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As chuvas de outono

Acordei anteontem com o barulho da chuva. Era uma chuva intensa, mas amigável, sem relâmpagos , trovões ou ventania.  De minha janela, o que eu via era uma cortina cerrada de água. Chuvas em Brasília nesta época são bem-vindas, para molhar o solo e garantir o verde da cidade por mais tempo, pois com o início do inverno vêm também os meses de uma incômoda seca, que às vezes dura mais de 90 dias.

Diferentemente da maioria das cidades brasileiras, aqui neste planalto não temos montanhas, somente algumas colinas. Por isso não vivemos o perigo dos deslizamentos, que põem em risco vidas e casas no Rio de Janeiro, em Petrópolis , em Salvador; Recife e Olinda  e em muitos outros municípios.  Os danos que a chuva costuma causar por aqui são os acidentes de carro e  a erosão em algumas localidades do Distrito Federal. Os acidentes ocorrem porque a camada fina de poeira, que se assenta sobre o asfalto , com as chuvas se torna uma superfície escorregadia.  Não são poucos os veículos que derrapam provocando colisões graves.

Já as erosões, há muitos relatos de áreas de assentamento recente, onde os moradores convivem com esse problema.

Problemas à parte, as chuvas são benfazejas. Enchem o Lago Paranoá e as represas que abastecem nossas casas. Transformam o gramado da Esplanada dos  Ministérios em um tapete. Dão vida nova às árvores do cerrado, resistentes, mesmo quando maninhas.    Como diria o  grande maestro brasileiro : “Olha, que chuva boa, prazenteira que vem molhar minha roseira, Chuva boa, criadeira, que molha a terra, que enche o rio, que enche o céu, que traz o azul.

 

Brasília, 15 de abril de 2009

 

Categoria pai: Seção - Notícias

RESENHA

 

BORTONI-RICARDO, S. M. (2008). O professor pesquisador: introdução à pesquisa qualitativa. São Paulo: Parábola Editorial. 135p. (Série Estratégias de Ensino, 8)

 

 

Resenhado pelo Prof. Adail Sebastião Rodrigues Jr.

Universidade Federal de Ouro Preto

 

         A introdução à terceira edição do The Sage Handbook of Qualitative Research, feita por Denzin e Lincoln (2005), problematiza a fundamentação histórica da pesquisa qualitativa, orientada por paradigmas sociológicos e antropológicos. A ideia central que orientou grande parte das discussões em torno da pesquisa qualitativa e seus métodos mais comuns (observação, participação, entrevista, etnografia, colaboração, etc.) sustentava uma visão imperialista e colonizadora, de cujas bases, nos idos anos 20 e 30 do século passado, emergiam práticas de observação e interpretação da cultura do “outro”.  Estudos de Boas, Mead, Bateson, Malinowski, entre outros, inauguraram, por assim dizer, essa perspectiva de análise da outridade, de um ponto de vista urbano e civilizado.

         É curioso perceber nas colocações de Denzin e Lincoln que o paradigma qualitativo orientou-se por esse posicionamento inicial e que somente nas décadas de 1980 e 1990 a pesquisa qualitativa atingiu determinado auge, por ter-se revelado uma abordagem que investigava as relações humanas em contextos variados. Nessas mesmas décadas, a pesquisa qualitativa, mais especificamente seu método de perquirição conhecido como etnografia, recebeu atenção significativa de educadores, dentre eles Frederick Erickson e Judith L. Green, nos Estados Unidos da América, e Ben Rampton e Brian Street, no Reino Unido. Embora seguindo perspectivas distintas, esses pesquisadores, legatários de teóricos como John Gumperz, Erving Goffman, Dell Hymes, e dos próprios fundadores da disciplina, fundamentaram a pesquisa qualitativa como uma abordagem que não apenas investigava comunidades diferentes, mas sobretudo que vertia olhares para as comunidades urbanas, sendo a escola uma dessas comunidades.

         No Brasil, uma das representantes dessa vertente é a professora Stella Maris Bortoni-Ricardo. Seu livro, O Professor Pesquisador, é um exemplo de que a pesquisa qualitativa salta das prateleiras de livrarias e bibliotecas, presa em livros e relatórios de pesquisa em forma de monografias, teses e artigos, para a vida cotidiana do mundo escolar. A figura central desse movimento é o professor da escola regular, que ora assume o papel de um pesquisador em formação. O livro de Bortoni-Ricardo, como bem posto, mostra ao professor que é possível realizar pesquisa em sua sala de aula, na comunidade escolar da qual participa, enfatizando o processo de aprendizagem, por meio de três questões fundamentais: i) o que está acontecendo aqui agora? ii) o que as ações que estou observando significam para os sujeitos nelas envolvidos? iii) que relações existem entre as ações do microcosmo escolar e as ações sociais mais amplas?

         Em busca de respostas para essas três perguntas, Bortoni-Ricardo dividiu seu livro em introdução e onze capítulos. Na introdução, a autora define, de modo claro e completo, a concepção de pesquisa em sala de aula e seus dois paradigmas: o positivismo e o interpretativismo, afirmando que a pesquisa qualitativa insere-se no rol dos estudos interpretativistas. Essa discussão lança luz sobre pontos fundantes das duas perspectivas, sem, no entanto, resvalar na verbosidade comum dos manuais de pesquisa. Isso porque é visível, ao longo da obra, a preocupação magna da autora em atingir a proposta de orientação de professores acerca das nuances da pesquisa.

         O capítulo 1, “Postulados do paradigma positivista”, tece comentários sobre a construção histórica desse postulado, desde Auguste Comte, no século 19, até Popper e Kuhn, no século 20. Além dessas discussões, os capítulos trazem comentários que ilustram as discussões aventadas, separados em quadros com transcrições de aulas proferidas pela autora a seus alunos da Universidade de Brasília. Vê-se, portanto, que o livro O Professor Pesquisador parte também de experiências docentes da autora.

         Dando continuidade ao paradigma positivista, o capítulo 2, “Exemplo de pesquisa quantitativa experimental”, traduz uma inquietação constante de Bortoni-Ricardo, qual seja, exemplificar, ao longo do livro, aspectos teoricamente apresentados. Nesse capítulo, a autora discute as reações de falantes de português brasileiro à concordância verbal não-padrão, com base em sua dissertação de Mestrado. Conceitos-chave, como, por exemplo, senso comum, saliência, dialeto padrão e não-padrão, variância, entre outros, ilustram para o leitor os passos metodológicos de uma pesquisa de base empiricista. Ao analisar informantes universitários e supletivistas, Bortoni-Ricardo conclui que “a distinção entre os dois dialetos ocorre significativamente mais entre falantes universitários do que entre falantes do curso supletivo” (pp. 25-6).

         O capítulo 3 do livro de Bortoni-Ricardo, “Postulados do paradigma interpretativista”, explora a idéia de que a observação do mundo e dos fenômenos que nele se dão está diretamente vinculada às práticas sociais, e seus significados, dos indivíduos. Correlacionando essa afirmativa à realidade da escola, a autora pontua o seguinte:

 

O docente que consegue associar o trabalho de pesquisa a seu fazer pedagógico, tornando-se um professor pesquisador de sua própria prática ou das práticas pedagógicas com as quais convive, estará no caminho de aperfeiçoar-se profissionalmente, desenvolvendo uma melhor compreensão de suas ações como mediador de conhecimentos e de seu processo interacional com os educandos. Vai também ter uma melhor compreensão do processo de ensino e de aprendizagem (pp. 32-3).

 

A autora acrescenta ainda que o termo “interpretativismo” guarda, em si, um conjunto de métodos e práticas típicos da pesquisa qualitativa, citando, entre vários, a etnografia e a observação participante. Dado seu interesse de “entender, interpretar fenômenos sociais inseridos em um contexto” (p. 34), a pesquisa qualitativa encontra no método etnográfico um conjunto de procedimentos que busca desvelar realidades implícitas, muitas vezes imersas na cotidianidade de ações sociais não facilmente perceptíveis ao olhar de quem participa ativamente dessas ações. Para exemplificar a etnografia, Bortoni-Ricardo elege os trabalhos de dois grandes antropólogos, Malinowski e Mead, que fundamentaram os preceitos da etnografia como lógica de investigação. Além disso, a autora expande suas discussões para explorar o conceito de “competência comunicativa” (p. 39), cunhado por Dell Hymes, sociolinguista e antropólogo norte-americano. Com esses apontamentos, a autora prepara o campo para orientar a personagem principal de sua obra: o professor enquanto docente e pesquisador de sua prática pedagógica. Esse, portanto, é o tópico do próximo capítulo.

         No capítulo 4, “O professor pesquisador”, Bortoni-Ricardo elucida que à pesquisa interpretativista interessa o detalhamento de uma situação específica e não à criação de leis universais. A inobservância desse critério leva, muitas vezes, a interpretações equivocadas no momento de análise dos dados gerados por observações, entrevistas e notas de campo. Tendo como base o trabalho seminal de Shirley Brice-Heath (1983), em seu livro Ways with words, Bortoni-Ricardo discute a noção de “andaime”, originalmente proposto pelo psicólogo Jerome Bruner e amplamente utilizado em pesquisas educacionais orientadas por uma perspectiva vygotskyana. É curioso perceber que a autora consegue traduzir claramente conceitos às vezes complexos, a fim de que o professor-leitor de sua obra consiga internalizar tais conceitos e observá-los em sua própria vivência pedagógica. Assim fazendo, a autora conclui que o professor pesquisador, além de usuário do conhecimento produzido em pesquisas, é, essencialmente, um gerador de conhecimentos dos problemas que experiencia cotidianamente, no contexto escolar, equivalendo, portanto, a um pesquisador de sua própria ação e de seus colegas.

