentei.

Essa história, com algumas variações, é contada em inúmeras palestras e cursos de formação continuada de professores e também em sites da internet. Essa estória é um bom exemplo de como a escola se fossilizou em um mundo que não para de mudar, o que faz com que, naturalmente, ela não responda às necessidades do mundo atual.

 

 Muitas escolas públicas acham que se modernizaram porque utilizam  recursos tecnológicos para o desenvolvimento do trabalho pedagógico, mas esses recursos por si sós, como o uso do computador, não conferem modernidade aos projetos das escolas que ainda seguem modelos didáticos ultrapassados como o de solicitar ao aluno a cópia de conteúdos e a execução de muitos exercícios para sua memorização, desconsiderando, dessa maneira, a contribuição e a participação do aluno no processo de aprendizagem e ignorando seus aspectos socioculturais. Essas escolas precisam, com urgência, elaborar novos projetos, redefinir objetivos, buscar conteúdos significativos e novas formas de avaliar que resultem em propostas metodológicas inovadoras, com intuito de viabilizar a aprendizagem dos alunos.

 

O acolhimento e a socialização dos alunos nas escolas pressupõem a interação entre a equipe escolar, alunos, pais e outros agentes educativos, o que possibilita a construção de projetos que visem à melhor e mais completa formação do aluno. A separação entre escola e comunidade fica demarcada pelo autoritarismo e não pela realização de um projeto comum.  A ampla gama de conhecimentos construídos no ambiente escolar ganha sentido quando há interação contínua e permanente entre o saber escolar e os demais saberes, entre o que o aluno aprende na escola e o que ele traz para a escola. O relacionamento contínuo e flexível com a comunidade favorece a compreensão dos fatores políticos, sociais, culturais e psicológicos que se expressam no ambiente escolar.

 

Somente na interação, no diálogo e no respeito às individualidades, encontrar-se-á aprendizagem. Hoje, mais do que nunca é preciso ensinar nosso aluno a aprender e isto significa: ensinar a pensar, a resolver, a inferir, a deduzir, a relacionar, a extrapolar, a reconhecer, a se posicionar, a ter senso crítico, a refletir, a julgar e a argumentar.

 

Trago aqui um exemplo de uma escola da região rural de Planaltina, um vilarejo chamado Taquara, talvez desconhecido por quase todos, mas que desenvolve um dos trabalhos mais importantes em letramento no DF. A idealizadora, Profª Vanete Aparecida Rocha Teixeira, explica, em linhas gerais, a proposta do projeto. O Projeto reflete a tentativa de implantar os fundamentos e a prática do letramento em Escola Pública do Distrito Federal, a partir da criação de um itinerário de letramento direcionado ao CED – Taquara, a partir de várias fundamentações teóricas e da supervisão da Profª Dra. Marcia Bortone. O projeto foi iniciado com o intuito de alcançar: visão da leitura de forma interacional e dinâmica, ensino da norma padrão, respeitando as demais normas existentes na sociedade, diferenciação entre alfabetização e letramento, reconhecimento das características do letramento, percepção de como é um indivíduo realmente letrado, inovações na relação professoraluno e a análise do educando sob a perspectiva de sua integralidade. Nesta última meta, aspectos de interação social e freqüência em leitura de livros e revistas, assim como os níveis de leitura, são priorizados. Segundo a educadora: “O Letramento é a solução para a extinção de uma escola ‘adestradora’ do ensino de Língua Portuguesa no Brasil.” Para mais informações sobre o projeto: (www.letramentotaquara. blogspot.com)

 

Uma análise da conjuntura brasileira revela a necessidade de construção de uma educação básica voltada para a cidadania. Isso não se resolve apenas garantindo a oferta de vagas, mas sim oferecendo um ensino de qualidade, ministrado por professores capazes de incorporar em seu trabalho os avanços das pesquisas nas diferentes áreas de conhecimento e de estarem atentos às dinâmicas sociais e suas implicações no âmbito escolar, como esse que está sendo desenvolvido na região rural de Planaltina.

 

A função primordial da escola é proporcionar um conjunto de práticas com o propósito de contribuir para que os alunos se apropriem de conteúdos sociais e culturais de maneira crítica e construtiva. Decorar conteúdos que nada significam para sua vida não contribui para que o aluno se torne um cidadão consciente e capaz de atuar com competência e dignidade na sociedade.

 É necessário construir aprendizagens que estejam em consonância com as questões sociais que marcam cada momento histórico, cuja assimilação é considerada essencial para que os alunos possam exercer seus direitos e deveres.

