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Sobre ortografia 
e acordos  

Os reformadores defendem uma escrita que reproduza a fala, mas será que 
os 200 milhões de brasileiros falam 
do mesmo jeito?

 

//Por Marisa Lajolo

Ortografia: palavra que vem da Grécia. E habita, com certa regularidade, nossas aulas: ensinamos ortografia, corrigimos ortografia. Um derivado dela ortográfico aterrissa, feliz da vida, em nossos computadores. Promete, em alguns programas, correção ortográfica e em outros, verificação ortográfica. Servicinho que a gente pode ou não aceitar. E a gente aceita, claro.

 

Mas ortografia ultimamente tem ocupado alguns jornais e programas de televisão: parece que, em Brasília, um grupo de senadores quer propor uma “nova ortografia” para nossa língua.

 

Levo muito a sério ortografia: afinal, fui aluna da querida Dona Célia (de Paula Martins Zaragoza), no Colégio Canadá, em Santos. E já estava eu mergulhando em artigos e sites relativos ao tema, quando meus botões – sempre atentos – chamaram minha atenção: ganhei um sonoro puxão de orelhas e uma bronca:

 

– Ô, desmiolada... pois não lembra que a ortografia acabou de mudar? Que todos os livros têm na capa a informação de que “estão de acordo com a nova ortografia”?

 

... pois não é que meus botões tinham razão?

 

Em 1990, o Brasil e os outros países que, juntos, constituem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), da qual fazem parte Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Portugal, Timor-Leste e – adesão recentíssima – a Guiné Equatorial, comprometeram-se a unificar suas ortografias. Meus botões, pacientes, me explicam: se o combinado é escrever passarinho com dois “esses”, não se pode escrever paçarinho com cê-cedilha...

 

A unificação ocorreria em prazos diferentes em diferentes países da CPLP. Com algumas quedas de braço aqui e ali, o Brasil implementou a nova ortografia em 2009, mas ainda tinha um chorinho de três anos, durante os quais a nova e a velha ortografia podiam conviver. Chorinho brasileiro agora estendido até 2016. Mas, com ou sem chorinho, meu corretor ortográfico e minha caneta vermelha de corrigir trabalhos de alunos exilaram o acento de “ideia” e, juntamente com ele, partiu para a Terra do Nunca o trema (aqueles dois pontinhos que às vezes coroavam o “u”). Partiram para sempre.... snif snif snif !, e a querida Dona Célia teve tanto trabalho para nos ensinar direitinho! Em compensação, voltaram a integrar o alfabeto as anteriormente exiladas letras K, W e Y. Bom para elas!    

 

– E aí, tá vendo?, insistem meus irrequietos botões. Com tantas mudanças tão fresquinhas já se fala em nova mudança? 

Curioso é que um dos argumentos levantados a favor desta nova alteração ortográfica é que ela vai beneficiar os estudantes. Meus botões me perguntam:

 

– Que benefício seria esse? 

 

Dizem os reformadores que seria necessário muito menos tempo para ensinar/aprender ortografia. Será mesmo? Às vezes, penso que se aprende ortografia menos com aulas do que com leitura. Pois é lendo que a gente vê hoje escrito com agá e ontem escrito sem agá. Ou será que a gente lembra toda hora que hoje vem de uma palavra latina que tinha agá inicial? 

 

Sei não, sei não...

 

Os reformadores defendem – ao que entendo do que dizem e do que escrevem – uma ortografia que reproduza a fala.  Mas os 200 milhões de brasileiros falam do mesmo jeito os sons representados por certas letras? Com certeza, não falam (meus botões aplaudem essa minha afirmação!).  Não falam mesmo! De Norte a Sul, de Leste a Oeste, vocalizamos de maneira muito semelhante os sons representados por certas letras. Mas nem sempre é assim.

 

Vamos a um caso.

 

Uma palavra simples, do vocabulário cotidiano de todo mundo, e que ocorre com muita frequência tanto na língua falada quanto na escrita: a palavra vocês, pronome que a gente usa toda hora. Será que muita gente – muita gente mesmo! – não enfia o som da letra i quando berra para chamar atenção do povo que está meio longe da churrasqueira, batendo bola? Mas não se escreve voceis... Na mesma situação, outros muitos brasileiros não pronunciariam a mesma palavra com uma espécie de chiado no final? Meio como voceish? 

 

Se as situações acima são verossímeis – e nossos olhos e ouvidos dizem que elas o são, poxa! –, parece impossível pensarmos numa língua escrita igualzinha à língua falada. A escrita é uma convenção, um pacto. Assim, ficou combinado que casa se escreve com s. Mas não podia ser com z? Podia, mas o combinado foi outro, e então é errado escrever casa com zê.

 

As convenções da escrita são fruto da discussão de muitos profissionais: linguistas, gramáticos, escritores, professores e, no caso do Português, participaram da discussão profissionais dos vários países nos quais ele é falado como língua oficial. E alguns já querem mudar tudo de novo?

Acho que meus botões têm razão: vamos deixar nossa língua em paz por um tempinho e, em vez de discutir “esses” e zês, vamos cuidar para que ela seja bem trabalhada, em toda sua riqueza e complexidade na escola.

 
 

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Nasci no remoto ano de 1945, em São Lourenço, encantadora estação de águas no sul de Minas, aonde Manuel Bandeira e outros doentes iam veranear em busca dos bons ares e águas minerais, que lhes pudessem restituir a saúde.

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