         Após esclarecer o papel do professor-pesquisador, Bortoni-Ricardo tece comentários esclarecedores acerca das “Rotinas da pesquisa qualitativa (capítulo 5), da “Coleta e análise de dados” (capítulo 6) e dos “Elos entre asserções e dados” (capítulo 7). Nessa tríade, a autora demonstra a rotina do desenvolvimento de uma pesquisa, orientada por objetivos claramente expostos em um projeto de pesquisa, por observação minuciosa e trabalho de campo detalhado e, sobretudo, pela colaboração entre pesquisador e professor pesquisado. Exemplos de como lidar em contexto de pesquisa, que olhar verter para esse ou aquele fenômeno e como interpretá-lo abundam nesses três capítulos. Entrar em campo sem perguntas exploratórias previamente definidas compromete a capacidade de observação do pesquisador, “pois quem não sabe o que procura não o percebe quando o encontra...” (p. 73).

         Mantendo sua inquietação, Bortoni-Ricardo oferece exemplos de projetos de pesquisa sobre os procedimentos da pesquisa qualitativa apresentadas nos capítulos anteriores. O capítulo 9, “Projeto de pesquisa qualitativa”, apresenta uma pesquisa ampla, na vertente etnográfica de estudos sociolinguísticos educacionais, acerca das rotinas interacionais em sala de aula, com ênfase em protocolos interacionais ou sequências interacionais presentes no trabalho pedagógico. O capítulo 10, “Pré-projetos de pesquisas qualitativas”, ilustra ainda mais as discussões aventadas, oportunizando ao professor pesquisador o contato com temas de pesquisa qualitativa educacional, e seus procedimentos, preparando-o para a formalização de temas investigativos por meio de projetos de Mestrado stricto sensu.

         Por fim, o capítulo 11, “O paradigma de redes sociais para a análise qualitativa”, discute aspectos fundantes da análise de redes sociais, procedimento muito útil em pesquisas educacionais. No entanto, senti falta de exemplificações, como feito ao longo do livro, que tivessem relação direta com eventos escolares. Bortoni-Ricardo lançou mão de sua pesquisa de doutorado, cujo tema é a análise sociolinguística de uma comunidade de migrantes rurais radicados em Brasília. Apesar de interessante, o exemplo destoa do padrão apresentado pela autora em seu livro, ou seja, exemplos reais ocorridos em encontros sociais no âmbito escolar.

Para finalizar essa resenha, apresento duas sugestões. A primeira, de ordem editorial, seria a criação, para a segunda edição do livro, de um glossário com os termos-chave elencados ao longo da obra e sua localização no texto, tais como, “experimentação”, “indução”, “afirmações ontológicas”, “fato”, “valor”, “raciocínio científico”, “conceito de saliência”, “etnografia”, “observação participante”, “pesquisa-ação”, “estudo de caso”, “andaime”, “turno de fala”, dentre vários termos. O glossário facilitaria a busca pelo termo-chave e seria um meio de o leitor, em especial o professor pesquisador, revisitar os conceitos estudados e correlacioná-los à sua própria realidade.

A segunda sugestão, de ordem crítico-pessoal, é que todos os profissionais e pesquisadores envolvidos com a educação leiam o livro O Professor Pesquisador. Bortoni-Ricardo conseguiu reunir nessa obra o critério científico e a prática pedagógica, interligando o pesquisador ao objeto pesquisado e demonstrando que a pesquisa é parte inerente do ser humano, por ser este um agente social rodeado de práticas que incessantemente o convidam ao escrutínio.

 

Referências:

DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (2005). Introduction: the discipline and practice of qualitative research. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (orgs.). The Sage Handbook of Qualitative Research. 3ed. Thousand Oaks, London, New Delhi: Sage. pp. 1-32.

 

HEATH, S. B. (1983). Ways with Words: language, life, and work in communities and classrooms. Cambridge: Cambridge University Press.

 

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Revisitando os contínuos de urbanização, letramento e monitoração estilística na análise do português do Brasil

Profa. Stella Maris Bortoni-Ricardo (UnB)

Universidade de Brasília

(In Dietrich, W. e Noll V. (orgs.) O Português do Brasil – perspectivas da pesquisa atual. Frankfurt:VervuertIberamerciana, 2004, p.195-201

 

Em outubro de 1997 apresentei o texto “A Análise do Português Brasileiro em Três continua: o continuum rural-urbano, o continuum de oralidade-letramento e o continuum de monitoração estilística” , no Colóquio Internacional Substandard e Mudança no Português do Brasil, no Instituto Ibero-Americano de Berlim. O texto foi publicado em 1998 na antologia que recebeu o mesmo nome do Colóquio e foi organizada por Sybille Grosse e Klaus Zimmermann e editada pela Editora TFM., Frankfurt am Main . Recentemente, em 2002, foi republicado na Antologia Lingüística da Norma, organizada por Marcos Bagno e editada pela Edições Loyola, São Paulo. Logo depois foi incluído também no meu livro Nós cheguemu na escola, e agora? , publicado pela Parábola Editorial, em 2005.

 

Nesta oportunidade procuro aperfeiçoar alguns dos conceitos ali avançados e testar a viabilidade do modelo na caracterização do perfil sociolinguístico de brasileiros.

 

A metodologia de três contínuos se propõe a captar mais fielmente as especificidades da variação na comunidade de fala brasileira e surge como uma alternativa para análises dicotômicas: como português padrão x não-padrão; norma culta x norma não-culta etc.

 

No contínuo de urbanização, que se estende desde as variedades rurais geograficamente isoladas, conhecidas genericamente como dialeto caipira, até a variedade urbana, que passou pelos processos históricos de padronização, pode-se situar qualquer falante em função da região onde nasceu e foi criado, sua história social e sua rede de relacionamentos. Enfim, neste primeiro contínuo trabalhamos com os atributos sociodemográficos e socioecológicos do falante.

 

Já no segundo contínuo, de oralidade e letramento, o foco não é o falante, mas as práticas sociais – orais ou letradas. Quando falamos em práticas sociais de letramento, levamos em conta, principalmente, os textos que são significativos para a comunidade, bem como os seus modos de produção e de circulação ( Ver Kleiman e  Signorini, 2000). No terceiro contínuo, de monitoração estilística, podemos aferir a dimensão sociocognitiva do processo interacional, em particular o grau de atenção e de planejamento que o falante confere à situação de fala.

 

O grau de atenção e de planejamento está relacionado a vários fatores, tais como:

a) a acomodação do falante ao seu interlocutor;

b) o apoio contextual na produção dos enunciados;

c) a complexidade cognitiva envolvida na produção lingüística e

d) a familiaridade do falante com a tarefa comunicativa que está sendo desenvolvida.

 

Na produção do estilo monitorado oa falante presta mais atenção à sua fala. Esse estilo geralmente caracteriza-se pela maior complexidade cognitiva do tema abordado. Se oa falante tiver um maior grau de apoio contextual, bem como maior familiaridade com a tarefa comunicativa, poderá desempenhar-se no estilo monitorado com menor pressão comunicativa. A pressão comunicativa aumenta quando o apoio contextual é menor e a temática mais complexa.

 

Nesta revisita ao tema queremos, em primeiro lugar, discutir a noção de urbanização. A sociologia tradicional no Brasil enfatiza as características rurais da sociedade brasileira e nossa urbanização tardia e desordenada. Nossa urbanização é desordenada porque, ao contrário do que aconteceu no Primeiro Mundo, no Brasil e em outros países periféricos a urbanização não foi precedida pela industrialização, como nos países onde a revolução industrial teve início no século XVIII. Até início do século XX, o Brasil é considerado um país rural.  Para citar apenas alguns exemplos de textos sociológicos que se detêm sobre a vocação agrária do Brasil, lembremos Antônio Cândido, 1964, Os Parceiros do Rio Bonito; Sérgio Buarque de Holanda, 1936, Raízes do Brasil, em especial o capítulo “Herança rural”; Darcy Ribeiro, 1995, O Povo Brasileiro, em especial a seção “O Brasil caipira”; Ruben Oliven, 1982, Urbanização e Mudança Social no Brasil, entre outros.

 

Em meu trabalho com migrantes rurais radicados na periferia de Brasília (Bortoni-Ricardo, 1985), mostrei como a população de origem rural que vive à margem do sistema de produção mantém características culturais pré-migratórias. Sua inserção na cultura urbana é gradual e depende, em grande escala, de sua rede de relações sociais e de sua familiarização com práticas sociais de letramento.

 

O último censo do IBGE em 2000 mostrou que a população rural do Brasil em 35 anos caiu de 50% para 19% do total de 175 milhões de brasileiros. O professor da USP, José Eli da Veiga, no livro “Cidades Imaginárias” de 2002, contesta esses dados, que decorrem, segundo ele, de critérios equivocados empregados pelo próprio IBGE. O equívoco na metodologia censitária tem origem em um decreto do Estado Novo de 1938, que considera área urbana toda sede de município ou distrito, independentemente do tamanho e das características das atividades produtivas de sua população.