Nestes vinte e cinco anos de cursos para formação de professores, proíbo qualquer aluno de copiar o que eu digo, pois qualquer anotação tira a concentração e o encadeamento das reflexões que estão sendo propostas naquele momento. Sempre digo: -Queridos,  eu empresto o texto para xerocar, o pen-driver para copiar, etc. Aula é um permanente diálogo, portanto, se eu estou dialogando com vocês é  preciso contar com os seus olhares e com suas aquiescências ao meu raciocínio. Assim, em lugar do monólogo, onde um apenas ensina e os demais aprendem, pratica-se o diálogo.

 

E o que é o diálogo? É uma interação que se nutre de confiança. Por isso, somente o diálogo comunica. E quando os interagentes do diálogo se ligam, com confiança no próximo, se produz uma relação de empatia entre ambos. Só ali há comunicação. É no diálogo que nos opomos ao antidiálogo tão entranhado em nossa formação histórico-cultural. O antidiálogo, que implica uma relação de um sobre o outro, é o oposto, é arrogante e auto-suficiente, pois quebra aquela relação de empatia entre os interlocutores. O método dialógico leva os alunos a pensar sobre o significado de suas palavras e sobre as conseqüências de seus pensamentos, vivenciando os conceitos na prática em lugar de apenas aprender a decorar conteúdos.

A escola não deve treinar o aluno para ser copista, isto era função dos monges medievais. Aliás, a escola não deve “treinar” e moldar consciências, treino é para cachorro e não para ser humano. Qualquer criança, mesmo com comprometimento cognitivo, é capaz de construir hipóteses e aprender. É igualmente importante que a escola favoreça a produção e a utilização das múltiplas linguagens, das expressões e dos conhecimentos históricos, sociais, científicos e tecnológicos, sem perder de vista a autonomia intelectual do aluno, como finalidade precípua da educação.

A indisciplina dos alunos em muitas escolas públicas nos leva a inferir que esse comportamento é fruto do desinteresse e apatia. A indisciplina é um sinal inequívoco de que alguma coisa vai muito mal, é um alerta dos alunos dizendo: eu detesto ir à escola! Por que acontece isso? Porque a vida aqui fora é vibrante, desafiadora, criativa, multimodal, colorida e repleta de atrativos. Enquanto a escola é alienada, “dorme em berço esplêndido”. A escola é chata, cheia de regras, sem atrativos e sem desafios, “emburrece” o aluno e o ensina a copiar ao invés de pensar!

Mas a escola pode ser interessante, desafiadora, atraente, desde que nela se construa algo que nunca nenhuma tecnologia do mundo irá suplantar:

o diálogo, a contação de história, o interesse verdadeiro pelo aluno e por suas peculiaridades, o espaço para que esse aluno possa falar de sua cultura, dizer o que sente, dar e receber carinho e atenção, a participação efetiva desse aluno no processo de aprendizagem, como deixá-lo cantar, dançar, representar, criar poesias, montar um jornal,  uma peça teatral, participar de jogos, passeios a museus e recitais,  entre outros.

Os professores precisam ser orientados a construírem aulas interacionais em que haja realmente integração com os alunos, levando-os a refletir, a desenvolver proficiência na leitura de texto e de mundo de forma a torná-los produtores textuais competentes e como conseqüência disso tudo mostrar a eles que são capazes de construir cultura!

 

 Os PCN vêm, há mais de dez anos, nos alertando para a educação continuada dos professores e a urgente necessidade de se elaborar novas práticas pedagógicas nas escolas:

 

A formação de professores de quinta a oitava séries também precisa ser revista; feita

em nível superior nos cursos de licenciatura, em geral não tem dado conta de uma formação profissional adequada; formam especialistas em áreas do conhecimento, sem reflexões e informações que dêem sustentação à sua prática pedagógica, ao seu envolvimento no projeto educativo da escola, ao trabalho com outros professores, com pais e em especial, com seus alunos. (PCN, 1988.p.35)

 

 

 

        A formação continuada de professores tornou-se, hoje, uma necessidade integrada às próprias atividades educacionais; não é um acréscimo ou complementação; muito menos uma proposta de suprir defasagens e incompletudes. O professor não deve, de forma alguma, sentir-se diminuído pelo fato de aprender novos paradigmas educacionais. A formação continuada, nesta perspectiva, constitui um programa de procedimentos que dá sustentação ao diálogo entre sujeitos que se constituem discursiva e socialmente. Atividades de formação continuada permitem a troca de papéis, de experiências, de informações, que possibilitem reflexões sobre “novas” realidades e sobre as implicações dessas “novas” abordagens no processo de ensino de língua materna.

           O documento do MECCNE 009200, ao formular as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores da educação básica, já enfatizava que quanto mais o Brasil consolidar suas instituições políticas democráticas, mais fortalecerá os direitos da cidadania e mais ampliará o reconhecimento da importância da educação para a promoção do desenvolvimento sustentável e para a superação das desigualdades sociais.