Eli da Veiga argumenta que os parâmetros da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) são mais adequados que a metodologia oficial do IBGE. Segundo a OCDE, para um município ser considerado urbano, teria de apresentar uma densidade demográfica de 150 habitanteskm² e uma população nunca menor que 50 mil habitantes. Se aplicados esses  parâmetros,  os 5.507 municípios brasileiros considerados urbanos passariam a 411.

 

Além desses critérios demográficos, pesquisas como a de Oliven (1982) e o nosso próprio trabalho com migrantes rurais apontam também para outros critérios de natureza cultural, no caso do primeiro e de natureza sociolinguística, no caso do segundo, na aferição do grau de urbanização de uma comunidade. Nesse contexto, o conceito de “rurbano” para definir populações rurais com razoável integração com a cultura urbana e populações urbanas com razoável preservação de seus antecedentes rurais torna-se muito operacional.

 

Continuando esta revisita à metodologia dos três contínua, vamos examinar como ela nos pode ser útil na descrição de falantes de português brasileiro, tomando para tanto um falante em especial. Trata-se de um brasileiro de 57 anos, nascido na área rural de um município do estado de Pernambuco. Cursou cinco anos do ensino fundamental e três anos de ensino profissionalizante no SENAI. Sua profissão atual é de presidente do Brasil e seu nome é Luiz Inácio Lula da Silva.[1]

 

Pelos seus antecedentes e história de vida, localiza-se no polo rurbano do primeiro contínuo. Segundo ele próprio sua família é cabocla, mestiça de índio. Seu pai era lavrador, na lida com a agricultura de subsistência, até deixar o sertão para tentar a sorte em São Paulo.

 

Em relação ao segundo contínuo dedicado às praticas sociais de letramento, verificamos que, no caso da maioria de crianças e jovens de zona urbana, a familiarização com as práticas de letramento dá-se, prioritariamente, pela escolarização formal, embora nesses estratos sociais tais práticas permeiem também outros domínios sociais em que esses indivíduos convivem.

Em se tratando de um migrante de origem rural, seu contato com tais práticas não é previsível: depende de sua história social. Vejamos o caso de Lula. Aos 7 anos migra com a mãe e sete irmãos para o litoral paulista e vai viver num bairro proletário da cidade de Guarujá – SP, próxima a Santos. Ali começa a trabalhar na economia informal vendendo tapioca, amendoim e laranja nas ruas junto com o irmão mais velho. Embora vivesse fisicamente em zona urbana, sua comunidade proletária  constitui o que estamos denominando “rurbana”.  Não obstante as condições difíceis de sobrevivência, a mãe o mantém na escola, onde ele permanece até a quinta série.

 

De Santos mudam-se para São Paulo, capital, e aos 11 anos já havia trabalhado numa tinturaria, como engraxate e office boy. Nessas atividades profissionais, somente na último, como office boy, vai ter algum contato com práticas sociais letradas.  Aos 14 anos realiza o sonho de sua mãe e consegue uma vaga no curso de torneiro mecânico do SENAI, que durou três anos. Tem início então para ele um contato mais sistemático com a cultura de letramento.

Mas é no interior do universo sindical que Lula começa, a rigor, a participar de práticas letradas. Seu irmão mais velho, conhecido pelo apelido de Frei Chico, operário ligado ao Partido Comunista Brasileiro, insistia que ele lesse os boletins clandestinos distribuídos dentro da fábrica. Em 1972 torna-se membro efetivo da diretoria do Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, do qual é eleito presidente em 1975. Nessa condição começou a falar em público, ao início com muita insegurança. Essa informação nos permite aferir  o seu processo de monitoração estilística, objeto do terceiro continuum na metodologia que estamos analisando. Nesse mesmo ano dá a primeira entrevista à imprensa para o Semanário Gazeta de São Bernardo. Ainda em 1975 viaja para o Japão.  No ano seguinte negociou diretamente com o Tribunal Superior do Trabalho as reivindicações salariais de sua categoria. Podemos imaginar, à luz dos parâmetros com que trabalhamos no contiuum de monitoração estilística, a pressão comunicativa que incide sobre um líder operário na interação face a face com os desembargadores da mais alta corte da justiça trabalhista do país. Podemos também considerar  o aprendizado que tal experiência representou na vida  de um líder sindical em início de carreira, em termos de aquisição de recursos comunicativos e de familiarização com tarefas comunicativas complexas. À medida que se iam ampliando seus papéis sociais, igualmente se ampliavam e se diversificavam as práticas de letramento em que se via envolvido. Como líder sindical passou a valer-se dos dados estatísticos do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

 

Na campanha de reposição salarial em 1977 apoiou-se na denúncia do Banco Mundial, divulgada pelo jornalista e correspondente internacional Paulo Francis, de que o Governo Brasileiro havia falsificado os índices de custo de vida e de inflação em 1972, 1973 e 1974. Os trabalhadores estavam recebendo 18% de reajustes enquanto deveriam receber 35%. Isso mostra que Lula tinha acesso a uma literatura especializada, variada e atualizada.  O número e a condição de seus interlocutores no Brasil e no exterior iam-se ampliando,  incluindo aí muitas autoridades religiosas, artistas e intelectuais. Entre esses últimos cabe referência à atriz e sindicalista Lélia Abramo, que, segundo suas próprias declarações, assessorava Lula nos aspectos linguísticos e formais de seus discursos e entrevistas.

 

O passo seguinte foi a criação do Partido dos Trabalhadores no início da década de 80, tarefa que implica familiarização com textos legais, estatutos e outros documentos afins.  Em 1981 visitou nove países europeus para conhecer seus sistemas sindicais.

 

Em 1986 foi eleito deputado federal constituinte. Na condição de parlamentar começou a participar de práticas sociais letradas e a ter acesso a gêneros textuais específicos da vida político-partidária. O âmbito de sua experiência no universo da política nacional seria muito ampliado nas quatro campanhas para a presidência da república de que participou.

 

Vendo frustradas suas tentativas de chegar à presidência de república três vezes, criou e passou a coordenar o Instituto Cidadania, um centro de estudos, pesquisas, debates, publicações e formulações de propostas de políticas públicas. Nesse instituto convivia com muitos acadêmicos brasileiros.

 

Nas campanhas em que foi derrotado sofria muitas críticas por não ter um bom domínio da chamada língua culta. É notável o seu esforço de monitoração – e aí  cabe referência, novamente,  ao terceiro contínuo , quando se examinam suas falas,  principalmente nesta última campanha vitoriosa e nas suas recentes elocuções formais já na condição de presidente da república.

 

Com essa sintética biografia do atual presidente do Brasil pretendemos ilustrar a funcionalidade da metodologia que propusemos para a análise do português brasileiro mediante a adoção dos três contínuos. Em especial pretendemos demonstrar que os antecedentes rurais ou rurbanos de qualquer indivíduo deverão ser devidamente considerados na análise de seu repertório sociolinguístico. No entanto, o próprio conceito de ruralidade está a merecer uma análise mais rigorosa.

 

O objetivo principal deste trabalho foi argumentar que, a par dos antecedentes sociodemográficos, a história social dos indivíduos, e muito especialmente a sua inserção na cultura letrada, seja via escolarização formal, seja por vias transversas, mas igualmente eficientes, é determinante de seu desempenho sociolinguístico. Numa sociedade como a brasileira, em que a língua padrão é claramente associada à classe social de prestígio e não simplesmente ao contexto, como ocorre em comunidades europeias de seculares tradições democráticas, na distribuição da renda e dos bens culturais, uma criança pobre, de antecedentes rurais só poderá ter alguma oportunidade se for introduzida à cultura letrada por meio do processo escolar a menos que, por uma conjunção quase mágica de talento, esforço pessoal e circunstâncias políticas, o letramento vá até ela e ela se torne um brasileiro ou uma brasileira que alcance a cidadania dominando os modos prestigiosos de falar. Assim, pode ser até que essa criança chegue a ser presidente da república.

 

 

Bibliografia:

 

Bortoni-Ricardo, Stella Maris. 1985. The Urbanization of Rural Dialect Speakers. Cambridge: Cambridge University Press.

 

Buarque de Holanda, Sérgio. 1936. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia da Letras.

 

Cândido, Antônio. 1964. Os parceiros do Rio Bonito. Rio de Janeiro: José Olympio.

 

Kleiman, Ângela e Inês Signorini . 2000 “Concepções  de escrita  e alfabetização   de jovens e adultos” Pátio, n° 4, p. 54-56

 

Kleiman, Ângela e Inês Signorini  (orgs.). 2000 O ensino e a formação do professor. Porto Alegre: Artes Médicas

 

Morel, Mário. 1981. Lula  - O metalúrgico – Anatomia de uma liderança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

 

Oliven, Ruben. 1982. Urbanização e Mudança Social no Brasil. Petrópolis: Vozes.

Ribeiro, Darcy. 1995. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia da Letras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Revisitando os contínuos de urbanização, letramento e monitoração estilística na análise do português do Brasil

Profa. Stella Maris Bortoni-Ricardo (UnB)

Universidade de Brasília

(In Dietrich, W. e Noll V. (orgs.) O Português do Brasil – perspectivas da pesquisa atual. Frankfurt:VervuertIberamerciana, 2004, p.195-201

 

Em outubro de 1997 apresentei o texto “A Análise do Português Brasileiro em Três continua: o continuum rural-urbano, o continuum de oralidade-letramento e o continuum de monitoração estilística” , no Colóquio Internacional Substandard e Mudança no Português do Brasil, no Instituto Ibero-Americano de Berlim. O texto foi publicado em 1998 na antologia que recebeu o mesmo nome do Colóquio e foi organizada por Sybille Grosse e Klaus Zimmermann e editada pela Editora TFM., Frankfurt am Main . Recentemente, em 2002, foi republicado na antologia Lingüística da Norma, organizada por Marcos Bagno e editada pela Edições Loyola, São Paulo.

 

Nesta oportunidade procuro aperfeiçoar alguns dos conceitos ali avançados e testar a viabilidade do modelo na caracterização do perfil sociolingüístico de brasileiros.

 

A metodologia de três contínuos se propõe a captar mais fielmente as especificidades da variação na comunidade de fala brasileira e surge como uma alternativa para análises dicotômicas: como português padrão x não-padrão; norma culta x norma não-culta etc.

 

No contínuo de urbanização, que se estende desde as variedades rurais geograficamente isoladas, conhecidas genericamente como dialeto caipira, até a variedade urbana, que passou pelos processos históricos de padronização, pode-se situar qualquer falante em função da região onde nasceu e foi criado, sua história social e sua rede de relacionamentos. Enfim, neste primeiro contínuo trabalhamos com os atributos sociodemográficos e socioecológicos do falante.

 

Já no segundo contínuo, de oralidade e letramento, o foco não é o falante, mas as práticas sociais – orais ou letradas. Quando falamos em práticas sociais de letramento, levamos em conta, principalmente, os textos que são significativos para a comunidade, bem como os seus modos de produção e de circulação ( Ver Kleiman e  Signorini, 2000). No terceiro contínuo, de monitoração estilística, podemos aferir a dimensão sociocognitiva do processo interacional, em particular o grau de atenção e de planejamento que o falante confere à situação de fala.

 

O grau de atenção e de planejamento está relacionado a vários fatores, tais como:

a) a acomodação do falante ao seu interlocutor;

b) o apoio contextual na produção dos enunciados;

c) a complexidade cognitiva envolvida na produção lingüística e

d) a familiaridade do falante com a tarefa comunicativa que está sendo desenvolvida.

 

Na produção do estilo monitorado oa falante presta mais atenção à sua fala. Este estilo geralmente caracteriza-se pela maior complexidade cognitiva do tema abordado. Se oa falante tiver um maior grau de apoio contextual, bem como maior familiaridade com a tarefa comunicativa, poderá desempenhar-se no estilo monitorado com menor pressão comunicativa. A pressão comunicativa aumenta quando o apoio contextual é menor e a temática mais complexa.

 

Nesta revisita ao tema queremos, em primeiro lugar, discutir a noção de urbanização. A sociologia tradicional no Brasil enfatiza as características rurais da sociedade brasileira e nossa urbanização tardia e desordenada. Nossa urbanização é desordenada porque, ao contrário do que aconteceu no Primeiro Mundo, no Brasil e em outros países periféricos a urbanização não foi precedida pela industrialização, como nos países onde a revolução industrial teve início no século XVIII. Até início do século XX, o Brasil é considerado um país rural.  Para citar apenas alguns exemplos, de textos sociológicos que se detêm sobre a vocação agrária do Brasil lembremos Antônio Cândido, 1964, Os Parceiros do Rio Bonito; Sérgio Buarque de Holanda, 1936, Raízes do Brasil, em especial o capítulo “Herança rural”; Darcy Ribeiro, 1995, O Povo Brasileiro, em especial a seção “O Brasil caipira”; Ruben Oliven, 1982, Urbanização e Mudança Social no Brasil, entre outros.

 

Em meu trabalho com migrantes rurais radicados na periferia de Brasília (Bortoni-Ricardo, 1985), mostrei como a população de origem rural que vive à margem do sistema de produção mantém características culturais pré-migratórias. Sua inserção na cultura urbana é gradual e depende, em grande escala, de sua rede de relações sociais e de sua familiarização com práticas sociais de letramento.

 

O último censo do IBGE em 2000 mostrou que a população rural do Brasil em 35 anos caiu de 50% para 19% do total de 175 milhões de brasileiros. O professor da USP, José Eli da Veiga, no livro “Cidades Imaginárias” de 2002 contesta esses dados, que decorrem, segundo ele, de critérios equivocados empregados pelo próprio IBGE. O equívoco na metodologia censitária tem origem em um decreto do Estado Novo de 1938, que considera área urbana toda sede de município ou distrito, independentemente do tamanho e das características das atividades produtivas de sua população.

Eli da Veiga argumenta que os parâmetros da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) são mais adequados que a metodologia oficial do IBGE. Segundo a OCDE, para um município ser considerado urbano, teria de apresentar uma densidade demográfica de 150 habitanteskm² e uma população nunca menor que 50 mil habitantes. Se aplicados esses  parâmetros, os 5.507 municípios brasileiros considerados urbanos, os 5.507 municípios brasileiros considerados urbanos passariam a 411.

 

Além desses critérios demográficos, pesquisas como a de Oliven (1982) e o nosso próprio trabalho com migrantes rurais apontam também para outros critérios de natureza cultural, no caso do primeiro e de natureza sociolingüística, no caso do segundo, na aferição do grau de urbanização de uma comunidade. Nesse contexto, o conceito de “rurbano” para definir populações rurais com razoável integração com a cultura urbana e populações urbanas com razoável preservação de seus antecedentes rurais torna-se muito operacional.

 

Continuando esta revisita à metodologia dos três contínua vamos examinar como ela nos pode ser útil na descrição de falantes de português brasileiro, tomando para tanto um falante em especial. Trata-se de um brasileiro de 57 anos, nascido na área rural de um município do estado de Pernambuco. Cursou cinco anos do ensino fundamental e três anos de ensino profissionalizante no SENAI. Sua profissão atual é de presidente do Brasil e seu nome é Luiz Inácio Lula da Silva.[1]

 

Pelos seus antecedentes e história de vida, localiza-se no pólo rurbano do primeiro contínuo. Segundo ele próprio sua família é cabocla, mestiça de índio.

Categoria pai: Seção - Notícias

Artigo para Livro Comemorativo ABRALIN 40 anos

 

Título: Sociolingüística Educacional

Autoras: Stella Maris Bortoni-Ricardo e Vera Aparecida de Lucas Freitas

In  Hora, D. et alii (orgs.) Abralin – 40 anos em cena. João Pessoa: Editora Universitária, 2009, p. 217-240

 

É natural que em um país com graves problemas sociais, relacionados à histórica má distribuição de renda e à parca tradição de cultura letrada, como é o caso brasileiro, as ciências sociais tenham desenvolvido aqui um viés aplicado às questões socioculturais. A lingüística não fugiu a essa regra.

Desde a segunda metade do século XX, nos estágios formativos da ciência lingüística no Brasil, os pesquisadores pioneiros apontaram para a necessidade de seus estudos assumirem um compromisso com os problemas lingüísticos brasileiros tais como a documentação das línguas brasileiras; a descrição de línguas sobreviventes em comunidades de imigrantes; as características e o status da norma brasileira da língua portuguesa e o ensino dessa norma nas escolas do país. Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1957), não obstante seu intenso labor para produzir os primeiros textos de lingüística descritiva do português brasileiro, encontrou tempo para examinar erros escolares, associando-os às características do português falado no Rio de Janeiro, em trabalho que deixa patente a vocação da lingüística nacional para o envolvimento com a questão do ensino do português como língua materna no Brasil.

            Na década de 1960, Rodrigues (1966) produz um artigo, hoje antológico, sobre as tarefas da lingüística no Brasil. Na década seguinte, Vandresen (1973) retoma o tema, dessa vez enfocando as tarefas da sociolingüística. Em ambos os trabalhos, é enfatizado o compromisso da lingüística brasileira com o ensino sistemático da língua portuguesa no país.

            A evolução de duas premissas básicas da lingüística estruturalista do século XX criou as condições para a emergência do ramo da lingüística que veio a ser denominado sociolingüística, graças ao seu caráter interdisciplinar. As duas premissas são o relativismo cultural e a heterogeneidade inerente e ordenada na língua de qualquer comunidade de fala. O primeiro foi herdado da tradição antropológica, segundo a qual nenhuma cultura ou língua de uma comunidade deveria ser classificada como inferior ou subdesenvolvida, independentemente do nível de tecnologia ocidental que aquela comunidade já tivesse atingido. Com base nesse princípio, os lingüistas nos Estados Unidos propuseram a “equivalência funcional e a igualdade essencial de todas as línguas e rejeitaram estereótipos evolutivos equivocados” (HYMES, 1974, p. 70).

            Num primeiro momento, o conceito de relativismo cultural aplicou-se à comparação entre línguas, mas quando a premissa da heterogeneidade inerente foi postulada pela sociolingüística variacionista, no final dos anos 1960, esse conceito passou a aplicar-se também às múltiplas variedades e estilos de uma mesma língua (BORTONI-RICARDO, 1997).

            Desde o seu berço a Sociolingüística, tanto na sua vertente variacionista quanto na sua vertente qualitativa, demonstrou preocupação com o desempenho escolar de crianças provenientes de diferentes grupos étnicos ou redes sociais. Desde então muito tem contribuído para os avanços na pesquisa das questões educacionais em diversos países do mundo, principalmente nas últimas quatro décadas. O objetivo tem sido o de construir novas metodologias que auxiliem professores a desenvolver em seus alunos as habilidades cognitivas necessárias a uma aprendizagem mais ampla, à expansão de sua competência comunicativa (HYMES, 1974) e à capacidade de desempenhar tarefas escolares cotidianas. Entretanto, essa não é uma missão fácil porque tratar de problemas educacionais é uma ação que envolve questões mais abrangentes e não apenas aquelas restritas ao ambiente escolar. Além das consideradas como puramente pedagógicas, existem outras que estão subordinadas a dimensões macro-sociais graves, relacionados à desigualdade na distribuição do capital monetário, que por sua vez gera a desigualdade social (FREITAS, 1996).