         Entre as inúmeras dificuldades encontradas para a implementação de uma política educacional eficiente, o documento do MEC destaca o preparo inadequado de muitos professores, cuja formação manteve-se predominantemente no formato tradicional, não contemplando as características consideradas, na atualidade, como inerentes à atividade docente e compatíveis com os novos paradigmas educacionais. Entre eles, salienta os seguintes:

 

v                                                                                                                                                                                                                                               Comprometer-se com o sucesso da aprendizagem dos alunos. Este procedimento altera toda uma concepção tradicional que via no fracasso do aluno a competência do professor. Hoje sabemos que o bom professor é aquele que consegue transmitir com clareza o conteúdo e, ainda mais, que leva o aluno não só a adquiri-lo, mas a aprender a refletir sobre ele.

 

v           Mostrar ao aluno como reconhecer características contextuais e desempenhar papéis verbais de acordo com essas. Não se pode dizer aos alunos que há uma fala certa e uma fala errada, mas que há falas mais monitoradas e menos monitoradas e que  se deve usar uma ou outra de acordo com a situação na qual nos encontramos, bem como é preciso construir uma metodologia que, sem desvalorizar qualquer norma, compare e diferencie as formas usadas em cada estilo de fala e, ainda, lembrar que a gramática da norma padrão precisa ser ensinada de uma maneira reflexiva e inserida em contextos discursivos para, dessa forma, possibilitar ao aluno o domínio desta norma e, assim, poder desenvolver a capacidade de monitorar seu estilo de fala.

 

v                                                                                                                                                                                                                                               Incentivar atividades de enriquecimento cultural. É fundamental que o professor trabalhe em uma perspectiva interdisciplinar, levando o aluno a conhecer novas culturas, em especial a cultura de seu país, e a ampliar sua visão de mundo acerca das diferentes linguagens existentes (artes visuais, música, literatura, fotografia, leitura de mapas, apreciação de obras de arte), compreendendo os gêneros textuais como ferramenta de acesso à cultura diversificada (letrada e popular).

 

v                                                                                                                                                                                                                                               Desenvolver práticas investigativas. É crucial que as atividades de pesquisa sejam constantes na prática pedagógica do professor. O aluno precisa ser estimulado a buscar novos conhecimentos e a ter autonomia para construir esse novo conhecimento.

 

v                                                                                                                                                                                                                                               Desenvolver hábitos de colaboração e trabalho em equipe. O trabalho de pesquisa deve, sempre que possível, ser desenvolvido em equipe. É importante ensinar o aluno a trabalhar de forma coesa e participativa.

 

v                                                                                                                                                                                                                                               Utilizar novas metodologias, estratégias e materiais de apoio. Em relação a este item, é fundamental que o professor tenha um real interesse em conhecer não só as novas metodologias, como também as teorias que as fundamentam. A sociolingüística tem dado contribuições relevantes para o ensino de língua portuguesa nas escolas, entre outras, por sua ampla discussão sobre a questão dos níveis de letramento nas comunidades urbanas em vias de desenvolvimento. A análise textual contribui com a metodologia da leitura e da produção escrita ao trabalhar a tessitura do texto, salientando os elementos coesivos como suporte da estrutura global de coerência, e os fatores sociocomunicativos que entram na construção da leitura. E ainda, a análise do discurso contribui na compreensão dos processos de significação, explicitando as condições de produção da leitura, compreensão que supõe uma relação com a cultura, com a história, com o social e com a linguagem, que é atravessada pela reflexão e pela crítica.

 

E qual é o papel dos pais no processo pedagógico de seus filhos?   Em termos legais, convém ressaltar que a Lei Federal nº 9.394, de 201296, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, conhecida como Lei Darcy Ribeiro, estabelece que a “educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

 

Os pais têm o direito de conhecer a proposta da escola! Eles devem exigir qualidade na Educação formal de seus filhos, mesmo que eles sejam iletrados ou tenham poucos conhecimentos formais. Por meio da compreensão do projeto da escola, poderão perfeitamente saber se este está sendo cumprido ou não, se ele é um bom projeto ou não.

Os pais não podem interferir na aula do professor, desde que essa esteja de acordo com a proposta pedagógica da escola e esteja voltada para o mundo do Saber, mas podem sugerir a supressão de ações inócuas. Os pais devem verificar em que medida os professores levam seus alunos a pensar no cosmo como um desafio à nossa compreensão, a pensar na política como uma construção democrática e igualitária, a pensar na arte de forma a torná-los mais sensíveis à poesia e à música.