            Paralelamente à evolução da sociolingüística quantitativa já referida, estudiosos da antropologia da educação e lingüistas, na década de 1960, começam a constatar, por meio de pesquisas etnográficas, o acentuado etnocentrismo existente nas teorias que tentavam explicar a causa do fracasso escolar de alunos provenientes de classes sociais minoritárias ou trabalhadoras. Entre essas teorias, a mais habitualmente usada como explicação do insucesso do aluno foi a do deficit genético ou ideologia do dom, que defende como causa do fracasso escolar as desigualdades naturais de aptidão e de inteligência entre os indivíduos, ponto de vista esse legitimado pela psicologia diferencial e pela psicometria, e que Soares (1986) considera ser um argumento dissimulado subjacente a um discurso que “pretende” ser científico.

A essa explicação seguiu-se outra, a teoria do deficit cultural, intimamente relacionada aos fatores ambientais, ao estímulo recebido pelo indivíduo e à alimentação. A teoria do deficit cultural, também chamada do deficit verbal ou social, foi largamente aceita na época de sua concepção. Postulava uma ausência ou falta de cultura dos alunos pertencentes a grupos minoritários da sociedade, causada pelo ambiente cultural “empobrecido” em que viviam eles e suas famílias, também considerado cognitivamente desestimulante, principalmente, no que dizia respeito à linguagem. O fracasso do aluno, de acordo com esse pensamento, teria origem no seu background cultural. As diferenças entre a linguagem e as experiências que a criança traz de casa e a linguagem e experiências demandadas pela escola resultariam no insucesso do aluno. De acordo com essa teoria, as crianças de classes sociais desfavorecidas sofriam privações que poderiam ser de ordem material ou cultural. Crianças oriundas de meios em que as famílias sofriam as conseqüências do desemprego, da pobreza e da superpopulação eram as que mais sofriam o risco de fracassar na escola (STUBBS, 1980). As crianças pobres eram consideradas inferiores intelectual e moralmente. O meio ambiente e o background lingüístico do aluno estariam, portanto, relacionados ao seu sucesso ou fracasso na vida escolar. Erickson (1987) comenta, considerando os argumentos da teoria do deficit cultural, que o conceito de nutrição (nurture) substituiu o conceito de natureza (nature) como principal razão para o fracasso escolar. Ambas as teorias deixavam nítido o preconceito de raça e de cultura, embora essa postura não tenha sido claramente assumida pelos seus mentores. William Labov (1972), com o objetivo de argumentar contrariamente a essas teorias, realizou estudos dialetais contrastivos, mostrando que a variação é um fator inerente à língua. Entretanto, muitas foram as críticas que apontavam a proposta da Sociolingüística educacional como limitada a uma dimensão micro-social, ingênua e simplista, tendo sido a crítica de John Ogbu (ERICKSON, 1987), a mais severa de todas. Erickson conclui que a continuidade das investigações no final da década de 1960 permitiu que antropólogos norteados por uma visão sociolingüística identificassem no âmbito da escola importantes fatores que influenciam o rendimento escolar e o ânimo dos alunos. Ou seja, que o estilo de comunicação entre professores e alunos pode ser uma das causas do fracasso escolar. Essa posição tinha um aspecto de neutralidade, pois procurava analisar o fato do fracasso escolar sem buscar culpados e mostrava uma nova forma de interpretá-lo.

            Sabe-se hoje que o fracasso escolar depende também de fatores externos, que estão fortemente ligados às condições socioeconômicas do aluno. O resultado das injustiças sociais e as limitadas possibilidades de ascensão social a que estão sujeitos os indivíduos que não conseguem uma educação de qualidade manifesta-se por meio de um desinteresse pelas atividades intelectuais e pelo desestímulo em relação a tudo que a escola propõe.          

A teoria da reprodução (Bourdieu e Passeron, 1975) postula que a escola reproduz as relações do sistema capitalista, enfatizando a relação existente entre ela e a organização do trabalho e afirmando que essa instituição estaria reproduzindo em seu contexto as desigualdades estabelecidas pela sociedade. O foco da teoria é analisar de que forma o capital cultural estaria influenciando contextos particulares, como, por exemplo, a escola. Destacam-se nessa teoria a valorização das ações humanas e as relações reflexivas das interações sociais como duas importantes contribuições dadas pelos estudos interpretativistas de natureza sociolingüística à questão educacional.                 

            Embora algumas críticas tendam a apontar a sociolingüística como algo voltado apenas para a micro-realidade de sala de aula, é notório que isso verdadeiramente não ocorre. O que a Sociolingüística faz é buscar respostas para questões educacionais dentro do universo da escola. Com isso, ela envolve-se em temas consideravelmente mais amplos que se inserem no contexto social maior, conciliando os aspectos micro e macro do processo. E é para esse contexto que a escola deve preparar o indivíduo.

Os ecos do envolvimento da Sociolingüística variacionista e interacionista com os problemas educacionais nos países do Norte chegariam rapidamente ao Brasil. Suas primeiras manifestações podem ser encontradas no empenho dos estudiosos em refutar o chamado preconceito lingüístico e em recomendar que a língua efetivamente usada nas comunidades de fala fosse considerada na pedagogia da língua materna. O estado de São Paulo foi pioneiro na difusão dessas idéias. Em 1978, Ataliba Castilho et alii produzem para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo publicações relevantes como subsídios à proposta curricular de língua portuguesa para o segundo grau.

Na década seguinte uma grande quantidade de livros foi publicada, dando continuidade às propostas educacionais de bases lingüísticas, entre os quais, queremos ressaltar, muitos tiveram seu fulcro nas teorias sociolingüísticas. Mencionaremos aqui apenas os títulos que serviram de fundamento para a proposta curricular no Distrito Federal no início dos anos 80, mesmo correndo o risco de produzirmos uma listagem com muitas lacunas, pelo que já nos penitenciamos. Na área de alfabetização, citamos Eglê Franchi (1984) e Paulo Freire (1982); no ensino da leitura e escrita para séries posteriores, constavam da referida proposta João Wanderley Geraldi (org., 1984), Rodolfo Ilari (1985), Mary Kato (1985), Alcir Pécora (1983). Voltados especialmente para a leitura tivemos Marisa Lajolo (1982), Maria Helena Martins (1983), Ezequiel Theodoro da Silva (1983) e Regina Zilberman (org., 1982). Alguns autores ocuparam-se em especial com o ensino da gramática: Evanildo Bechara (1985), Celso Pedro Luft (1985) e Mário Alberto Perini (1985), enquanto outros trataram da questão de uma perspectiva filosófica: Maurizzio Gnerre (1985) e Magda Soares (1986).

À medida que chegavam ao mercado editorial obras com recomendações importantes para o aprimoramento do ensino da língua portuguesa nas escolas brasileiras, pôde-se observar a ocorrência de algumas mudanças de postura, em especial um esforço dos livros didáticos para substituir a excessiva ênfase na terminologia gramatical pelo tratamento da língua em uso, embora ainda haja muito que fazer para tornar mais eficiente o trabalho pedagógico com a leitura e a escrita nas nossas escolas.

Há que se chamar atenção especialmente para um fenômeno bem brasileiro. Os cursos de Letras têm sido razoavelmente ágeis na inclusão dos resultados da pesquisa lingüística em seus currículos, mas esses cursos geralmente não se ocupam da formação do professor das séries iniciais, nem tampouco do alfabetizador. Seu foco tem sido a formação de professores para as séries conclusivas do ensino fundamental e para o ensino médio. A formação do alfabetizador e do professor das séries iniciais fica a cargo dos cursos de Pedagogia e Normal Superior, este último implantado somente na última década. Em alguns estados brasileiros ainda existem os cursos de magistério de nível médio, mas em outros a formação que esses cursos forneciam hoje está sendo realizada em nível superior. No entanto, os cursos superiores responsáveis pela formação dos alfabetizadores e professores de séries iniciais incluem em seus currículos muito pouca informação lingüística. O resultado é que a pesquisa resultante dos estudos da linguagem acaba por ser pouco aproveitada, justamente na tarefa de alfabetização e no ensino inicial da leitura e da escrita, o que em parte poderia explicar os resultados tão ruins que a sociedade brasileira vem colhendo, com a aplicação de exames como o SAEB, a Prova Brasil, o SARESP, o PISA, entre outros. Estamos sugerindo aqui que a aplicação dos resultados da pesquisa lingüística, e particularmente da pesquisa sociolingüística, no esforço de formação de professores do ensino fundamental poderia contribuir efetivamente para a qualidade dessa formação, o que haveria de refletir-se gradualmente no desempenho de nossos alunos.

É interessante observar ainda que os programas recentes de educação continuada dos docentes, de iniciativa do Ministério da Educação e de secretarias municipais e estaduais de educação, como o Praler e o Pró-letramento, entre outros, têm-se preocupado mais em transmitir aos professores noções de lingüística que os cursos de formação inicial. O seguinte fragmento do fascículo “Da fala para a escrita 2”, de autoria de Stella Bortoni, que compõe o módulo 1 do Programa de Alfabetização e Linguagem da Rede Nacional de Formação Continuada de Professores (MEC SEB UnB, 2007) é bem ilustrativo dessa tendência. “Toda vez que duas ou mais pessoas se envolvem numa interação verbal, cada uma delas cria expectativas sobre a forma como ela própria e seus interlocutores vão-se comportar. Queremos dizer que, em uma interação face a face, ou mesmo mediada pelo telefone ou pelo computador, todas as pessoas envolvidas seguem normas sociais que definem o seu comportamento, particularmente o seu comportamento lingüístico. Se todas elas consideram a interação em que estão envolvidas como informal, tenderão a empregar formas lingüísticas adequadas às interações informais. Se uma delas tiver uma interpretação diferente e considerar a situação como formal, poderá vir a empregar formas inadequadas para a situação. Da mesma maneira, em uma situação formal, se um interlocutor escolher usos lingüísticos informais, sua fala resultará inadequada para a situação. Mas veja bem: às vezes uma pessoa reconhece que a situação é formal, dispõe-se a monitorar-se, mas lhe faltam recursos comunicativos próprios da fala monitorada. É por isso que a escola precisa empenhar-se na ampliação dos recursos comunicativos dos alunos. Dispondo de uma gama mais ampla de recursos comunicativos, os alunos, sempre que precisarem e desejarem, saberão monitorar sua fala, ajustando-se às expectativas de seus interlocutores e às normas sociais que determinam como as pessoas devem comportar-se em cada situação. Ao fazer isso estão seguindo normas sociais e serão bem recebidos pelos seus interlocutores. Lembre-se de que as normas sociais que definem um comportamento lingüístico adequado podem ser implícitas, isto é, fazem parte das crenças e dos valores que as pessoas têm. Mas podem ser explícitas também. É o caso das normas gramaticais, que são explícitas.  Mas não podemos nos esquecer de que as gramáticas normativas não admitem flexibilidade. Não levam em conta a noção de adequação. São prescritivas: abonam uma forma considerada correta e rejeitam as que são consideradas ‘erro’”.

           

A realidade e a prática em sala de aula têm mostrado que a Sociolingüística voltada para a educação pode contribuir de forma significativa para melhorar a qualidade do ensino da língua materna em cursos de formação de professores alfabetizadores porque trabalha com os fenômenos da língua em uso, com base na relação língua e sociedade e voltada para a realidade dos alunos.

Licenciandos em cursos de Pedagogia que recebem formação sociolingüística estão mais bem preparados para lidar com o ensino da língua materna, pois se tornam mais eficientes como mediadores e co-construtores do conhecimento lingüístico necessários aos alunos para sua participação nas práticas sociais que acontecem na escola e na sociedade.

No restante do capítulo vamos analisar fragmentos coletados pelas autoras deste texto, em um exercício em que alunos do curso de Pedagogia da Universidade de Brasília refletem sobre fenômenos presentes nos modos de falar e nos modos de escrever o português do Brasil. As análises realizadas por esses estudantes, que tiveram acesso a conhecimentos sobre ensino de língua, a partir da perspectiva da sociolingüística, demonstram um saber e uma capacidade de análise de textos de crianças em início do processo de alfabetização que não lhes teriam chegado de forma sistemática sem a contribuição da Sociolingüística, como, por exemplo: identificação de regras variáveis da língua portuguesa, de erros ortográficos oriundos da transposição para a escrita de fenômenos da fala, de erros ortográficos decorrentes do pouco domínio que a criança alfabetizanda possa ter em relação às convenções do sistema ortográfico da língua, além de noções de monitoração estilística e do conceito de competência comunicativa, entre outros aspectos importantes.

 

Análises sobre o texto de Marcelo, 7 anos, 2ª série.

Os exemplos de análises referentes ao texto seguinte mostram que os pedagogos em formação já aprenderam, nas noções de fonologia supra-segmental, com base em Mattoso Câmara Jr (1970, p. 63), que o acento em português tem tanto a função distintiva quanto a delimitativa. Numa seqüência de vocábulos sem pausa, num mesmo grupo de força, pode-se depreender no vocábulo fonológico a alofonia das vogais médias e e o em sílabas pré-tônicas ou átonas finais (BORTONI-RICARDO, 2006). Mesmo não dispondo de terminologia técnica mais precisa, demonstram que estão alerta para a grafia de monossílabos átonos que antes não lhes parecia constituir um problema potencial na aprendizagem da escrita, já que sua estrutura silábica é a canônica, CV, ou apenas uma vogal,  geralmente consideradas de menor dificuldade.

 

“O papagaio i a jibóia

O papagaio tava passeando na floresta e quando a jibóia apareceu e o papagaio gritou aaaaaaaa!!!  e ele siu voando e ele contou para o amigo”

 

Trata-se de uma criança que está sendo inserida na cultura de letramento, pois já domina alguns conceitos previstos na gramática normativa, como a acentuação da palavra jibóia. Porém, esse domínio ainda é limitado, tendo em vista que escreveu a conjunção “e” com a letra “i” que reflete melhor a sua pronúncia.

É visível no texto do Marcelo da 2ª série que sua competência na língua escrita é bastante desenvolvida para uma criança de sua idade, mas ainda precisa ser trabalhada para que ele possa superar alguns equívocos, como, por exemplo, a troca da letra “e” pela letra “i”

Nesse trecho Marcelo reproduziu o padrão de sua pronúncia na escrita,  escrevendo a conjunção “e” da forma como a pronuncia. Em “O papagaio tava passeando na floresta...” grafou a forma verbal “passeando” de acordo com as normas ortográficas, recuperando o segmento “d” que normalmente não aparece na sua pronúncia.

“O papagaio i a jibóia”. Nesse trecho podemos notar que o aluno tem um bom domínio da escrita, tendo em vista sua série. Ele escreve de acordo com a expectativa da norma escrita as palavras “papagaio” e “jibóia”. Além disso, tem domínio sobre as regras de acentuação, como podemos notar na palavra jibóia. Porém, o aluno demonstra não conhecer ou não ter domínio da forma escrita da conjunção “e”, e a escreve exatamente como fala “i”.

“O papagaio tava passeando...” A tendência de suprimir a sílaba inicial “es” do verbo “estar” já é uma característica comum na sociedade, e ao escrever o aluno tende a suprimi-la também, tendo em vista que o tem como correto.

Situação: O papagaio i a jibóia. Nesse caso podemos perceber a troca da vogal “e” pelo “i”. Isso ocorre pelo fato que o e é uma vogal média e é pronunciada como i em sílabas de tonicidade 1 e 0 em um grupo de força.

O aluno utiliza a letra “i” para escrever a conjunção “e”, erro que pode ser explicado porque nessa faixa etária a criança, em processo de alfabetização, escreve da maneira que ouve e fala.

“Tava”: O aluno pronuncia a forma verbal “estava” não como a língua escrita prevê. É comum que os alfabetizandos reproduzam na fala as características da modalidade oral do português do Brasil, de maneira mais específica as características de seu grupo social.

“O papagaio i a jibóia”: Nesse caso o aluno, ao invés de usar o “e” usou o “i”. Isso ocorre porque a sílaba tem tonicidade 1 no grupo de força.

“O papagaio tava passeando (...)”. Quando não monitoramos a fala, a tendência é suprimir a sílaba “es” nas formas do verbo “estar”. E da mesma forma que os alfabetizandos falam, também tendem a escrever. Ao invés de escrever “estava” o aluno escreveu “tava”.

“O papagaio tava passeando”. O aluno Marcelo escreveu a palavra “estava” do jeito que ele e a maioria dos brasileiros pronunciam. Ele já entende a diferença entre a língua oral e a escrita. Sabe que na língua oral ele pode pronunciar ou não o gerúndio “ndo”, mas que na escrita precisa se monitorar para recuperar essa ausência.

Em nossa fala não-monitorada costumamos pronunciar as formas do gerúndio (“falando”; “aprendendo”; “saindo”) suprimindo o d. Isso acontece porque os fonemas n e d são articulados na mesma região da boca. Por serem fonemas muito próximos o n tende a assimilar o d.

“O papagaio i a jibóia”: Nesse caso a criança grafa a vogal “e” como ela se apresenta foneticamente, ou seja, com o som de “i”, mas também grafa perfeitamente a palavra jibóia, fazendo uso correto da consoante “j” e da acentuação gráfica.

O aluno Marcelo já possui competência comunicativa, mas ainda apresenta alguns erros na escrita, quando ele escreve como se fala, usando “i” em vez de “e”. Outro erro cometido decorre de uma desatenção quando escreveu “siu” em vez de “saiu”.

“O papagaio i a jibóia”. Em quase todas as variedades do português brasileiro, as vogais e e o, quando ocorrem em sílabas átonas, antes ou depois da sílaba tônica, são pronunciadas i e u, respectivamente. Nesse caso houve uma troca da vogal e pela vogal i na grafia da conjunção, por essa ser um monossílabo átono que funciona como uma sílaba pré-tônica das palavras seguintes.

“O papagaio i a jibóia”: O aluno grafou o fonema e quando se encontra em sílabas átonas no grupo de força, com a letra “i”. Seguindo, portanto, a pronúncia.

“O papagaio i a jibóia”. A troca da vogal “e” pela vogal “i” é um fenômeno comum. Nesse caso ele se dá pela interferência da fala na escrita. Pronuncia-se “i” o que se escreve “e”, como na palavra “ele”, onde verdadeiramente se diz “eli”.

“O papagaio tava passeando”. Ao escrever, a criança tende a suprimir a sílaba suprimida na fala. E nós, de um modo geral, tendemos a suprimir em nossa fala a sílaba “es” nas formas do verbo “estar”.

 

 

Análises sobre o texto de Patrícia, sem informação sobre idade e série

Nos fragmentos de análise sobre o texto seguinte, observa-se que os alunos atentaram para a regra variável gradual da supressão do segmento r final e de desnasalização de sílabas finais. Fazem também a distinção entre características da escrita associadas a traços da língua oral e aquelas que se explicam simplesmente pelo desconhecimento das convenções ortográficas.

 

“Quero continuar. A aprende eu quero seu uma promotora quero. Aprender . debiji. Carro. E moto quero. Apender. Ler. Eu quero aprender escreva manho. Eu estou na escola. Para que eu porsa pega uma iprego nenho. Eu gosta ria de.ir em sopolo. De avião.eu quero ter uma casa. Minha . quero se uma profesora- para que - eu poça- em sina ais outra pessoa que poço aprende. Escreve e le. Para que ele e ela poça ter, um fotubo melho. Esta e o meu soi que eu sempo soeis”

 

 

“ela poça ter, um fotubo melho”. A aluna utiliza uma das representações do fonema s, substituindo a grafia padrão por “ç”. A aluna suprimiu o “r” quando grafou a palavra “melhor”, esse segmento tende a ser omitido na fala não-monitorada. Isso é comum, pois a pronúncia do r é uma regra variável.

“Para que eu porsa paga uma...” – A aluna suprimiu o fonema r pós-vocálico final no verbo “pegar”. Tal fenômeno ocorre principalmente no infinitivo do verbo e em palavras de duas sílabas ou mais. A aluna escreveu de acordo com a pronúncia na fala não-monitorada.

“(...) outra pessoa que eu poço aprende. Escreve e Le.” – Aqui ocorreu o fenômeno da supressão do r final, que geralmente ocorre no infinitivo dos verbos, como foi o caso aqui. Porém um aspecto importante a ressaltar é que normalmente nas palavras monossilábicas tendemos mais a pronunciar o r final, mas a Patrícia, não seguiu esse padrão. A supressão do r final está tão consolidada em seu repertório que ela, mesmo no monossílabo “ler”, escreveu “le”. Outro ponto é que, ao longo do texto, ela escreveu o verbo “aprender” de diversas maneiras: “aprende”, “apender” e “aprender”.

No texto escrito por Patrícia, ela escreve: “quero se uma profesora – para que – eu poça – em sina ais outra pessoa que poço aprende”. Esse é um problema que a criança apresenta na escrita e não pode ser explicado pelos hábitos de pronúncia. Há certa confusão na representação escrita do dígrafo ss. Então, no caso da Patrícia, ela trocou o dígrafo ss pelo ç. Esses erros ocorrem devido às convenções das regras de ortografia, processo de padronização da língua, etc.

“Poça”: grafia errada, a Patrícia ainda não se familiarizou com o dígrafo ss. “Em sina”: acredito que a Patrícia não tem conhecimento do verbo ensinar, deve ter associado a alguma palavra como: “em cima”, “em qual”, etc. “Ais”: colocou o i no artigo as. Faltou no trecho concordância numeral.

“Para que ele poça ter”. Poça – possa: A troca do dígrafo “ss” por “ç” pode ser explicada por conseqüência das convenções da língua, pois trata-se de um fonema que possui um som e pode ser representado por diversas letras. A supressão do “m” na conjugação do verbo diz respeito à desnasalização que ocorre nas palavras em que a sílaba final é átona. 

“A aprende eu quero seu uma promotora que quero” – Percebemos que Patrícia suprimiu a letra “r” no fim da palavra. As pesquisas nessa área mostram que suprimimos o “r” com freqüência nos infinitivos verbais e no futuro do subjuntivo, também em palavras que possuem mais de uma sílaba, sendo um fenômeno muito comum e freqüente tanto na fala como na escrita.

“(...) para que eu poça” – Nesse caso não há [interferência] de hábitos de pronúncia, mas sim a forma de representação do fonema “s”, pois ele pode ser representado de várias formas, mas nesse caso a regra da ortografia diz que deve ser escrita com “ss” – possa.

 “quero se uma profesora...” – A menina suprimiu o r pós-vocálico do verbo ser. Em todas as regiões do Brasil o r pós-vocálico, independente da forma como é pronunciado, tende a ser suprimido especialmente nos infinitivos verbais.

“... uma profesora – para que - eu poça – em sina...” – Nas palavras “profesora” e “poça” a representação do fonema s é convencionalmente feita pelo dígrafo “ss”. A aluna ainda não tem domínio das convenções que regem a grafia desse fonema.

 “Eu gosta ria” – Na fala, diferente da escrita, não há divisão de palavras. Na cadeia de fala acabamos unindo alguns morfemas, como no exemplo “homem de vida boa”, acabamos falando “ômidevidaboa”. Por isso se a pessoa não tem familiaridade com a forma escrita, transfere tudo da fala.

“Eu poça” – Sapato, roça, assado, essas três palavras embora escritas de forma diferente pronunciam-se igualmente seus “sas”. Pessoas em início de escolarização encontram muita dificuldade ao escrevê-las, talvez devido à falta de familiarização com a forma escrita e as freqüentes interferências da fala na escrita.

 

Análises sobre texto de Lucas, 8 anos, 2ª série, nasceu e mora em CeilândiaDF

 

Nos fragmentos de análise do texto seguinte, observamos que os alunos estão alerta para a despalatalização da consoante nasal palatal, traço muito freqüente nas comunidades de fala do Centro-Oeste. Atentam também para o fenômeno da concordância nominal não-padrão e levantam hipótese de hipercorreção, além de perceber a monotongação do ditongo ou.

 

 “A Dengue

 Eu fui la em São Paulo e coeci um menino que tinha dengue e ele quase morreu e o nome dele e Junío e ele tem um irmao que tambem tem dengue e a mãe deles fico quase doida e o pai tambem e na casa deles os visinho não tampava a caixa dagua e os xaxis ela não trocava a agúa e não quidava e e quando as dona xego ela vi que os menino estavam com dengue e ela teve que coida deles e ae que o pai não deixou e o menino fico feles mas so que o pai e o irmao mas pequeno não quer e a mãe fico muito braba e o irmao tambem e o Junio foi embora para São Paulo”.

 

“Eu fui lá em São Paulo e coeci”. Ocorreu a perda do fonema nasal palatal que é representado na escrita pelo dígrafo “nh”.

(...) e na casa dele os visinho” – Nessa frase vemos a ocorrência de dois fenômenos. O primeiro é que a criança escreveu “vizinho” com “s” e não com “z”. Isso ocorre devido ao caráter arbitrário das convenções da nossa língua. O fonema s pode ser representado de inúmeras formas e a criança, por não conhecer muito bem ainda as convenções gramaticais da nossa língua, escreve “vizinho” com “s”. Mesmo fenômeno ocorre na palavra “poço”.

Outro fenômeno que ocorre nessa frase é a não-utilização do plural redundante. A criança marcou o plural somente nos elementos que ocorreram à esquerda do nome. No caso ele marcou o plural em “deles” e “os”, mas não em “visinho”.

“vi que os menino”. Ocorreu a supressão do fonema “s” no final da palavra menino. Esse uso é muito freqüente quando estamos falando sem prestar muita atenção à forma de nossa fala (estilo não-monitorado).

Coeci – O adequado de acordo com a gramática normativa é “conheci”, por isso pode-se analisar que tal aluno ainda não tem conhecimento pleno de dígrafo.

 “na casa deles os visinho”. Nessa situação houve a supressão do “s” final, pois tendemos a fazer a concordância nominal colocando a marca de plural nos elementos que ocorrem à esquerda do nome. Na mesma palavra também o aluno usou o “s” no lugar de “z”. Isso ocorre devido às várias convenções ortográficas no processo de padronização da língua.

“e na casa deles os visinho”; Lucas, 8 anos. No trecho o aluno tende a flexionar somente os elementos à esquerda do nome, no exemplo, esse elemento é um artigo. A regra de concordância não-redundante ocorre com mais freqüência, nos estilos não-monitorados. Quando a forma de plural é apenas um acréscimo de um s, tendemos a não empregá-la.

É possível observar que nem todos os problemas que as crianças apresentam em sua escrita podem ser explicados pelos seus hábitos de pronúncia. No trecho o aluno escreveu “visinho” com s, sendo que, de acordo com a norma padrão, usa-se o “z”. Isso ocorreu porque um mesmo fonema pode ser representado de duas formas ou mais. A forma de representar o fonema s em cada palavra é convencionada pelas regras de ortografia, que o aluno ainda irá aprender ao longo do processo de alfabetização.

“e a mãe fico quase doida”; Lucas, 8 anos. É comum os alunos reproduzirem na escrita o processo próprio de sua língua oral. No trecho, o aluno reduz o ditongo ou, que tende a ser pronunciado como uma vogal simples o. Isso é comum quando os alunos ainda não têm muita familiaridade com a língua escrita.

“...não trocava a água e não quidava...”: Neste caso a criança usa o “qui” para expressar o “cui”.

Nesse texto a criança comete um erro na linha 4, no termo “chegou”. Ela substitui o “ch” por “x”. Erro comum em que crianças e até mesmo adultos cometem. Também subtrai a letra “u” do fim da palavra, erro que pode ser explicado pela forma como a palavra às vezes é pronunciada.

“...coeci um menino...”. Na palavra “conheci” o “nh” foi suprimido, pois é um travamento nasal e por isso não é muito marcado na fala, ocorrendo também na escrita.

“...os visinho...”. Na palavra “visinho”, o aluno se equivocou ao escrevê-la com “s”, pois ele ainda não está familiarizado com as convenções da escrita. Já a concordância nominal não foi realizada pois há uma tendência de marcar o plural somente nos elementos que estão à esquerda do nome.

“Ela vi que os menino estavam com dengue e ela teve que coida deles”. Vi: Suprimiu o u, pelo que eu li foi por esquecimento, ela teria competência para escrever o verbo “viu”. Os menino: precisa se familiarizar com a concordância. Coida: para mim foi hipercorreção o no lugar do u e suprimiu o r do infinitivo do verbo “cuidar”.

“(...) e a mãe deles fico quase doida” – Ocorre redução do ditongo ow na palavra “fico”. Isso ocorre porque freqüentemente em nossa fala não pronunciamos o ditongo “ou”. Isso ocorre até em sílabas tônicas finais que são mais resistentes a mudanças.

“(...) que os menino estavam com dengue” – Ocorre concordância não-redundante. Tal fenômeno, que ocorre com mais freqüência nos estilos não-monitorados, nesse caso ocorreu na escrita. Isso ocorre porque geralmente dispensamos os elementos redundantes na fala.

Lucas suprimiu o “s” final em “os visinho, as dona e os menino”, pois ainda escreve de acordo com a linguagem oral, em que se costuma marcar o plural apenas no elemento que vem à esquerda do substantivo, que no caso são os artigos “os” e “as”.

“...vi que os menino...” – Geralmente se faz a concordância nominal colocando a marca de plural nos elementos à esquerda do nome, no caso o artigo “os” deixando de marcar o nome que vem em seguida “menino”. O aluno optou pela marcação não-redundante.

 “... coeci um menino que tinha dengue...” – Percebemos que Lucas suprimiu o “nh” da palavra. Talvez pelo “nh” ser um dígrafo e representar apenas um único som ele não achou na hora de escrever a letra correta, então escreveu a palavra da forma como ele a fala.

 Podemos observar a influência de uma característica comum na Região Centro-Oeste, que é a despalatização da consoante nasal palatal nh. É provável que essa criança suprima também essa consoante em sua pronúncia.

 

 

Análises sobre texto de Laura, 2ª série

 

Nos excertos das análises sobre o texto seguinte percebemos a atenção dos alunos para com regras variáveis como a supressão do r final e a redução do ditongo ei. Atentam para a repetição do marcador conversacional “aí”, mas ainda não dispõem de informação precisa para interpretá-la. São mais consistentes na análise da hipossegmentação nos grupos de força.

 

“O jogo de Paulo S. e Gleiston

  Certo dia Paulo Sérgio convidou seu amigo Gleiston para passar a tarde com ele em sua casa nova.

  Ai Paulo Sérgio teve a idéia de jogarbola, e ai Gleiston teve a idéia de jogar na sala. Ai paulo falou que sua mãe tinha acabado de arrumar a sala, ele disse que sim.

  Ele Paulo S. falou que era golero e Gleiston ia chutar, e Gleiston chuton bem no vaso de flores que mamãe tinha ganhado.

  E Paulo S. ficou muito assustado, e depois ele teve a idéia de amarra com cadaços do seu tênis.

  E depois ele saiu para jogarno jardim.

                                                                Fim”

 

“A idéia de amarra”. Ocorreu a supressão do “r” final. Em palavras terminadas com o fonema “r” esse segmento tende a ser suprimido na fala não-monitorada.

“Teve a idéia de jogarbola”. Ocorreu um grupo de força em “jogarbola”. Na fala não há necessariamente pausas entre as palavras; já na escrita deixamos um espaço em branco entre elas. A criança escreveu da mesma forma que pronuncia, sem pausa.

Laura transcreveu em seu texto a palavra “golero” na forma em que pronuncia, tendo dificuldade em separar a língua oral da língua escrita, o adequado é “goleiro”.

“Paulo S falou que era golero...” – A aluna escreveu a palavra “golero” como a pronuncia, ou seja, suprimiu o “i” no ditongo ei.; “Paulo S teve a idéia de jogarbola” – Ela aglutinou as palavras “jogar” e “bola” interpretando-as como uma única palavra, porque são pronunciadas sem pausa. A seqüência “jogar bola” forma um grupo de força cujo pico de acentuação é a sílaba “bo”.

“E depois ele saiu para jogarno jardim”. Nessa expressão podemos identificar o grupo de força. A sílaba “gar” é a tônica então o que a precede e a segue são fracas. Quando falamos juntamos essas palavras e a escrevê-las fazemos o mesmo.

A Laura, aluna da 2ª série, escreve: “E depois que ele saiu para jogarno jardim”. O caso da palavra escrita “jogarno” é uma representação de um grupo de força. Os alfabetizandos, como Laura, tendem a escrever o grupo de força composto de duas ou mais palavras como se fosse uma. Como não há pausas na pronúncia, eles interpretam como se fosse uma só palavra.

No texto da Laura, 2ª série, está escrito: “Ele Paulo S. falou que era golero e Gleiston ia chutar...”. Quando Laura foi escrever a palavra “goleiro”, ela escreveu representando uma redução de ditongo ei, ocorrendo a perda da semivogal i. Essa redução ocorre porque a semivogal que ocupa o lugar da 2ª consoante nas sílabas CVC travando-a tende a ser suprimida na fala. Assim Laura escreveu como pronunciava.

“...falou que era golero...”. No ditongo decrescente “ei”, da palavra “goleiro”, a vogal “i” foi suprimida, pois na estrutura silábica CVC, em que o “i” é uma semivogal ele funciona como um travamento silábico, fechando a sílaba. Esta monotongação do ditongo “ei” também é muito freqüente na fala, o que se reflete na escrita.

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Eu  vou estar reclamando com o bispo....

Eu estava viajando e precisava ligar pra casa.  Pra evitar onerar a conta do hotel, nesses casos uso o celular. Digitei o número e aguardei. Fui surpreendida por  uma gravação que me alertou:

 _ Créditos insuficientes para realizar esta ligação. Aproveite este momento para adquirir  mais créditos.

Julguei que havia digitado algum número errado e repeti a operação. E novamente  a gravação me repreendeu. Eu não tinha créditos suficientes. Precisava adquirir  novos créditos.

Liguei para a portaria do hotel para pedir o número 0800 de minha operadora.  E aí comecei  uma sequência de chamadas, sempre atendida por  uma gravação. Lembrei-me de que havia um decreto presidencial, ou uma lei recente, que obrigava as prestadoras de serviço via telefone a atender os clientes com certa presteza. Se não me engano, a lei previa até um prazo máximo que o cliente poderia esperar. Depois disso, a empresa incorria em pesada multa.  Sem ter a quem reclamar e sem querer perturbar o bispo, continuei  meus esforços ingentes e solitários para falar com a operadora. Depois de algumas tentativas mal-sucedidas, finalmente consegui ser atendida por  um ser humano. Bingo!!

_ Moça, eu estou tentando fazer uma ligação interurbana e recebo mensagem gravada me informando que meus créditos são insuficientes.  Como pode ser isso se esta linha não é pré-paga? A conta é cobrada todo mês  em débito automático. De fato, pago mesmo uma quantia fixa, quase sempre superior ao meu consumo.

_ Um momento, a senhora poderia confirmar alguns dados, por favor. Precisamos do seu CPF. Data de nascimento. Endereço residencial. Para sua segurança esta gravação será gravada.

Forneci tudo e continuei aguardando.  Alguns minutos depois , minha interlocutora retoma a conversa.

_ Obrigada por aguardar. De fato a senhora tem crédito. Mas sua linha está bloqueada porque a senhora tem muito crédito. É para sua segurança.

_ Pera aí, moça. A minha linha está bloqueada porque eu estou com muito crédito acumulado?_ Repeti pra ter certeza de que eu havia compreendido corretamente.

_É isso mesmo, mas nós vamos estar providenciando desbloquear a linha.

_É bom mesmo, porque se você não desbloquear a linha eu não posso fazer ligação interurbana. E então , como vou gastar os créditos acumulados?

_ Eu vou estar transferindo a senhora para a minha supervisora. Ela vai lhe explicar  a situação.

_Boa, noite, supervisora. Eu preciso fazer uma ligação interurbana. Por isso vocês precisam desbloquear a minha linha. A sua colega disse que a minha linha está bloqueada porque  eu tenho muito crédito acumulado. Mas se a empresa não desbloquear a linha, como poderei gastar meus créditos?

_ Nós vamos estar desbloqueando a sua linha dentro de quatro horas. Dentro de quatro horas, a senhora tente de novo fazer a ligação. Se não conseguir, ligue de novo para este número.  Esta ligação é gratuita.

_ Mas é difícil falar com vocês.

_ Se não conseguir desse aparelho, ligue de outro celular ou de um fixo.  A senhora gostaria de anotar o número desta operação?

_ Não, não é preciso. Eu só gostaria de estar usando o meu celular, para estar falando com meu marido, pois eu estou viajando.  

_ Muito obrigada, a empresa agradece a sua ligação.  Tenha uma boa noite.

_ Boa noite para você também.

 

 

 

 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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