Os pais deveriam, também, analisar, até que ponto, as escolas estão seguindo os Parâmetros Curriculares, que propõem, ao final do ensino fundamental, que os alunos sejam capazes, entre outros, de:

 

• compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício

  de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a-dia, atitudes de

  solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo

  para si o mesmo respeito;

 

§                      posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas;

 

• conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e  

  culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional

  e pessoal e o sentimento de pertinência ao país;

 

• conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como

  aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer

  discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo,

               de etnia ou outras características individuais e sociais. (PCN, 1998 p.55).

 

A escola, hoje, não pode continuar inflexível, querendo, à revelia das pesquisas acadêmicas, medir apenas a capacidade do estudante de assimilar e acumular informações, mas, sim, incentivá-lo a aprender a pensar, a refletir e a “saber como fazer”, construindo, portanto, a autonomia do jovem na hora de fazer escolhas e tomar decisões, valorizando muito mais o raciocínio do que a “decoreba”. A escola precisa perceber que as práticas de leitura perpassam todas as atividades escolares e qualquer área do conhecimento. Se isso não acontece, falta um projeto político pedagógico que tenha a leitura como eixo norteador de uma prática pedagógica interdisciplinar. Sabemos que a leitura implica, ao mesmo tempo, a competência formal e a política e que, nesse quadro, também a escrita representa a realização da autonomia do sujeito que encontra na leitura não apenas a maneira de ver ou de realizar o armazenamento passivo das informações, mas também a demonstração concreta de que é possível aprender a pensar para compreender melhor o mundo que o cerca. E para que a leitura frutifique na devida competência e na devida cidadania, precisa da reflexão, da desconstrução, da ironia, da consciência crítica e da ruptura com o convencional, pois são estas aberturas que levarão o aluno a desenvolver sua criatividade e sua autoria na produção de seus textos.

 

            É com este espírito que finalizo aqui minhas reflexões. Creio que o resgate da cidadania, por meio de uma formação mais competente, depende, com certeza, da transformação dos paradigmas que vigoram até hoje em muitas escolas brasileiras. Meu desejo é que todos os brasileirinhos - especiais ou não – possam ter o direito de se tornarem cidadãos no sentido pleno da palavra, questionando e interrogando permanentemente o mundo em que vivem.

 

Brasília, maio de 2009.

 

Referências Bibliográficas

 

BORTONE, Marcia E. A Construção da leitura I e II. Fascículo do programa da Rede Nacional de Formação Continuada-Alfabetização e Linguagem - UnB MEC, 2005, 40 p.

 

_______________Competência textual: a leitura. ISBN 978-85-7804-022-2. Brasília – DF: UNBCEAD. 2008, p.34. Fascículo do curso de Especialização para professores do GDF.

______________& MAIMONI, E “Colaboração família-escola: estudos sobre contribuição de pais em processos de aquisição de leitura e escrita”. In: GOMES, V. R. e OLIVEIRA, S. F.(orgs).A escola e a família: abordagens psicopedagógicas. São Paulo: Ed.Cabral. 2003. p 67 a 92. ( cap. de livro).

 

_____________ & BORTONI-RICARDO, S.M. Modos de falarmodos de escrever -Fascículo Pró-letramento - Rede Nacional de Formação Continuada. UnBCFORM MEC, 2005.

 

____________& MARTINS, Cátia. A construção da leitura e da escrita: do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. São Paulo: Parábola, 2008. (livro)


______________ &.CAXANGÁ, M.Rosário. Competência textual: a escrita. ISBN 978-85-7804-018-5. Brasília – DF. UNB CEAD. 2008 p.45. Fascículo do curso de Especialização para professores do GDF.

BORTONI-RICARDO, S. Educação em língua materna: a sociolingüística na sala de aula.  São Paulo: Parábola, 2004.

 

 

Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MECSEF, 1998.174 p.

 

CARVALHO, Marlene. Alfabetizar e letrar. Petrópolis: Vozes, 2005.

 

Documentos:

1-MECCNE 009200

2-Lei Federal nº 9.394, de 201296, Lei de Diretrizes e Bases.

Categoria pai: Seção - Notícias

Pesquisar

PDF Banco de dados doutorado

Em 03 de março de 2026, chegamos a 3.898 downloads deste livro. 

:: Baixar PDF

A Odisseia Homero

Em 03 de março de 2026, chegamos a 9.512 downloads deste livro. 

:: Baixar PDF

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Uma palavra depois da outra


Crônicas para divulgação científica

Em 03 de março de 2026, chegamos a 16.858 downloads deste livro.

:: Baixar PDF

:: Baixar o e-book para ler em seu Macintosh ou iPad

Novos Livros

 





Perfil

Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

Leia Mais

Publicações

Do Campo para a cidade

Acesse: